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Fragilidade, ideologia e classe: comentário a um texto de Ricardo Camargo

  • 24 de mar.
  • 8 min de leitura

-Guilherme José Purvin de Figueiredo -




Em seu mais recente artigo na Revista Pub, intitulado A Fragilidade da Consciência de Classe: Corporativismo e Dissidência, o professor Ricardo Antonio Lucas Camargo sustenta que a consciência de classe é mais frágil do que supõe certa tradição marxista, porque os indivíduos nem sempre reconhecem espontaneamente os próprios interesses materiais. Em seu lugar, atuam mecanismos de pertencimento, medo, aspiração e autoengano, que favorecem o corporativismo. Para o autor, este “nunca vai além de um egoísmo em dimensão coletiva” e se alimenta tanto de inimigos imaginários quanto da esperança de ascensão social.


O texto argumenta que a política moderna está repleta de formas de falsa consciência. Durante a Guerra Fria, por exemplo, o “combater o comunismo” tornou-se critério para julgar todos os problemas sociais, reais ou imaginários. Em vez de consciência de classe, prevaleceriam adesões afetivas e ideológicas que desviam a atenção das condições concretas de vida — como a necessidade elementar evocada pelo personagem de Os ratos, de Dyonélio Machado, de saber “se terá ou não como pagar o leite no café da manhã do dia seguinte”.


Ricardo Camargo mostra, porém, que a situação de classe não determina mecanicamente as posições políticas. Cita Joaquim Nabuco, defensor da abolição a despeito de sua origem latifundiária, e Monteiro Lobato, que, mesmo conservador, entrou em choque com sua classe ao reagir à ilegalização do Partido Comunista e escrever a Parábola do rei Vesgo. A dissidência de classe aparece também em Terra em Transe, de Glauber Rocha, e é lida à luz de Carl Schmitt, para quem o “inimigo comum” aglutina grupos sociais heterogêneos.


O articulista dedica atenção especial à pequena burguesia e ao intelectual pequeno-burguês, que frequentemente aspira a integrar um mundo que o rejeita. Essa tentativa é condensada na metáfora final de La Fontaine — “A gralha vestida com penas de pavão” —, imagem da ilusão de ascensão e da ausência de consciência de classe.


A crítica de Ricardo Camargo é pertinente, mas apenas quando dirigida a uma leitura economicista e simplificada de Marx, segundo a qual a posição objetiva de classe geraria automaticamente consciência política. De fato, a tradição marxista oferece elementos para sustentar que medo, prestígio, aspiração social, ideologia e pertencimento podem bloquear a percepção dos interesses materiais imediatos — o que se encontra, por exemplo, na teoria da hegemonia de Gramsci e na distinção leninista entre consciência sindical e consciência política, desenvolvida em Que fazer?.


Discordo, porém, da afirmação de que “Marx não deixou, paradoxalmente, de incidir no idealismo cujas falhas tanto denunciou”.


Em A Ideologia Alemã, Marx e Engels já recusam qualquer transparência espontânea da consciência social, ao afirmar que “as ideias da classe dominante são, em todas as épocas, as ideias dominantes” e que tais ideias “não são mais do que a expressão ideal das relações materiais dominantes”. A consciência social não surge de modo livre e imediato, mas é mediada por relações históricas de dominação, de modo que aquilo que aparece como universal ou racional exprime, na verdade, a posição da classe dominante. É mais rigoroso afirmar, portanto, que em Marx já existe uma teoria da mediação ideológica da experiência social — e não a suposição ingênua de que a posição objetiva de classe produziria automaticamente consciência política.


No mesmo horizonte teórico, Marx e Engels observam que a comunidade política autonomizada aparece para os indivíduos como algo exterior: a “comunidade aparente” torna-se “uma comunidade completamente ilusória”, e as relações sociais surgem como poderes separados dos próprios indivíduos. Em O Capital, esse raciocínio se aprofunda: no capítulo sobre o fetichismo da mercadoria, Marx afirma que a forma-mercadoria “reflecte para os homens os caracteres sociais do seu próprio trabalho como caracteres objectivos dos próprios produtos de trabalho” e faz com que “a relação social determinada entre os próprios homens” assuma “a forma fantasmagórica de uma relação de coisas”. Longe de supor uma transparência espontânea da experiência social, Marx descreve um mecanismo estrutural de obscurecimento das relações de exploração.


Em Miséria da filosofia, Marx distingue ainda a existência objetiva da classe de sua constituição política subjetiva: a massa trabalhadora “é já, em face do capital, uma classe, mas ainda não o é para si mesma”; somente “na luta” ela “se constitui em classe para si mesma”. Marx não supõe, portanto, transparência imediata entre condição material e consciência política, mas um processo histórico de formação da classe por meio do conflito.


Quanto aos exemplos de Joaquim Nabuco e Monteiro Lobato, creio que há aí um deslocamento da discussão da estrutura de classe para a psicologia individual.


No marxismo, a consciência de classe não se confunde com a opinião empírica de um ou outro membro da classe. Lukács formula isso de modo inequívoco: “Essa consciência não é nem a soma nem a média do que os indivíduos que formam a classe, tomados separadamente, pensam, sentem, etc.”; por isso mesmo, “a ação historicamente decisiva da classe como totalidade está determinada, em última instância, por essa consciência e não pelo pensamento etc., do indivíduo”. A análise de classe não pode ser refutada por exceções biográficas, porque o comportamento singular não esgota a posição objetiva nem a função histórica de uma classe.


E. P. Thompson, em A Formação da Classe Operária Inglesa, recusa tanto o determinismo economicista quanto o voluntarismo biográfico: a classe "não existe como uma entidade separada que olha em volta e encontra um interesse de classe já prescrito para ela"; ela "se faz a si mesma tanto quanto é feita". A dissidência individual não refuta a análise de classe — ela é parte constitutiva do movimento pelo qual as classes se formam, entram em crise e se recompõem historicamente. Os casos de Nabuco e Lobato são, nessa perspectiva, episódios de um processo mais amplo de reconfiguração ideológica de suas respectivas classes, e não exceções que a contradizem.


Raymond Williams, em Marxismo e Literatura, oferece instrumento analítico complementar ao distinguir entre cultura "dominante", "residual" e "emergente" no interior de uma mesma formação social. A partir dessa distinção, a conduta de um membro dissidente de sua classe não invalida a estrutura de classe, mas revela que toda hegemonia é parcial e internamente contestada: "nenhuma forma de dominação é total ou exclusiva". O abolicionista de origem latifundiária e o conservador que reage à ilegalização do Partido Comunista exprimem, cada qual a seu modo, valores emergentes que coexistem de forma tensa com a cultura dominante de sua própria classe — sem que essa tensão dissolva a determinação estrutural que os condiciona.


Marx vai na mesma direção em O 18 Brumário de Luís Bonaparte, ao advertir que o essencial não é a origem familiar imediata, mas o fato de que a “mentalidade não ultrapassa os limites que esta não ultrapassa na vida”. Os casos de Nabuco e Lobato não demonstram ausência de determinação de classe; demonstram apenas que a relação entre origem social, posição ideológica e função política é mediada, contraditória e historicamente móvel.


Em contrapartida, são particularmente felizes as argumentações do articulista nas passagens relativas ao cinema. Ao recorrer a Terra em Transe, Camargo mostrar a dissidência de classe e a facilidade com que o medo das perdas imediatas pode reconduzir um personagem vacilante ao campo da ordem. A referência ao cinema de Frank Capra — O galante sr. Deeds e O senhor Smith vai a Washington — é igualmente bem escolhida, por mostrar como Hollywood construiu uma figura positiva do pequeno-burguês moral e conservador, convertendo-o em veículo de reafirmação dos valores fundantes da sociedade estadunidense. Também é aguda a observação sobre a difusão, no Brasil dos anos 1950, de conflitos geracionais moldados por signos da cultura de massa norte-americana — James Dean, comédias românticas, o american way of life —, pois aí o cinema aparece não apenas como entretenimento, mas como aparelho ideológico, máquina de formação imaginária da pequena burguesia.


Esse eixo cinematográfico comportaria exemplos análogos. Para o tema do trabalhador capturado pela lógica patronal, A Classe Operária Vai ao Paraíso, de Elio Petri, é quase exemplar: o operário internaliza a disciplina produtivista antes de perceber seu lugar na engrenagem. Para o problema da adesão operária à ordem patronal ou paraestatal, Sindicato de Ladrões, de Elia Kazan, oferece figuras de trabalhadores atravessados pela corrupção, pelo medo e por formas degradadas de representação. Quanto a personagens de origem burguesa atraídos pelo socialismo, La Chinoise, de Jean-Luc Godard, é talvez o exemplo mais direto, por tratar da radicalização política de jovens oriundos de meios relativamente privilegiados. No cinema brasileiro, O Homem que Virou Suco (1980), de João Batista de Andrade, exprime de forma mordaz o caráter explosivo das contradições ideológicas. O filme acompanha Deraldo, poeta popular nordestino recém-chegado a São Paulo, que passa a ser confundido com Severino, operário de uma multinacional que matara o patrão durante uma cerimônia em que era celebrado como “operário-símbolo”. A confusão entre os dois permite ao filme articular migração, repressão, exploração do trabalho e perda de identidade, expondo como a ordem social fabrica submissão, revolta e bode expiatório ao mesmo tempo.


Feitas essas ressalvas, é inegável que o texto de Camargo oferece um diagnóstico que se torna ainda mais urgente quando confrontado com as transformações do capitalismo contemporâneo. O desmanche sistemático dos sindicatos, a pejotização e a uberização do trabalho fragmentam as experiências coletivas que, historicamente, constituíam o terreno sobre o qual a consciência de classe poderia se formar — mesmo que de maneira contraditória e mediada, como já reconhecia o próprio Marx. O resultado é a emergência de um precariado disperso, que não partilha nem espaço de trabalho, nem tempo comum, nem inimigo claramente identificável, tornando ainda mais improvável qualquer solidariedade orgânica. Nesse vácuo, os mecanismos de pertencimento afetivo e ideológico descritos por Ricardo Camargo ganham terreno fértil: a ascensão de uma direita de base evangélica oferece precisamente aquilo que a fragmentação laboral retira — comunidade, identidade, propósito e um inimigo comum. O pequeno-burguês aspiracional, a gralha vestida com penas de pavão, encontra hoje sua figuração mais acabada no motorista de aplicativo que se identifica com o patrão que jamais conhecerá, ou no microempreendedor individual que celebra a própria precariedade como liberdade. A falsa consciência, longe de ser um resíduo do passado, é hoje uma condição estruturalmente produzida.


Fontes consultadas:

  • CAMARGO, Ricardo Antonio Lucas. A fragilidade da consciência de classe: corporativismo e dissidência. Revista PUB – Diálogos Interdisciplinares, 1 mar. [s.d.]. Disponível em: https://www.revistapub.com.br/. Acesso em: 16 mar. 2026.

  • ENGELS, Friedrich; MARX, Karl. A ideologia alemã. Cap. I, “Feuerbach. Oposição das Concepções Materialista e Idealista”. Trad. portuguesa no Marxists Internet Archive. Disponível em: https://www.marxists.org/portugues/marx/1845/ideologia-alema-oe/cap2.htm; em https://www.marxists.org/portugues/marx/1845/ideologia-alema-oe/cap3.htm; e em

    https://www.marxists.org/portugues/marx/1845/ideologia-alema-oe/cap4.htm. Acesso em: 16 mar. 2026.

  • LUKÁCS, Georg. Consciência de classe. In: LUKÁCS, Georg. História e consciência de classe. Trad. portuguesa no Marxists Internet Archive. Disponível em: https://www.marxists.org/portugues/lukacs/1920/consciencia/cap01.htm. Acesso em: 16 mar. 2026.

  • MARX, Karl. Miséria da filosofia. Cap. II, § V, “As greves e as coalizões dos operários”. Excerto “Luta de Classes e Luta Política”. Trad. portuguesa no Marxists Internet Archive. Disponível em: https://www.marxists.org/portugues/marx/1847/04/luta-class-luta-polit.htm. Acesso em: 16 mar. 2026.

  • MARX, Karl. O 18 Brumário de Luís Bonaparte. Cap. III. Trad. portuguesa no Marxists Internet Archive / Arquivo Marxista. Disponível em: https://www.marxists.org/portugues/marx/1852/brumario/cap03.htm. Acesso em: 16 mar. 2026.

  • MARX, Karl. O capital: crítica da economia política. Livro I, cap. 1, seção 4, “O carácter de feitiço da mercadoria e o seu segredo”. Trad. portuguesa no Marxists Internet Archive. Disponível em: https://www.marxists.org/portugues/marx/1867/capital/livro1/cap01/04.htm. Acesso em: 16 mar. 2026.

  • THOMPSON, E. P. The Making of the English Working Class. Londres: Victor Gollancz, 1963. Prefácio, p. 9. A passagem citada consta do prefácio original: "class happens when some men, as a result of common experiences [...] feel and articulate the identity of their interests as between themselves, and as against other men whose interests are different from (and usually opposed to) theirs". A formulação "não existe como uma entidade separada" é da mesma página.

  • WILLIAMS, Raymond. Marxism and Literature. Oxford: Oxford University Press, 1977. Cap. 8 ("Dominance, Residual, and Emergent"), p. 121–127. A formulação "nenhuma forma de dominação é total ou exclusiva" corresponde à afirmação de Williams de que "no mode of production and therefore no dominant social order and therefore no dominant culture ever in reality includes or exhausts all human practice, energy, and intention" (p. 125).



Guilherme José Purvin de Figueiredo, professor de Direito Ambiental e Procurador do Estado/SP Aposentado, é graduado em Direito e Letras pela USP, Doutor e Mestre, Pós-Doutorando junto à FFLCH-USP, desenvolvendo pesquisa no âmbito da Geografia, Literatura e Arte. Membro do IBAP. Escreve todo dia 24.




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