A MANJEDOURA E O NATAL COMERCIAL

Atualizado: 24 de Dez de 2019

-NORMA SUELI PADILHA-


O que houve com o natal, com a expectativa de uma noite tão especial? Com a alegria da comemoração de uma data única e cheia de espiritualidade, na qual os desacertos, os desacordos, os mal entendidos, as magoas e ressentimentos deveriam ser esquecidos e descartados, para zerar o ano e começar de novo, com perdão, união e fraternidade?


O que houve com o clima de celebração que unia a todos no mesmo sentido transcendente, da exaltação ao presépio, da visita a manjedoura, da adoração ao “menino jesus”, da admiração aquela mulher santa que disse “sim “e permitiu que este momento único na história da humanidade acontecesse para sempre? Por que tudo se transformou em correria, no stress do supermercado para garantir comida e bebida, dos shopping para compras sem fim, das estradas abarrotadas, aeroportos e rodoviárias entupidas de pessoas estressadas, todos com pressa de brindar, comer e se embebedar, em um noite como outra qualquer, que passa tão depressa até outra data comemorativa chegar?


Onde colocamos o nosso olhar, o nosso cuidado, o nosso bem estar? Na manjedoura ela já não está, não nos basta aquela visão simples e delicada, de um casal pobre, acolhido em um estábulo e cercado de animais e pastores, onde sobre o feno, sem lençóis ou tecidos caros, depositaram seu pequeno menino, porque ninguém na cidade os quis acolher, não havia lugar para eles entre os que como nós, estavam ocupados com suas próprias ocupações, preocupações e histórias pessoais.


Refletir com saudades dos natais de décadas atrás, do clima especial que envolvia as famílias, da centralidade em uma espiritualidade que exaltava a cena de um presépio e a oração em frente e uma pequena manjedoura, contrasta enormemente com a atual comercialização da data.

...talvez por substituir a espiritualidade por desejos materiais, representados em produtos de marketing é que pareça que já nem haja mais natal...

O natal virou produto, seus símbolos dispostos no comércio, tudo com custo e preço, e seu sentido virou presente, pacote, embrulho. Sua identificação não é mais de um menino envolto em faixas, mas de um velho de barbas brancas e roupas quentes, que só traz um grande volume pleno de desejos materiais. E a razão dos encontros se concentra mais na gastronomia de uma data comemorativa, que todo ano chega tão depressa que mal dá tempo de recolocar os enfeites, do que na singela expectativa de encontros fraternos de uma data que já foi tão única no calendário anual. Talvez por substituir a espiritualidade por desejos materiais, representados em produtos de marketing é que pareça que já nem haja mais natal, mas apenas uma outra data comercial.

Se esta data já não traz o mesmo clima tão encantador, tão fraterno que exigia de nós um olhar para o outro, a prática da caridade e do acolhimento, o repensar nosso egoísmo e exercitar o perdão aos demais e a nós mesmos, um agir como cristãos, talvez , então, não tenha sido os tempos que mudaram, mas o quanto investimos na crença, na fé, na convicção de que houve um momento único e especial, quando uma mulher, dentre todas as mulheres, foi considerada digna e disse sim aos “céus”, e que aquele menininho naquela manjedoura tão simples, envolto em faixas e cercado por animais e pastores, é o “sinal”, o sinal do olhar de “deus” sobre nós, da benevolência divina para com a humanidade !


Encontrar com o olhar do coração um “recém-nascido envolto em faixas e posto numa manjedoura”, é que representa todo o sentido do “natal”, e do porque comemorar esta noite de forma tão diferenciada e especial. Pois só o que está no coração, na convicção de que o “natal” representa uma “boa nova”, e que é para todo o sempre uma “esperança” que traz sentido a existência de cada um de nós, nos faria adorar e exaltar no natal este “menininho”, que ao nascer para todos nós, representa o verdadeiro “presente”, a dádiva, a benção que em si concentra toda a essência e sentido da nossa humanidade, e nos faz crer que somos todos irmãos e filhos de um único e mesmo “pai”.

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