Clandestina

- Marilia Gonçalves -


Foto: Pesticides News - https://www.pesticides.news/2017-12-07-cadusafos-toxicity-side-effects-diseases-and-environmental-impacts.html

A montanha de cabelos que se enrosca no pente deixa Maya enojada. Enrola o grumo nos dedos e dispensa no lixo. Nem toda a cesta de turméricos e brássicos consumidos em bombas de vitamina crua está dando conta. Está certa de que não vale a pena sobreviver a um câncer para seguir se escondendo nas tubulações de esgoto. Nada ou quase nada sobra de vontade. Veste uma calça cáqui e uma camiseta da mesma cor, calça meias de algodão e por cima as galochas surradas. Confere e organiza a bagagem da pequena mochila que acomoda nas costas. Tem sido exata na organização do que é preciso carregar, cada quilo a mais pinça insuportavelmente suas costelas e joelhos.

Mais um dia de reconhecimento de terreno. Conhecer a cidade, seus recantos.

O médico ficou olhando os exames de imagem por minutos seculares. Indicou um roteiro, não há alternativas, ele disse. Pelos prognósticos, Maya deveria estar morta há pelo menos seis meses, mas segue clandestinamente viva.

Raysa, Dyana e Lysa também estão doentes. Lola, Nina, Margô e Rebeca morreram ano passado. Seus homens fugiram dessa terra maldita assim que puderam. Malditos eles, devem estar a morrer de qualquer outra coisa, não muito longe, Maya deseja sem culpa.

Há duas semanas, as sobreviventes se puseram na rua a bradar contra a iminência da morte ou da vida decrépita. Depois, Maya foi entrevistada e aconselhada a acomodar-se em paz. Isso significa ter sido colocada na lista dos desagradáveis. Nada bom.

Quando as mulheres começaram a adoecer, Soraya chamou para reuniões, bateu de porta em porta, pareceu uma alucinada em sua pregação. Era preciso fugir do veneno. Não é nada fácil conseguir alimentos fora da feira oficial, Soraya, reclamam as mulheres do bairro. Maya viu verdades em cada uma das falas. A rua da feira rescende a glifostril. Enquanto ácaros despertando enganam com cheiro de terra molhada, o veneno despista com lembrança de café torrado.

Melões imensos e perfeitos custam muito menos que os espécimes defeituosos do mercado negro das ocupações rurais, que além disso estão cercadas por blitzes de soldados cusparentos e irônicos.

Assim que recebeu seu diagnóstico, Maya sofreu e chorou por quase duas horas. Sozinha, em casa. Meio rolo de papel higiênico assoando o nariz que sangrou e feriu. Odiou e quebrou os espelhos de casa por vinte minutos. E planeja melhorar o mundo há 179 dias.

A internet é ruim mas é boa. Ainda que você não possa ter absoluta certeza do conhecimento adquirido, alguma coisa vai sedimentando e colando e quando te dás conta, tem muita coisa na cabeça.

Amanhã, estava na manchete do canal de notícias, serão votadas novas licenças para os estimulantes agrícolas (agora deram de chamar estimulantes, energizantes).

Maya escreveu uma carta bonita para Soraya. É preciso apoiar essa mulher que juraram matar, eles sempre conseguem, não duvidem. Tenha muito cuidado!

Soraya, que janela linda você me abriu na mente!

O poder do desenvolvimento gosta de concreto. O desenvolvimento não gosta de folhas esparramadas. Não gosta de pó de estrada. Não gosta de desordem viva.

Maya diz na carta a Soraya que sabe que vai morrer (quem não vai?).

O problema não é a finitude

É a sacanagem

A sacanagem

O veneno

O assassinato

A empresa da sacanagem e da morte instala-se num prédio muito alto, muito rico, muito foda.

A empresa da morte é muito rica, meu bem.

Maya tem enjoos. Um pouco é a doença. Muito é nojo da natureza humana?

Amanhã às 6:23, Maya sairá de casa em jejum porque está realmente muito difícil engolir qualquer coisa com essas náuseas matutinas, carregando sua mochila básica. Pegará o ônibus 375R e descerá no ponto da grande avenida maravilhosa. Perceberá a luz divina do outono que convida o dia a chegar mais lento. Caminhará até o número 1111 e se aproximará do portão de vidro. Enquanto o porteiro pergunta seu nome e onde é que você vai, Maya explodirá a si mesma sem deixar átomo sobre átomo e morta, sequer deixará arrependimento de ter explodido consigo a recepcionista Junia e o prédio dos Estimulantes Agrícolas Meusantinho.

Marília Gonçalves é colunista da Revista PUB e escreve todo dia 25 de cada mês. É escritora e cozinheira.



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