ADEUS, ORELHÃO, ADEUS, ORELHA. QUE DESCANSEM EM PAZ!
- Revista Pub

- há 3 dias
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-SEBASTIÃO STAUT-
Neste exato momento, enquanto escrevo para a coluna, está a iniciar-se o processo final, peremptório, definitivo e inexorável de retirada das ruas e espaços rurais e urbanos do conjunto de telefones públicos de linhas fixas dispostos para uso geral do povo, nossos notórios e conhecidos “orelhões”.
Pois é! Nosso amigo de tantas horas, como a respeito diria Noel Rosa, morre hoje sem foguete, sem retrato e sem bilhete, sem luar e nem violão. Uma notinha breve no noticiário de rádio, é tudo que mereceu como epitáfio.
Jeitão simples, assim como o das brasileiras e brasileiros em sua maioria. Nada de cabines envidraçadas, de climatização, de prateleiras. Nada de imitar países ricos. Aqui era só mesmo a concha amarela, que servia para proteger o aparelho das inclemências do tempo e, em menor medida, quem o utilizava.

Ainda assim nessa configuração austera, serviu, indo além da específica finalidade comunicativa, para abrigar pessoas nas chuvas repentinas, para sombrear quem se deliciava com um picolé em pleno verão, para receber adesivos de propaganda dos mais variados, desde serviços sexuais até encanadores e pedreiros.
Um amigo, pau pra toda obra, que não só fazia chamadas, muitas importantes, outras nem tanto, como as recebia. Salvo quando algum espírito de porco resolvia vandalizar o telefone, arrancando o fio ou entupindo a fenda das fichas com palitos de dente ou chicletes (gente escrota sempre existiu, e parece que hoje até está mais encontradiça), ele estava sempre lá, quebrando os maiores galhos, de chamar a polícia a ligar pro namorado, também avisar o patrão que ia chegar atrasado e, quem sabe, mentir pra esposa, enquanto tomava cerveja, que o ônibus tinha quebrado.
Afinal, ele nasceu numa época em que ter telefone em casa era sinal de abastança. Havia filas enormes para comprar uma linha e pagar em numerosas prestações. Quem podia comprar uma linha à vista era considerado um bacana, uma pessoa bem sucedida. Ter várias linhas e especular com elas, então, era coisa de milionários.
Como nossa população nunca foi composta majoritariamente por milionários, muito antes pelo contrário, eram inúmeros os usos e usuários dos orelhões, sendo que, nas cidades menores, era comum não só efetuar, mas também receber chamadas através dele.
Pode-se imaginar quantas não foram as confusões nessas chamadas feitas para, e não por, um telefone público de praça:
- Trim, trim, trim...
- Alô, quer falar com quem?
- Com Carlinhos. Quem é que está falando?
- A Mirtes, da pipoca.
- Ah tá. Me chama o Carlinhos, tenho de falar com ele.
- Não conheço nenhum Carlinhos, só o Seu Carlos da banca. Como é que ele é?
- Moreninho, cabelo preto, magro, um metro e setenta. Usa sempre bermuda e chinelo havaianas.
- Assim tem uns cinquenta aqui na praça. Diga aí uma coisa melhor pra que eu possa achar ele.
- Ele tem olho-de-peixe.
- Ah, mas tenha santa paciência! E eu vou ficar olhando o pé de todo mundo pra achar uma coisa dessas?
- Não moça, é na cara dele mesmo. Olhão parado, meio pro lado, grandão.
- Ah sim, já vi! Tá sentado em baixo do salgueiro. Carlinhos, Carlinhos, vem atender sua tia. Tá te chamando aqui no orelhão.
Nenhum IPhone poderá nos proporcionar momentos assim. Hoje, com toda a comodidade, sequer podemos atender as chamadas. É só spam, golpe, telemarketing.
Fica minha homenagem e declaração de saudoso afeto ao Orelhão. Descanse em paz.
E também, ao tempo em que escrevo esta coluna, tenho o desgosto profundo de saber que, em Santa Catarina, Florianópolis, Praia Brava (o que está havendo com esse belo Estado, hein?), quatro adolescentes “playboys”, filhos de famílias locais abastadas, decidiram sadicamente espancar e torturar um cãozinho comunitário chamado Orelha, que morava há mais de dez anos na praia, recebia e dava carinho a muitos frequentadores, tendo até uma casinha feita para ele.

Poupo as amigas leitoras e os amigos leitores de maiores detalhes da violência. Orelha foi encontrado agonizante com um prego fincado em sua cabeça. Mais não se precisa dizer.
Certamente esses energúmenos, boçais, covardes e violentos, nunca usaram um Orelhão. Melhor para os orelhões. Melhor para todos que não tiveram o desprazer de cruzar com esses quatro repugnantes.
Mais uma vez, fica minha homenagem de saudoso afeto, ao Orelha e ao Orelhão. Que descansem em paz!










O fim dos telefones públicos marca o encerramento de uma era. Hoje, com a onipresença dos telefones celulares, o uso do telefone fixo tornou-se uma excentricidade arqueológica. Até há um ano, eu ainda mantinha uma linha fixa, para o caso de ficar sem sinal da TIM. Na prática, só recebia chamadas de telemarketing ou, pior, ligações emudecidas — como se até os robôs hesitassem antes de me incomodar. Mandei desligar e não sinto falta dele: perdeu completamente sua função, sua dignidade e qualquer resquício de utilidade.
Hoje, com o celular, qualquer empresa pode ter acesso às minhas coordenadas geográficas, ouvir minhas conversas particulares e endereçar publicidade a produtos que eu tenha mencionado casualmente, com o aparelho no bolso — ou,…