A PERDA DE "SOL", ESTÚPIDA, INÚTIL, BRUTAL

Atualizado: Mar 1

-RUI VIANNA-


Não se trata de assunto agradável, trivial. "Sol", como era conhecida entre gamers , foi brutalmente assassinada, com facadas e golpes de espada, no dia 22/02/2021. O suspeito desse crime chocante foi preso e, além de confessar o ato, gravou um vídeo. Ela, Ingrid Bueno, 19 anos. O suspeito, 18 anos, confessou que iria suicidar-se, mas foi convencido pelo irmão a entregar-se à polícia.


A descrição crua de uma barbaridade dessa magnitude causa um desconforto incontrolável, uma sensação de profunda desesperança, como se algo de muito errado estivesse acontecendo conosco. Como assim? A história sobre essa tragédia mostra dois jovens adolescentes, com os quais poderíamos facilmente nos encontrar nas ruas, e que deveriam estar tirando da vida todo o encanto das descobertas que a vida lhes reservava.


Apressadamente, concluiríamos que esse acontecimento seria decorrente de mais um relacionamento doentio, abusivo, que teria dado errado, como temos visto diariamente na grande imprensa, resultando em perdas de vidas de forma trágica e lamentável, causando dor e revolta. Mas, terrivelmente, essa ocorrência envolve bem mais do que isso.


Em artigo escrito por Lola Aronovich na Revista Carta Capital , vemos detalhadamente o envolvimento da Deep Web, dos Chans e o submundo do ódio, da misoginia e da desesperança, que motiva vários crimes hediondos como os do massacre de Suzano, onde dois jovens armados invadiram uma escola, resultando em dez mortos, entre alunos e funcionários.


O suspeito (não cito aqui nomes, no intuito de não dar publicidade e visibilidade aos perpetradores desses atos) remeteu mensagem à articulista, assim como um vídeo, descrevendo detalhes e sua motivação. Para uma discussão preventiva e profilática, nos interessa primordialmente entender o que ocorre nos denominados Chans. Chans são fóruns virtuais encontrados na Deep Web.


Na definição de Pablo Ortellado, em artigo publicado na Revista Época:


"Trata-se de uma faceta dos crimes de ódio pouco conhecida do público, mas já investigada pelas autoridades há algum tempo, afirma Pablo Ortellado, doutor em filosofia, professor do curso de Gestão de Políticas Públicas na USP e coordenador do Grupo de Pesquisa em Políticas Públicas para o Acesso à Informação, que monitora o fluxo de usuários na internet em relação a conteúdos políticos. Esses fóruns virtuais, diz, não são sempre espaços de propagação de ódio, mas em muitos casos são criados com esse fim, com uma 'cultura de misoginia, racismo, discriminação que são movidas pela frustração'.


Vários dos atentados contra escolas cometidos no Brasil e no exterior, são atos de frequentadores desses fóruns, sendo comum que os mesmos noticiem antecipadamente que cometerão tais atrocidades, e que na maioria das vezes contam com o apoio entusiasmado dos outros participantes. A principal dificuldade em prevenir tais crimes reside no fato de os tais chans não são facilmente encontráveis na internet, sendo necessária a utilização de ferramentas específicas para acessar a Deep Web, assim como o profundo anonimato que os protege, e a natural desconfiança dos participantes diante de novos indivíduos.


Mais uma vez cito o artigo de Pablo Ortellado:


"Traçar esse perfil, até para promover ações preventivas, é uma grande dificuldade que há em relação ao tema, diz Ortellado. 'Não se sabe o perfil dos frequentantes. O acesso é anônimo e não há estudos registrados sobre o assunto', diz o cientista social.

Há, no entanto, pessoas desse meio que se tornaram conhecidas. Marcelo Valle Silveira Mello, o criador do chan que está sendo ligado aos perpetradores do crime em Suzano, foi condenado no fim do ano passado a 41 anos na prisão por associação criminosa, divulgação de imagens de pedofilia, racismo, coação, incitação a crimes e terrorismo cometidos na internet. Ele era um dos perseguidores de Lola Aronovich, já foi fotografado fazendo saudações nazistas em frente a uma casa de prostituição e agrediu a equipe do programa televisivo Profissão Repórter quando foi procurado."


Como podemos ver, há uma multidão silenciosa, agindo de forma totalmente clandestina, sem que seja possível estabelecer claramente um universo onde situar os indivíduos integrantes. Não é incomum entre eles a existência de tendências suicidas, ato muitas vezes tido como louvável e heroico, desde que cometido após o assassinato das minorias para quem eles dirigem seu ódio, como gays, negros, mulheres, comunistas.


moonshotcve.com/save-incels-from-themselves/

Outro elemento perturbador nessa equação é a existência de incels (na definição da Wikipedia - "Incel (palavra-valiseinglesa a partir de involuntary celibates — "celibatários involuntários") é uma referência a membros de uma subculturavirtual que se definem como incapazes de encontrar um parceiro romântico ou sexual, apesar de desejarem ter, um estado que descrevem como inceldom.[1] Autoidentificados incels são em sua maioria composta de homens heterossexuais), verdadeiros poços de ressentimento e mágoa contra a humanidade. Parece patético, mas é inacreditavelmente real. Uma pequena amostra do comportamento desses espécimes bizarros pode ser visto nesse vídeo, um TED Talk estrelado pela atriz estadunidense Ashley Judd, ou ainda esse documentário chamado "A deep dive into a Incel community", publicado no Youtube, tão esclarecedor quanto assustador. Ou, sem querer abusar da paciência de ninguém, mais esse vídeo, chamado "Incels, ContraPoint", também encontrado no YouTube, que aborda a questão de forma profunda e muito bem embasada.


Estender-se sobre este assunto é uma forma cruel de tortura, que não desejo para mim nem para ninguém. Mas há uma necessidade premente de discutir à exaustão esse fenômeno, entender seus atores e atrizes, seus mecanismos perversos de funcionamento e suas múltiplas formas de propagar ódio e destruição. A sociedade ainda lamentará a perda de Sol e várias outras e outros que tombarão vítimas da violência maníaca. Necessário entender o fenômeno, estuda-lo, identificar suas causas mais profundas e prevenir futuras catástrofes. Para que elas não estejam ao nosso lado um dia, para que não atinjam conhecidos ou familiares nossos.

Rui Vianna é advogado público aposentado e associado do IBAP


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