No tempo em que havia Natal...

- João Alfredo Telles Melo -



Gosto de pensar no Natal como um ato de subversão...

Um menino pobre, uma mãe solteira, um pai adotivo...

Quem assiste seu nascimento é a ralé da sociedade, os pastores.

É presenteado por gente de outras religiões (magos, astrólogos).

A família tem que fugir e assim viram refugiados políticos.

Depois voltam a viver na periferia.

O resto a gente celebra na Páscoa...

mas com a mesma subversão... sim!

A revolução virá dos pobres!

Só deles pode vir a salvação!

Feliz Natal!!

Feliz subversão.

Dom Helder Câmara.


Sou de uma família católica, pelos dois lados, ainda que meu falecido e saudoso pai, a despeito de ser filho de uma Filha de Maria, se autodeclarasse agnóstico. Contudo, na divisão de trabalho de nossa criação, competia à minha hoje nonagenária mãe a educação religiosa da família. Talvez por isso, o Natal sempre tivesse tanta importância como data a ser cultivada e cultuada por todos nós. Podíamos passar a passagem do ano viajando ou não estarmos juntos no feriado da Semana Santa, mas, o Natal sempre foi sagrado e era o momento mais família de toda a família Telles Melo, que aumentava ano a ano. E, por mais que a troca de presentes – que, após o crescimento da família, foi trocado pelo amigo secreto – fosse sempre um momento esperado, junto com a ceia (sempre tão bem organizada pela irmã caçula), havia sempre um pequeno ritual religioso tocado pelo irmão mais religioso, que havia sido sacerdote lazarista. Ali, os ramos familiares dos filhos e da filha de minha mãe se dividiam em um jogral, compartilhando as vozes entre a leitura do Evangelho, as orações, muitas vezes, entrecortadas por falas espontâneas e emocionadas dos que se sentiam impelidos a dividir as dificuldades, tristezas e alegrias do ano que já estava quase terminando, augurando as esperanças do ano novo que se avizinhava.


A mensagem da chegada ao mundo daquele menino pobre, nascido em um curral de animais, para realizar a utopia de um tempo em que o pão e a justiça seriam compartilhados em todas as mesas, nos chamava à solidariedade com os mais pobres, ao compromisso da luta contra a injustiça social, nós que éramos (e somos ainda) de uma família privilegiada de classe média. Às reflexões que o Evangelho da natividade trazia, se somavam, muitas vezes, as falas proféticas de Hélder Câmara, Pedro Casaldáliga, Marcelo Barros e, mais recentemente, do próprio Papa Francisco. Em alguns momentos cantávamos ou até mesmo improvisávamos um recital de flautas doces e transversas para o coro da “Noite Feliz”. Eram momentos felizes, testemunhados pelos vários meninos Jesus presentes em presépios que decoravam a sala da casa de nossa querida matriarca.


É preciso dizer, no entanto, que uma dessas lapinhas era muito especial, pois existe e remanesce desde o primeiro Natal em família com o primogênito, que sou eu. As belas e pequenas figuras do presépio – o menino na manjedoura, seus pais, José e Maria, que o velavam; o anjo pendurado (com uma faixa com os dizeres, em latim, Glória da Deus nas Alturas) na coberta do estábulo, onde já estavam a vaca e o burrinho; os pastores e suas ovelhas na graminha de palha onde um espelho simulava um pequeno lago e os três magos se dirigindo ao menino-Deus – têm os mesmos sessenta e dois anos de minha idade, como a demonstrar a imanência e a permanência desse culto que juntava e unia filho(a)s, neto(a)s, primo(a)s e sobrinho(a)s em torno da esperança que simbolizava o nascimento dessa criança muito especial. Malgrado anos difíceis, como os que antecederam à morte, por câncer, de meu querido pai e o do trágico ano em que meu irmão caçula foi assassinado, eram, quase sempre, momentos felizes que nos juntavam a todos em torno de Jesus menino e de um sentimento humanitariamente cristão que nos unia.


Mas, então, adveio a pandemia, com suas mortes e medos, insegurança e perdas de amigos e referências que nos eram tão caros. Os cuidados com nossa querida matriarca fizeram com que as famílias de sua filha e de seus filhos, que já beiram quase trinta pessoas, tivessem que se dividir em pequenas confraternizações, impedindo o encontro de todos na família grande. Até mesmo meu ramo familiar, que já é grandinho, teve que se dividir. Porém, isso teve também seu lado bom, que foi um tempo maior para que a “Bivó”, como é carinhosamente chamada, pudesse curtir o bisneto Luquinhas, de ano e meio, e a bisnetinha Zoe, de um mês e meio. Noventa e três anos separam minha mãe (nascida 10 anos após a pandemia da “gripe espanhola”) da Zoe, minha neta caçula, já nascida em meio à COVID19 (com todo o protocolo de cuidados que isso exige). A mais antiga da família, representando, pela ancestralidade, toda a sabedoria adquirida com o largo tempo vivido, e a mais nova, a simbolizar a esperança, porque toda nova vida não deixa de ser uma aposta em tempos melhores. Eu vi o sentido do Natal nesses momentos.


São pequenos momentos que podem trazer um alento em meio a um ano tão difícil como 2020, pela pandemia e pelo pandemônio, que é termos um governo genocida e negacionista. Mais de 200 mil mortos depois, é como se o próprio Natal e o nosso sentimento de humanidade estivessem sendo colocados em causa. Há um ditado da sabedoria popular que ensina que só se aprende pelo amor ou pela dor. Parafraseando, então, Krenak, em sua última obra “A Vida não é útil”, o que posso é desejar que venhamos a aprender pela dor “se somos de fato uma humanidade”, pois, a naturalização dessa ideia fez com que não prestássemos mais atenção no verdadeiro sentido do que é humano. E não há nada mais humano – e, contraditoriamente, divino – do que o Natal. O Natal subversivo. O verdadeiro Natal.

João Alfredo Telles Melo - Foi parlamentar, é advogado e professor. Escreve, eventualmente, para a Revista PUB.


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