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Orgulho de ser brasileiro!

- Guilherme Purvin -


Foto: Guilherme Purvin - Dia 28/7/22 - 7h20.

"Depois explicaram a Pirulito que Deus era a suprema bondade, a suprema justiça. E Pirulito envolveu seu amor a Deus numa capa de temor a Deus e agora vivia entre os dois sentimentos. Sua vida era uma vida desgraçada de menino abandonado e por isso tinha que ser uma vida de pecado, de furtos quase diários, de mentiras nas portas das casas ricas. Por isso na beleza do dia Pirulito mira o céu com os olhos crescidos de medo e pede perdão a Deus tão bom (mas não tão justo também...) pelos seus pecados e os dos Capitães da Areia. Mesmo porque eles não tinham culpa. A culpa era da vida..."

(Jorge Amado - Capitães da Areia).


"Toda vez que um justo grita,

um carrasco vem calar.

Quem não presta fica vivo,

quem é bom, mandam matar."

(Cecília Meirelles - Romanceiro da Inconfidência


A caminho da padaria, me deparo com um caminhão de lixo na rua. Trata-se de um caminhão ruidoso como qualquer outro, mas o que chama a minha atenção é a publicidade lateral. Não é nenhum anúncio de nova série da Amazon Prime ou da Netflix nem de descontos especiais dos clientes do iFood ou Cornershop. Essas empresas jamais anunciariam num caminhão de lixo, pois temem que o público faça uma associação direta entre o lixo transportado e o produto anunciado e, num insight, sem o auxílio de pílulas azuis, acabe entendendo a estrutura de Matrix.


O que o caminhão anuncia não é nada menos do que Jorge Amado. Ele mesmo, o grande escritor brasileiro do Século XX, autor de obras que caíram no gosto popular, como Gabriela, Cravo e Canela, Quincas Berro d'Água e Dona Flor e seus Dois Maridos. Que símbolo magnífico para representar a Cultura nos tempos atuais!


Não foi Jorge Amado quem me fez apaixonar-me por livros. Antes dele já havia lido Jules Verne, Ferenc Molnar e José de Alencar. No entanto, é inegável que foram livros como Mar Morto, Terras do Sem Fim e Capitães da Areia que contribuíram para a compreensão do que é o país onde nasci e onde vivo. A ele serei sempre grato, por ter aberqto meus olhos para a injustiça social que reina há 522 anos e que, como não podia deixar de ser, culminou com a ascensão ao poder de um imbecil qualquer.


Há dois anos e meio, a Secretaria da Educação de Rondônia anunciava o recolhimento nas bibliotecas das escolas dos romances Memórias Póstumas de Brás Cubas (Machado de Assis), Macunaíma (Mário de Andrade) e O Castelo (Franz Kafka), dentre outros, por considerá-los inadequados à formação dos jovens. Voltou atrás, não por perceber a imoralidade administrativa que cometia, mas por conta do escândalo que a decisão provocou nos jornais de todo o país. É claro que jamais teria tido essa ousadia se não estivesse autorizada pela boçalidade armada de Brasília. Boçalidade, cabe sempre destacar, que não surgiu sozinha, muito pelo contrário: que ascendeu graças ao conluio dos meios de comunicação, FIESP e Agronegócio com o Sérgio Moro e instâncias superiores do Judiciário, visando a derrubada de Dilma Roussef e a destruição da imagem de Lula.


Na calçada oposta ao caminhão de lixo, paro para tirar uma foto. Um dos lixeiros, desconfiado, me pergunta por que estou fotografando, se é por causa do barulho. Respondo que é porque admiro o escritor que está sendo anunciado. Ele parece não entender o que eu falo, aproxima-se, meio valente, certamente cansado de tomar porrada da classe média por estar trabalhando. Retiro a máscara e digo a ele: "Eu gosto muito do Jorge Amado, por isso tirei a foto. Fiquei contente com o anúncio". O trabalhador se desarma e responde: "Ah, entendi! Os caminhões da empresa têm outros anúncios parecidos. Um deles é da Cecília Meirelles, minha poeta preferida". Sorrio e dou um bom dia a todos. Seria tão bom se estivesse esse lixeiro no Palácio da Alvorada em lugar do Bolsonaro! Aí sim, faria todo sentido a legenda no caminhão: teríamos todos orgulho de ser brasileiros.

 

Guilherme Purvin, graduado em Letras e Direito pela USP, é editor-chefe da Revista PUB - Diálogos Interdisciplinares, autor dos livros de contos "Laboratório de Manipulação", "Sambas & Polonaises" e "Virando o Ipiranga". Integra a Comissão de Meio Ambiente da OAB/SP, é Presidente do Instituto Brasileiro de Advocacia Pública, sócio-fundador, ex-presidente e atualmente membro do Conselho Consultivo da APRODAB.





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3 comentarios


carlosmares
31 jul 2022

Inacreditável! Parece ficção. Homenagem a Jorge Amado num serviço concessionado fora da Bahia; lixeiro fã de Cecilia Meirelles. Será presságio de mudanças para dias melhores?

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nicolealuz
31 jul 2022

Uma crônica leve, divertida e crítica ao mesmo tempo! Com certeza o lixeiro fã de Cecília Meirelles seria melhor escolha do que os políticos do desgoverno atual.

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Ricardo Antônio Lucas Camargo
Ricardo Antônio Lucas Camargo
28 jul 2022

Com toda a certeza, esta crônica do Guilherme mostra um canto respirável no ar pestilencial do hospício em que este país se tornou, um canto em que se lembra que é possível viver fora das cavernas, que é possível exercer a principal condição que nos diferencia dos demais seres vivos e animados, que é a capacidade de refletir sobre o nosso modo de vida. E como bem dito: tornou-se hospício, não por milagre, não da noite para o dia, mas sim em razão de alguns acreditarem piamente que a proximidade dos campos de extermínio, se abrissem caminho para tornar os interesses do mercado como a verdadeira medida do bem e do mal, seriam um preço barato a pagar para bloquear…

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