Gean B. de Moraes participará do 23º Congresso Brasileiro de Advcocacia Pública

- Guilherme Purvin -


Gean B. Moraes é autor do conto "Os corpos de Cris" e participará de Roda de Conversa na manhã do dia 29 de novembro, em evento integrante dos "III Diálogos Interdisciplinares - Letras e Direito" e do 23º Congresso Brasileiro de Advocacia Pública.

Os dezessete contos selecionados para comporem a coletânea "Brasil 2029: Contos Góticos e Pós Apocalípticos" serão lançados no final da tarde do próximo dia 29 de novembro, por ocasião do encerramento do 23º Congresso Brasileiro de Advocacia Pública, que terá início na manhã do dia anterior. No âmbito do próprio Congresso estará sendo realizado simultaneamente o seminário "III Diálogos Interdisciplinares - Letras e Direito", com a participação de escritores consagrados, como o inglês Richard Kerridge e, ainda diversos professores das áreas do Direito e das Letras. O volume é ilustrado pelo artista Gavin Adams. Na manhã do mesmo dia 29, um grupo destes contistas estará participando de uma roda de conversa, em atividade que integra os III Diálogos Interdisciplinares – Letras e Direito. Nesta mesa, estará presente o educador e historiador da arte cearense Gean B. Moraes, autor do conto “Os corpos de Cris”, com quem conversamos soube concurso pelas redes sociais: "Alguém postou em um grupo de trabalho e ocorreu ao autor que poderia participar da seleção".

Gean, atualmente residente no Rio de Janeiro, pondera que já houve autores, como George Orwell, que conseguiram, por meio da literatura, construir um imaginário sobre formas de governo, enquanto ameaça e iminência, que precisam ser postos em questão para se aperfeiçoarem. Contudo, ele lembra que não estamos mais numa era na qual a grande força transformadora da sociedade eram os trabalhadores. Hoje, vivemos a era do precariado e a literatura é uma resposta sobre esta realidade. Ele cita a cantora Nina Simone, para quem é obrigação do artista refletir o seu tempo, se posicionar: "A arte é uma resposta sobre a realidade dada. A literatura pode ser um trabalho com a matéria vida. Mas, a arte também é sintoma. Não me parece que nos relacionamos com a literatura como os trabalhadores do Arquivos do Sonho Operário, de Ranciere... A nossa noite não é mais a noite dos proletários, mas a dos precários. A literatura sofre também com essa universalização do precário. Cabe aos que lidam com a forma literária, se perguntarem de que modo é possível, atravessar a realidade dada que sinaliza, não é de hoje, que o sujeito contemporâneo é cada vez mais afetado pelas condições, sempre novas, do trabalho que, inclusive não é mais considerado trabalho, mas desempenho... Como a literatura pode refletir, tematicamente, e em termos formais, sobre as subjetividades que emergem dessa dinâmica? E como, apesar do precário enquanto modo de ser dos sujeitos contemporâneos, a literatura ainda sobrevive?... São perguntas que podem nos situar diante da situação política do Brasil e, talvez, sugerir cartografias que nos sugira novos caminhos, outras paisagens".


O autor de "Os corpos de Cris" não tem uma noção precisa do que venha a ser um Advogado Público: "Suponho que seja alguém concursado que preste serviço público jurídico à população". Com relação à relação existente entre esta função essencial à justiça e a situação do Brasil hoje, ele a inclui na mesma perspectiva de todas as instituições brasileiras, as quais, segundo ele, estão em crise, e prefere discorrer sobre o Poder Judiciário: "Em se tratando das que estão situadas no campo do Direito, noto que de um modo geral elas são parte do que ouso chamar de uma 'técnica de governo', um modo de por fim a uma crise. A grande questão hoje, me parece, é a judicialização do social. Há um governo de juízes que decidem em nome da norma. Há um acesso a nebulosos critérios de normalidade e, me parece, a a partir disso, não se aplica a Lei, mas se julga a oportunidade, a conveniência desse ou daquele julgamento".


Falando do processo político e jurídico que culminou com o quadro atual no país, o autor não tem meias palavras: "Parafraseando Tiqqun (*), se encenou um processo antimáfia que coroou a vitória de uma máfia; aquela que julga sobre outra, que é julgada. O que precisamos mensurar e intervir é nos modos como esse processo tem nos afetado. A crise, enquanto norma ou forma de normatização dos abismos sociais, se agrava, rapidamente, com esse processo. Precisamos de estratégias que, de algum modo, desarticulem o que nos é dado como norma".

(*) N.R.: Tiqqun foi um jornal francês de Filosofia. Durou duas edições (período de 1999 a 2001). O crédito de seus artigos não eram dados a autores individuais, mas simplesmente atribuídos ao nome do próprio jornal.

Mais informações sobre Gean B. de Moraes podem ser obtidas em sua homepage "Imagerias". Leia a seguir os primeiros parágrafos do conto premiado "Os corpos de Cris", que integra a coletânea Brasil 2029: Contos Góticos e Pós Apocalípticos":

Os corpos de Cris


Gean B. de Moraes



Daqui de onde estamos é bonito ver essas linhas cruzando no alto, não acha? O contraste entre esse céu cinza e os riscos moventes me comovem. É uma frágil agitação, eu sei, mas tem essa grandeza serena e discreta de reordenar uma fração desse horizonte, ou melhor, da minha percepção desse horizonte enevoado.

É curioso como essas pipas, obstinadas, não admitem considerar que agora chove. Dois artefatos tão frágeis, a natureza e suas cores, de alguma maneira, operam por contágio. E não há possibilidade de acomodação. Tudo se move, figura e fundo. É um processo bonito de rearranjos.

Mas como eu ia te dizendo, é ali que fica a história. Bem ali: Enxames de crianças povoam a entrada daquele edifício. Muito barulho. Alguém grita atenção, atenção, atenção. Por um instante você pode achar que é inútil. Mas, talvez pela força de uma lógica secreta, ou pelo fastio de mais um barulho, o grito triunfa. Então, um silêncio servil, afinado às pressas, acerca-se.

E todos dão atenção àquela mulher, ali no centro do pátio, adornando a boca ressecada com um sorriso. Entre jubilosa e ardilosa ela diz um bom dia, bem sonoro. Os enxames repetem estrépitos a saudação, atentos ou não aos engenhos de saneamento da conduta humana, representado por ela, essa mulher adornada de dentes.

Mas, repara só quem desce do ônibus: É Cris, a professora que estava há duas semanas de licença médica. Apressada, ignora a roda que assiste a dona cheia de dentes. Cris agora sonda de cima abaixo o edifício. Nota que, pela enésima vez, a cor e o nome da fachada foram substituídos. Por isso, meneia a cabeça.. ...................................

Agende: 23º Congresso Brasileiro de Advocacia Pública - III Diálogos Interdisciplinares Letras & Direito - São Paulo/SP, dias 28 e 29.11.2019, das 9h às 18h. Serão conferidos certificados aos interessados. Leia aqui a programação e inscreva-se através do e-mail secretaria.ibap@gmail.com.


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