Conto "Dentes ao Vento", de Milene de Almeida Silva, é um dos vencedores do Concurso Mary Shelley

- Guilherme Purvin -


Milene de Almeida Silva é autora do conto "Dentes ao vento" e participará de Roda de Conversa na manhã do dia 29 de novembro, em evento integrante dos "III Diálogos Interdisciplinares - Letras e Direito" e do 23º Congresso Brasileiro de Advocacia Pública.

O edital do 1º Concurso Literário promovido pelo IBAP entre os meses de novembro de 2018 e julho de 2019 foi divulgado a todos os associados do IBAP, por e-mail (Googlegroups), Facebook e pelo blog da própria Revista PUB – Diálogos Interdisciplinares. Alguns poucos contos foram enviados por associados, mas a maioria deles foi elaborado por um público inteiramente desconhecido. Montada uma comissão de avaliadores, formada por professores da Faculdade de Letras da USP (Daniel Ferraz, Elizabeth Harkot de la Taille, Jorge de Almeida e Sandra Guardini Vasconcelos), editores (Roberto Araujo, da Editora Europa; Frederico Marés Tizzot, da Editora Arte & Letra), advogados e escritores (Celso Coccaro Filho, Franklin Valverde Manoel Herzog, Vitor Nuzzi), ato contínuo foram os contos remetidos para avaliação, obviamente sem indicação de autoria. Durante três meses e meio esta comissão analisou, um a um, todos os contos enviados e, ao final, selecionou 17 deles para figurarem na coletânea "Brasil 2029: Contos Góticos e Pós Apocalípticos". Milene de Almeida Silva, autora do conto “Dentes ao vento”, foi uma das vencedoras da seleção. Sem nenhum vínculo com o IBAP ou com a área jurídica, ficou sabendo do concurso Mary Shelley através dos e-mails que recebe da USP como aluna de pós-graduação.


No entendimento de Milene, a literatura "sempre foi e sempre será uma ferramenta sem igual para retratação, espelhamento, reivindicação, denúncia e transformação social. Através da arte, da estética e da palavra, que é viva, o indivíduo consegue expor uma visão ressignificado da realidade, explícita ou não, como um novo caminho de interpretação. Gosto muito da ideia de que um livro cria um vínculo íntimo e pessoal com seu leitor capaz de movê-lo a pensar, repensar e agir". Entende a autora paulista que o engajamento político na literatura "faça parte da voz que desejar falar. Não há literatura neutra, ou sem uma posição política, há sim, eu acredito, textos mais engajados do que outros. Porém, por mais engajado que seja o texto, deve-se a ele a liberdade de opinião e espaço democrático".


Para Milene, a estrutura literária do subgênero da ficção científica, que preponderou na coletânea "Brasil 2029: Contos Góticos e Pós Apocalípticos", "garante a liberdade de expressar-se de forma única e crítica. Permite o debate, o desconstruir e o apontar do que é visto, e não visto, e nesse sentido garante que a pluralidade de vozes sejam emitidas, garante que elas sejam manifestadas e ouvidas. Assim contribuem para a manutenção da democracia".


Milene tem uma noção do que são os Advogados Públicos. Em suas próprias palavras, seriam procuradores que zelam e guardam "o que é de ordem coletiva". Embora não seja jurista, seu ponto de vista sobre a ética da Advocacia Pública, dentre todos os contistas entrevistados, foi o que mais se aproximou do pensamento que sempre norteou o Instituto Brasileiro de Advocacia Pública, desde sua fundação em 11 de agosto de 1994: "Acredito que o advogado público é indispensável para fiscalização e resguardo do que é público contra todos aqueles que de alguma forma tentam se aproveitar, lesar, tomar ou controlar o que deve ser público; inclusive, ou talvez principalmente, por parte dos próprios membros do Governo. É o que posso entender".

Leia a seguir os primeiros parágrafos do conto premiado "Dentes ao vento", que integra a coletânea Brasil 2029: Contos Góticos e Pós Apocalípticos":

Dentes ao vento


Milene de Almeida Silva



Do céu limpo e alto, o sol raiava com mansidão. Sentada no ônibus que vai de bairro a bairro, passando alegremente pelo centro da cidade, ou o que restou dele, Bete refletia a respeito das mudanças que enxergava em 2029. As ruas, as casas, o clima não pareciam os mesmos desde que voltara do exterior, e não fazia tanto tempo que ela havia deixado o Brasil!

De alguma forma, através do medo, aquele partido extremo, no poder há quase dez anos, prometera colocar ordem no lugar e nas pessoas. Um poderia perguntar-se, seria isso ordem? Ordem é uma palavra muito ambígua e periculosa. Ordem pode combinar com dever e terminar com morte. Operar dissimulada no alfa e no ômega. E por ordem de quem?

As pessoas estavam diferentes. As cores também, até mesmo na bandeira. Para melhor ou para pior, era complicado dizer, partindo da gama infindável de atrocidades que se via andando pelas ruas... Nossa!, que extraordinário! À janela, percebendo os passageiros como vultos, árvores semivivas, ia Bete no transporte automatizado rumo a uma entrevista de emprego. A firma ficava longe demais para aguardar por uma audiência, e suficientemente perto para quem não tem outra opção. A jovem baforou, não queria sentir-se confusa e magoada como estava, na sua cabeça havia baderna e incerteza. A desagradável e repetitiva conversa com a mãe acontecera pouco antes de sair de casa, difícil de esquecer. A mãe, sempre orgulhosa, nunca admitia seus erros. Insistia em dizer que a culpa era do outro, e Bete tinha aquele fato como inaceitável para todos; principalmente para ela!; a quem o tal fatídico assunto atingia mais. ...................................

Agende: 23º Congresso Brasileiro de Advocacia Pública - III Diálogos Interdisciplinares Letras & Direito - São Paulo/SP, dias 28 e 29.11.2019, das 9h às 18h. Serão conferidos certificados aos interessados. Leia aqui a programação e inscreva-se através do e-mail secretaria.ibap@gmail.com.


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