Travessia

- Marina Yukawa -


Para os meus quatro avós


Com a pandemia de covid-19 e a consequente quarentena, eu deixei de ir à casa dos meus avós, onde morei por mais de quinze anos. Estamos a menos de cinco minutos de caminhada — é divertido medir espaço com tempo —, e a proximidade não é apenas espacial. Eles tiveram papel importante na minha criação e formação desde que eu era muito menina. Mas então os riscos que um novo vírus desconhecido e mortal trouxe nos encerram cada um em sua casa há mais de seis meses.


Arte: (c) Guilherme Purvin

É engraçado — digo engraçado para não admitir a tragicidade — como consigo me esquecer tão facilmente de pequenos incômodos pontuais. A lâmpada que queimou há duas semanas e que só vou me preocupar em trocar quando já escureceu; o filtro do café que sempre acaba quando eu preciso urgente de uma dose extra; ou quando começa a chover e então me lembro de que esqueci o guarda-chuva em casa. A maioria são eventos que passam logo e que posso colocar na conta dos imprevistos. Outros, maiores e mais estruturais, acabam transferidos para a pilha da inevitabilidade.


E eu me esqueci; tinha realmente me esquecido do caminho que foi meu ir e voltar durante tanto tempo, durante todo o tempo em que vivi com meus avós e mesmo depois. Apenas quando li que a preferência em andar a pé aumentou durante a pandemia, dando visibilidade para os problemas de conservação das calçadas, é que fui me lembrar do caminho para a casa dos meus avós, porque é o pior calçamento que eu já flagrei em minhas andanças. E lembrar dá saudade — dos avós, não das calçadas ruins.


Os cinco minutos que nos separam são tortuosos; nunca foram bonitos nem fáceis de se percorrer. A casa é um sobrado de dois andares que fica em uma travessa íngreme e estreita; a descida dá para um trecho de avenida com calçadas apertadas e irregulares — anda uma pessoa por vez se segurando nos portões das casas; se vier gente nos dois sentidos ao mesmo tempo a dança é garantida e perigosa, pois os carros passam rente à gente.


Superada a calçadinha, existe um caminho mais amplo até a portaria do condomínio onde moro, passando por árvores e por um ponto de ônibus com banquinho. Porém, as raízes malcuidadas destruíram o piso. Além disso, não sei bem como nem por quem, o lugar se transformou em um ponto viciado de descarte irregular de lixo. Ouvi dizer que os ratos e as baratas começaram a aparecer mais ali na quarentena, aproveitando a calmaria da ausência de humanos.


Não é uma boa travessia para ninguém, muito menos para pessoas de idade avançada que são meus avós. Já tivemos acidentes com tombos, tropeções e quedas. Justo na porta de casa!, é o que soltamos em um misto de indignação e cansaço. Cheguei até a sonhar uma vez que caía e rolava bem na descida da rua, mas os sonhos sempre aumentam tudo. Para mim, escrever agora acerca das más condições do caminho para a casa dos meus avós é mais do que reclamar; é falar sobre lembranças, saudades e esperanças. A lembrança dos apuros — agora motivos de riso — que a família já passou por causa da rua; a saudade que sinto do convívio com meus avós; e como gostaria que o perigo do vírus passasse e que a condição das ruas e calçadas na região melhorasse, tanto para nós quanto para os demais moradores.


Em um dia comum, tomando todos os cuidados que o vírus nos implica, saí à portaria e andei aquele pequeno e tortuoso trecho que é a travessia. Matei uma parte da saudade só para reacendê-la logo em seguida. Se eu queria uma prova de que, mesmo depois de meses, algumas coisas não mudam, ali estava; bem o que precisava mudar. Sem nenhuma surpresa, não consegui evitar um sentimento de alívio e o pensamento de que não tinha sido completamente abandonada pelo tempo. Os mais de seis meses de quarentena — que ainda não acabou — são uma espécie de piscar de olhos demorado demais. Quando poderemos voltar a abrir os olhos?, eu me perguntei.


Minha primeira reação ao saber que as pessoas começaram a andar mais a pé durante a pandemia foi um grandioso Ué, não era para elas ficarem em casa?, mas depois entendi. Além de evitar a aglomeração do transporte público, andar a pé se torna uma opção bem mais aprazível depois de tanto tempo de confinamento. Esticar as pernas enferrujadas, gastar as solas dos sapatos, olhar o caminho com mais calma e sentir o vento no rosto. E nisso, é o caminho que ganha valor. Se bem conservado, não tropeçamos, não caímos; seguimos.


Talvez o chegar nunca tenha sido tão maravilhoso como é agora, pois significa voltar para alguém. Eu não me importo com a bagunça que é a travessia até a casa dos meus avós se eu puder vê-los. E é quando algo corriqueiro como a condição das calçadas — algo tão corriqueiro que logo nos esquecemos — ganha valor e notoriedade, é que as mudanças podem acontecer. Vale a pena manter os olhos abertos para essa pequenina esperança.

Marina Yukawa é jornalista formada em 2017 pela ECA-USP e foi uma das vencedoras do Concurso Literário da Revista PUB - Diálogos Interdisciplinares em 2020.



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