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NAS PROFUNDEZAS DA LOUCURA

Atualizado: 5 de dez. de 2023

- Vanessa de Freitas Pontes -


Há algumas semanas atrás ao navegar pela rede social me deparei com um post da página History Chanel que trazia uma fotografia de uma criança deitada em um banco coberta de moscas. A foto era um retrato de um manicômio em Minas Gerais e foi tirada na década de 70 pelo cineasta Helvécio Ratton que teve sua entrada permitida para fazer um documentário, intitulado Em nome da Razão. A imagem me chamou a atenção e me levou a assistir o chocante documentário no Youtube, são apenas 25 minutos, contudo é tempo suficiente para mostrar a degradação daqueles seres humanos.


Ao ler alguns comentários no Youtube descobri o livro O holocausto brasileiro da jornalista Daniela Arbex, publicado em 2013. Neste livro, ela conta a história desse mesmo sanatório: o Colônia de Barbacena, no qual foram registradas 60 mil mortes. Os relatos de ex-funcionários e residentes são fortes. As pessoas foram simplesmente jogadas naquela instituição e abandonadas. Os motivos dos internamentos são os mais diversos desde epilepsia até timidez, era um depósito de pessoas medicadas com diazepínicos e nenhum tratamento terapêutico. A cidade de Barbacena era conhecida pelo Colônia e o hospital psiquiátrico chegou a receber a visita de Michel Foucault. Mas Minas Gerais não tem exclusividade no que diz respeito aos maus tratos em pacientes psiquiátricos, essa infelizmente é uma constante na nossa sociedade.


O documentário me fez recordar da leitura do livro O Canto dos Malditos escrito pelo curitibano Austrageliso Carrana. Seu livro que teve a venda proibida por muitos anos é uma autobiografia dos três anos em que o autor ficou internado no Hospital Psiquiátrico Bom Retiro, em Curitiba. O motivo do internamento foi um baseado encontrado por seu pai. Naquela época a internação compulsória era permitida e as instituições psiquiátricas tinham desde de psicóticos a alcoólatras, todos recebiam o mesmo tratamento para patologias diferentes. Os relatos de Carrana são chocantes e deu origem ao filme Bicho de Sete Cabeças dirigido por Laís Bodanzky.


O descaso com pessoas com doenças psiquiátricas não é tão raro, ainda hoje as pessoas são rotuladas, mas não existe mais os internamentos de longo prazo.


Quem se lembra das ossadas encontradas no desativado Hospital Pinheiros em São José dos Pinhais? Os restos mortais foram encontrados durante a construção do atual shopping São José. Eu fui algumas vezes a esse hospital para visitar dois tios. Um deles é deficiente intelectual severo e hoje faz acompanhamento pela APAE, mas sabe Deus os terrores que viveu. O outro tem esquizofrenia diagnosticada aos 17 anos de idade, ficou muitos anos internado neste hospital, nunca melhorou, deve ter sofrido muito, mas confesso não ter coragem de lhe perguntar o que acontecia lá. Hoje mora com minha vó e os efeitos do uso de remédios fortíssimos por muitos anos já começaram a aparecer. Enfim, me lembro de ir até lá, era muito triste, eu era criança e sentia medo daquele lugar porque algumas pessoas que haviam sido abandonadas lá ficavam rodeando os familiares dos demais, além disso, não raro ouvia-se gritos vindos dos pavilhões.


Recentemente, foi lançado um filme sobre Nise da Silveira (O coração da Loucura) que retrata um manicômio do Rio de Janeiro, os relatos são os mesmos: pacientes tratados de forma desumana, eletrochoques, lobotomias, sujeira, abandono, esquecimento, um depósito de pessoas. A psiquiatra Nise da Silveira desenvolveu trabalhos pioneiros na Terapia Ocupacional, uma mulher brilhante e uma profissional dedicada.


Ainda sobre filmes, é preciso de lembrar do premiado Um estranho no ninho que retratou, também na década de 70, o tratamento opressivo recebido pelos pacientes de uma instituição psiquiátrica. O filme premiou o ator Jack Nicholson com uma estatueta do Oscar. Em 1999, Garota, interrompida de James Mangold chegou ao cinema, a história do filme se passa em 1967, na qual uma garota é diagnosticada como vítima de Transtorno de Personalidade Limítrofe e é enviada para uma instituição psiquiátrica.


O tema é recorrente, algumas histórias são reais outras ficção, mas a arte imita a vida, não é?

 

Vanessa de Freitas Pontes é professora, formada em Letras, com especialização em Língua Portuguesa e Estudos Literários e ama cinema e literatura.


1.650 visualizações4 comentários

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4 comentarios


eliseufreitascello2018
02 ago 2022

Em um momento de nostalgia, resolvi procurar fotos no google do antigo hospital Pinheiros, onde na minha infância semanalmente íamos visitar o meu tio junto a minha Mãe ou a minha Avó, para vê-lo e levar alguns alimentos que ele gostava, e por acaso acabei achando este texto impactante.

Não me lembro da cena, mas eu deveria ter uns 10 ou 11 anos, quando em uma destas visitas, um dos internos conseguiu violar a grade de segurança das janelas do 3º andar muito alto, que davam para o patio que ficava rodeado pelos pavilhões. Ele se jogou e veio a falecer instantaneamente, só me lembro que vi de longe o fervo de pessoas em volta. Como no texto foi mencionado,…

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Madeleine Hutyra
Madeleine Hutyra
05 ene 2021

Texto conciso e brilhante sobre a literatura que trata das mazelas e das tristezas vividas em manicômios pelos internados. Convida a questionar a recente pressão governamental, apoiada por interesses de psiquiatras particulares, no sentido de retroceder na luta antimanicomial que adota formas de tratamento alheias à internação das pessoas que sofrem de doenças mentais. Parabéns, Vanessa de Freitas Pontes!

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Elizabeth Harkot De LaTaille
Elizabeth Harkot De LaTaille
31 dic 2020

Tocante o tema dos manicõmios, verdadeiros depósitos de pessoas em não conformidade com o que a sociedade delas espera. Muito oportuno o texto de Vanessa de Freitas Pontes, para nos fazer pensar sobre as pressões que voltam a se fazer presente na área.

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Ricardo Antônio Lucas Camargo
Ricardo Antônio Lucas Camargo
31 dic 2020

O manicômio como um lugar de confinamento e de abandono, lugar de negação da condição de pessoa a seres humanos, embora não mais se possa dizer institucionalizado, passa a traduzir uma metáfora adequada a um país cujo Presidente diz que "não liga" para uma pandemia que não pergunta em quem votou aquele que ela atinge. "De profundis clamavi ad te", dizia o Salmista. Aplausos a este texto, riquíssimo em sua simplicidade!

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