Revista PUB - Diálogos Interdisciplinares

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CONTRADIÇÃO CONTRADITÓRIA

- Carlos Marés -


Muita gente pergunta: E agora? A esquerda está desorganizada, a oposição não sabe o que fazer, estamos perdidos no tiroteio, só se pode esperar o pior, ninguém se organiza! Tenho lido algumas coisas assim também. Será verdade?


Desde o golpe de 2016 parece que a sociedade brasileira ficou esfacelada, retornou aos piores tempos, com o predomínio do ódio, da violência, da prepotência e da surda e soberba ignorância. Tempo em que se revelam as formas mais rudes de preconceitos e grosserias. Mas por quê?

Aprendemos na física que toda ação sofre uma reação igual e contrária. Nas sociedades também. Cada vez que há avanços sociais a sociedade muda e as elites, ou o poder, às vezes cedem, mas tentam recuperar o perdido com violência, simulações ou atrocidades. Como dizia Victor Hugo, o rei só entrega quando o povo arranca. Mas, não dizia Victor Hugo, o rei fará tudo para reaver o que foi entregue. Por isso, na terra de Victor Hugo cortaram-lhe a cabeça. Não parece que tenha adiantado, ele voltou para reaver o perdido. Será que consegue reaver? A história tem mostrado que em geral não consegue reaver tudo e as sociedades avançam um pouco. O avanço é mais lento do que gostaríamos os que imaginam e sonham com um mundo justo e fraterno. Mas há avanços e, por isso mesmo, tentativas destemperadas de retrocesso. Estamos vivendo no Brasil a tentativa desesperada, desorganizada, de retrocesso. Pela desorganização, fúria e destempero até mesmo a direita mais pudica está alarmada, mas vai na onda.


Mas quais foram os avanços que ensejaram a reação tão extraordinariamente violenta? Acho que foram avanços de três ordens e que põem em cheque a dominância capitalista: a organização dos povos independentemente das relações contratuais de trabalho, a organização das mulheres ao enfrentamento da dominação machista e, quem sabe o mais visível e gritante, a proteção da natureza contra o avanço ganancioso do capital. Os dois primeiros são razões humanas, questão de consciência, de entendimento das injustiças e iniquidades da sociedade capitalista, a terceira é a própria desilusão de futuro, aquecimento global, envenenamento da comida, catástrofes geradas pelas ações corporativas. As três coisas geram movimentos sociais que impõem mudanças que nem sempre o capitalismo tem condições de fazer. Pelo menos não pode fazer tudo o que seria necessário e faz menos e atrasado. Quando muito pressionado propõe coisas estranhas, como capitalismo verde, humanista, limpo etc. Todos sabem, inclusive quem propõe, que são paliativos, não soluções.

No Brasil a tentativa de cobrar os avanços não se expressa na falsa dicotomia PT ou anti-PT. Houve avanços com o PT, mas também os houve apesar do PT. E estes avanços a destemperada direita tenta cobrar, sem entender que nem o PT foi o protagonista, nem a destruição do PT destrói ipso facto os avanços. Trata-se de mudanças sociais efetivas, de mudanças de consciência e que, por isso mesmo, mesmo sem compreender põem um medo irresistível nos setores de direitas que, sem argumento, apelam para a violência. Mas quais são estes avanços no Brasil especificamente?

Considero que o mais importante é a descoronelização do nordeste. É fundamento racista e preconceituoso afirmar que as populações do nordeste deixaram de votar nos caudilhos de direita por causa do bolsa-família. Dizer isto é imaginar que o voto dos coronéis eram votos livres e que o povo votava neles por gostar da opressão. Não é séria esta análise. Ou fraude ou opressão, o que é fraude, essa era a condição do voto. O povo do nordeste mudou. Não quer dizer que a direita não venha a ter voto na região, mas terá que disputar no argumento: está ficando cada vez mais fácil ilidir o cabresto. O voto do cabresto era o voto do atraso. E o sucesso dependia do atraso, da fraude, do medo, da ameaça. A consciência liberta e gera poder de fiscalização que aproxima a prática ao discurso.


Outro fator de muita importância é a extraordinária mobilização das mulheres. O movimento “ele não” é um divisor de águas. Pode ser que nem se repita, mas marcou uma tomada de consciência que põe as mulheres em um enfrentamento com o capitalismo em uma posição que nunca havia tido antes. A direita machista e patriarcal prefere a rudeza tosca ao poder de mulheres livres. Este movimento é claro e tem destino certo? Não! Ninguém pode avaliar no que se desdobrará e o que ocorrerá com ele, mas a sociedade já não será como antes. Não quer dizer que todas as mulheres serão de esquerda e promoverão a revolução socialista, mas quer dizer que porão em cheque a supremacia masculina exacerbada na modernidade capitalista que utilizou mão de obra feminina grátis para acumular capital. Na onda das mulheres, os movimentos LGBTs como expressão de liberdade de corpos e almas. O movimento põe em xeque cinco séculos de opressão cuja palavra de ordem prontamente executada, mas jamais proferida era: cacem as bruxas!

Não menos importante o movimento dos povos. Foram os indígenas do continente que reagiram, desde o princípio da colonização das Américas, à violência da imposição do capitalismo e seu estado opressor. No final do século XX e no XXI conseguiram mudar as constituições e transformar a política imposta pela Organização Internacional do Trabalho, com a Convenção 169. Arrancaram do rei! O rei entregou, mas nunca teve a intenção de cumprir. Os indígenas continuaram organizados. Somaram-se aos indígenas, como um relâmpago de vinte anos, os quilombolas. De invisíveis passaram a ter uma organização forte e presente, reclamando não só a sua existência como povo, mas como povo que requer um tratamento diferente para com a natureza. A aliança não só dos povos da floresta, mas dos povos com a floresta. Note-se que todos estes movimentos, das mulheres, do nordeste, dos quilombolas, dos tradicionais, se somaram aos gritos e trovões da natureza. A grande luta é socioambiental, todos sabem disso, não haverá gente se não houver natureza.


Este é o momento que vivemos no Brasil. A direita late alto, arreganha os dentes e carrega as armas. Está acuada, não tem argumentos. Utiliza todas suas forças, estado, polícia, juízes, instituições, perde o charme discreto e não esconde mais o cinismo, não escala mais para o confronto de ideias o intelectual, não tem argumentos, manda o bruto xingar.


Já vivi momentos como este em outras épocas. A diferença é que esta luta está sendo travada muito próxima do abismo. Não há dúvida que os brutos passarão, mas pode ser que a vitória dos justos encontre uma terra arrasada e as plantas e animais que restarem tenham que, por sua conta e risco, criar uma nova humanidade.


Março de 2019

Carlos Frederico Marés de Souza Filho (PR) - Professor de Direito Socioambiental PUC-PR




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