Revista PUB - Diálogos Interdisciplinares

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CRIAS DA MODERNIDADE

-ANA CLÁUDIA LEITE DANTAS-



Concreto - Rui Vianna

Por mais que a modernidade se despoje de elos longínquos, pré-cambrianos... greco-romanos, bizantinos ou renovados por iluminações... ainda que a modernidade se apresente pós-moderna... liquefeita como sugere Zygmunt Bauman ou inatingível até mesmo por deuses do Olimpo, mesmo que ela revele a ignorância do homem e a eterna busca por conhecimento utópico imensurável adquirido por uma realidade tecnológica inimaginável, trata-se, a tal da modernidade, de um período eterno, singular, de seres tolos que se enganam por assistirem a um cenário dinâmico, eternamente inédito, transmutado, acreditando, erroneamente, que a evolução seja interna.


A evolução é cênica, é plástica, é do entorno e é corrente, deságua por entre nós todos fazendo-nos pensar que somos novos, que somos outros, que aqueles que não haviam alcançado a lua com os pés, que não haviam sobrevoado as nuvens, que não conheceram arranha-céus de concreto armado, que aqueles fossem outros. Aqueles que moraram ao relento e se alimentavam de raízes, jamais seríamos nós; nós, homens novos, do novo mundo. Novos? Não. Somos renovados talvez, recauchutados por vezes, mas velhos, velhos homens do velho mundo que dominam a dinâmica dos cenários que, estes sim, vão se transformando a todo instante.


"A modernidade é a capa que encobre o homem-fera, a besta-fera, que no fundo nada sabe, mas não sabe que não sabe."

A modernidade reproduz os mesmos seres acrescidos de requintes do palato, do olfato, das técnicas de visão, dos modismos e de intensidade de comodismo, de costumes, de querências; em novos cenários que iludem ou desabam, descortinando o muito antigo já desconhecido. A modernidade é a capa que encobre o homem-fera, a besta-fera, que no fundo nada sabe, mas não sabe que não sabe. E creio que seja aí que, às vezes, o mundo se desembeste a revelar a face íntima do ser humano, uma face inumana, uma face anfíbia, daquele homem lesma dos primórdios do tempo, o elemento que lutava pela vida sem relar no pensamento que ainda não havia se desenvolvido enquanto reflexão. É, então, que o mundo humano se reduz a pessoas boas ou más, que se entregam ao embate irracional por carne ou por dinheiro para comprá-la, tendo o acúmulo como valor máximo, o desperdício como propaganda de poder, e a vida como valor banal, rasteiro.



Chicago - Rui Vianna

As massas, por fraqueza de querência da luta pelo seu pão de cada dia, vão de encontro a quem faz doações e tornam-se serviçais. As empresas apátridas, que dominam o ramo de gás e petróleo e governadas por meia dúzia de esquisitões biliardários, são as que mais podem doar em troca de almas incapacitadas. Ao serem dessa forma comprados, os seres infelizes vão se escravizando. As petrolíferas, que me parecem ser as empresas que mais se banham em modernidade corrompida, instalaram-se, poderosas que são, por toda a costa brasileira. Essas empresas já engoliram diversos países da África e implementaram bases em pontos de maiores riquezas do solo continental. O enriquecimento desses investidores do petróleo e gás engordou demais em função do empobrecimento de muitos países. O empobrecimento do Brasil está sendo legalizado e acelerado pelo próprio governo do País. Governo eleito, diga-se de passagem. Eleito por bestas-feras, que no fundo nada sabem; nem que não sabem, sabem. Essas pessoas são incapazes de perceber que nada são além da massa insossa. Todas crias da modernidade.


Ana Cláudia Leite Dantas Ferreira é poeta, professora, desenhista e escritora. Aprendeu com os passarinhos a amar o cheiro do orvalho na grama de manhãzinha e, com os gatos, as delícias da brincadeira despreocupada. Fã incondicional de Quintana, passarinha pela vida, porque não está aqui de passagem.



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