Desejo de exílio

- Marília Gonçalves -


Ilustração: Marina De Bonis

A ida

O carro freou brusco e o motorista abriu a porta de trás enquanto puxava o banco para que eu pudesse me acomodar melhor, tudo regado a sorrisos. Quanta animação numa quinta-feira chuvosa de trânsito horrível. Ele me conta que achou a cidade um tanto mudada após um ano morando fora. Eu perguntei, nem sempre faço perguntas, sou do tipo que mergulha o olhar nas janelas laterais e viaja derretida pelo caminho. Hoje não, ele parecia afoito em dividir sua história, me incomodou. Descobriu que sua experiência em dobrar e moldar metais para forjar peças e revestimentos seria muito bem vinda e remunerada de maneira justa na gélida Toronto. Daí se adaptou facilmente às temperaturas negativas de dois dígitos, também as crianças e a esposa recém chegadas estavam felizes. Serão apenas seis semanas para resolver as burocracias, validar o visto de residente e voltar para lá com a família a tiracolo. Para não ficar parado, alugou um carro para trabalhar. Cresceu brincando e aprendendo a trabalhar na fábrica da família, não teve vida difícil que inspirasse o exílio. Mas o pai morreu e uma crise familiar se instalou. Fugiu sem duvidas.


Lembro de ter tido desejos de exílio duas ou três vezes na vida. Um pé atado feito raiz me segurou. Convenço-me insistentemente de que a nada estive ou estou presa com rigor. Tudo mentira.

Aqui está muito esquisito, ele continua seu desabafo. Trânsito, nunca que você veria um trânsito desses em Toronto. E o preço do fardo de papel higiênico? E a conta no restaurante? Cheguei ao meu destino e tive que interromper a escuta. Desejei-lhe muita sorte na jornada futura.

A volta

Sempre me impressiona encontrar pessoas ruivas. Acho lindas e raras. Chegou muito animado, pediu desculpas pelo aplicativo te-lo jogado no fim da rua. Eu elogiei a música na rádio, um rock clássico, ele se confessou cantor. O waze nos conduziu por uma avenida Paulista vazia, a gente falando de canto, de encontrar a sua própria voz. Música, literatura, filosofia, vida: tudo é a busca da própria voz. Nem sei como chegamos ao assunto. Ele dizendo da dificuldade de se manter firme no seu propósito da arte com tanta distrações pelo caminho, tanta gente disposta a se vender por uma moeda. Largou a banda faz pouco tempo, a verdade é que foi largado, os músicos procurando caminhos rentáveis. Não se abateu, está cheio de planos, militando forte para que a educação musical retorne à grade curricular. As crianças precisam. Ah, sim, todos precisamos. Enquanto isso, é motorista de Uber. Cheguei em casa. Não me lembro quem de nós disse primeiro: viva a resistência! O fato é que ambos sorrimos e nos demos as mãos.

Somos os que ficamos. E alguma coisa será.

Marília Gonçalves é escritora e cozinheira.


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