REDESCOBRINDO A RODA - SOCIALISMO OU BARBÁRIE

- Flo Menezes -



Havana (acervo pessoal do autor)

Presenciar o 1º de Maio de Cuba, em meio a distintas comunidades e representações populares de povos distantes ou grupos distintos e solidários com o Socialismo Revolucionário que perpassavam, um após o outro, a Plaza de la Revolución em La Habana, e ao lado de nossos irmãos cubanos, é uma experiência marcante e de profundo, quase indescritível impacto!


A força do evento teve seu apogeu quando um grupo de afrodescendentes cubanos, vestindo camisas vermelhas, vinha com energia arrebatadora rasgando a multidão, com todos como que aglutinados, despontando personalidades as mais diversas, cada qual com sua marca pessoal, percutindo com suas mãos uma complexa rítmica nos mais diversos instrumentos, rústicos, de pele e de metal, numa curiosa e exuberante mistura de sons retumbantes graves – como que do coração e dos pés – com sons penetrantes e agudos, de curta ressonância metálica – como que do sistema nervoso e do cérebro –, acompanhados por alguns intermitentes toques de corneta, extravasando com força os ares dos pulmões. Eram os corpos todos e o corpo inteiro se manifestando, coletivamente. Lembrando-me do poema visual de meu saudoso irmão Philadelpho Menezes que transformava a frase de Ezra Pound, “os artistas são as antenas da raça”, na frase “o poeta é a antena da praça”, fazendo-a figurar ao lado de uma imagem de Maiakovski discursando em meio à Revolução Russa, constato também aqui: não uma música de “raça”; uma música de praça e força, tão primitiva quanto elaborada, tão imperfeita quanto profundamente humana. E por isso tão bela. Tudo isso para culminar em gritos de grande pujança e em coro: “Cuba! ... Cuba! ... Cuba!”



(acervo pessoal do autor)

Os primeiros dias, para aqueles que chegam de países que conhecem a riqueza do Capital, tal qual o Brasil, são plenos de contradição, deixando-nos perplexos e entristecidos: o estado geral dos edifícios – reminiscentes, assim como os lindos e espaçosos carros antigos, da época em que Cuba era colônia norte-americana gerida pelo ditador Fulgêncio Batista, e sua riqueza, restrita à burguesia conivente com a espoliação do povo cubano pelo Imperialismo – é bastante decadente, a infraestrutura, visível e perceptivelmente precária e deficitária, a ausência do requinte consumista que tão mal nos acostuma, mais que clarividente. Com exceção dos poucos locais centrais destinados a contemplar os anseios dos turistas mais abastados, com alguns minguados hotéis de luxo e raras lojas de grife, atrativos que servem para a entrada de recursos financeiros notáveis pelas vias do turismo na Ilha de recursos naturais escassos, nada há que se assemelhe aos nossos shopping centers ou à ostentação dos países capitalistas.


Mas se não há traços do mundo consumista em que vivemos – ao menos na esmagadora maior parte da cidade de Havana e certamente no modo de vida da população –, tampouco há traços daquilo que nos é evidente em nosso mundo capitalista, mas que nossas sociedades hipocritamente nos escondem em suas periferias ou deslocam para os morros de nossas grandes cidades, e que se desnuda nas figuras ultrajantes, aos olhos dos abastados, dos pedintes, em boa parte crianças, que se aglutinam não em praças revolucionárias, mas em nossos semáforos, a respirar os dejetos emitidos por nossos carros: a miséria, e sobretudo a miséria do espírito depauperado ou, no caso das crianças (algo impensável para os cubanos, que zelam por seus pequenos!), desesperadamente sem qualquer perspectiva.


Passados alguns dias, o convívio com o povo cubano – hospedei-me em casa de família cubana na Habana Vieja, centro histórico e coração da capital do país, e portanto no seio de um lar tipicamente cubano –, tanto dentro como fora de casa, pelas ruas, começa então a desvendar certos traços que nos são, em nossas sociedades capitalistas, totalmente desconhecidos: de modo quase assombroso, constatamos que efetivamente todos se sentem iguais a todos; não há diferenças substanciais; brancos e negros misturam-se organicamente; o modo de as pessoas se dirigirem umas às outras e de se falarem revela total franqueza e sentimento enraizado de pertencimento social, de compartilhamento; o respeito e a solidariedade nos olhares entrecruzam-se de íris a íris, o afeto, de sorriso a sorriso; as crianças, longe de games que as isolariam umas das outras, brincam pelas ruas, soltas, como certa vez brincávamos há 50 anos ou mais no Brasil; ocupam-se densamente todas as ruas por quase o tempo todo; senta-se à beira das calçadas para se exercer o convívio explícito no espaço coletivo, pois quer-se estar onde é o passeio dos demais; encara-se a realidade de modo conjunto, e tudo em meio à gritante precariedade das escassas vendas e dos prédios, que soltam poeira de cimento descascado e metal velho em meio às calçadas, misturada à sujeira das ruas e à limpeza das almas que co-dividem o mesmo estado das coisas de dentro e de fora dos corpos. Há, mesmo em meio às condições francamente desfavoráveis a um bem-estar econômico estável, um generalizado cuidado social e um bem-estar anímico.


E então emerge do vivido uma questão conflituosa: se o marxismo nasceu com o forte intuito e a firme convicção de promover o bem-estar social de todos, como se contentar com o nível baixo de vida da população cubana? E como, mesmo em meio à decadência arquitetônica e aos parcos recursos, explicar essa alegria e afabilidade radiantes desse povo mesmo em meio às suas dificuldades de cada dia? De onde brota esse orgulho do cubano diante da história doída de seu país?


Não se trata, pois, de fazer apologia da miséria, mesmo porque – saliente-se de novo – de miséria é que não se trata: há, claro, uma pobreza generalizada, mas todos têm garantidos pelo governo revolucionário o pão de cada dia e os suprimentos essenciais de sua subsistência mensal, além de moradia digna, saúde garantida e de qualidade, e educação plena. Menos ainda se trata de uma hipocrisia que consistiria em afirmar uma plena satisfação, a partir de uma prévia postura política de assumida índole marxista, diante da precária situação econômica do povo cubano simplesmente por ele se declarar socialista.


Não! Não é disso que se trata. E obviamente deseja-se uma melhora substancial nas condições de vida do povo cubano. Reconhece-se, no mais – e para nosso desgosto –, que já há indícios de certos desequilíbrios sociais, reflexos de certa flexibilização governamental em relação a pequenas propriedades ou à administração individual de serviços (pequenos negócios, restaurantes), o que traz, no seio da ainda muito igualitária sociedade cubana, certa desigualdade econômica, espelho das regalias já existentes de camadas militares e da burocracia estatal. Infiltra-se na sociedade cubana, assim, certa mentalidade pequeno-burguesa que certamente ameaçará a consciência histórica e ideológica do revolucionário povo cubano. Cuba, remetendo-se à reforma liberal empreendida pelo governo soviético lá nos idos dos anos 1920 com a implantação da Nova Política Econômica (a NEP de 1921, de Lenin), caminha provavelmente em direção ao modelo chinês e talvez veja instaurado, em um futuro não muito distante, um certo Capitalismo de Estado. Mas mesmo diante de tais contradições e de tais dilemas pelos quais passa a sociedade cubana, trata-se, isto sim, de deparar-se com a clara evidência da consciência histórica e da solidariedade que decorrem da própria história, nesse sentido cardinal inquestionavelmente vitoriosa, da Revolução Cubana.


Na militância aguerrida de alguns ou nas conversas de outros, no chamamento (que me interrompeu quando escrevo essas linhas) da idosa senhora que me hospeda para que eu veja em sua TV cenas de apoio massivo anti-imperialista a Maduro na Venezuela, com a observação indignada de que tais imagens não circulam pela imprensa marrom do Imperialismo, nos afetos ou nos simples olhares de inconfundível receptividade de todos, quando não nas claras manifestações verbais em defesa do passado revolucionário, em que transparece o orgulho com relação a seus carismáticos heróis – muitos, mas personalizados sobretudo nas figuras de Fidel Castro, Che Guevara e Camilo Cienfuegos, os três grandes líderes da Revolução –, na postura idealista e ao mesmo tempo concreta do jovem militante do Partido Comunista que convidou a mim e outros de diversas partes do mundo para o Primeiro Evento Acadêmico Internacional em torno do legado de Leon Trotsky, transborda a consciência de que tal estado deficitário de coisas relativo à subsistência decorre única e exclusivamente do cerco desumano, cruel, injusto e canalha do Imperialismo, sobretudo mas não somente norte-americano, por praticamente 60 anos (!), ou seja, desde que triunfou a Revolução.

"Alegando necessidade de ajuda humanitária para invadir aqui, o Imperialismo comete acolá ato bárbaro de cerceamento econômico que tem por consequência direta graves condições humanitárias nos países que sofrem tais ações de embargo sistemático e duradouro."

Em especial com relação aos EUA, sua estratégia foi das mais perniciosas: procura, ao mesmo tempo em que hoje forja o discurso hipócrita pela “ajuda humanitária” na Venezuela para, entre outras coisas, invadir aquele país e apropriar-se de seu petróleo e da mão de obra do povo venezuelano, literalmente sufocar, desde sua emergência em 1959, o projeto socialista cubano – que os norte-americanos diagnosticaram, acertadamente, como ameaça concreta para o alastramento do comunismo por toda a América Latina – e isolá-lo ao máximo. Estratégia consciente e nefasta, pois o Imperialismo bem sabe que o Socialismo, quando em um só país, não pode subsistir de modo pleno e tende, se a situação perdurar, a se desmanchar. Alegando necessidade de ajuda humanitária para invadir aqui, o Imperialismo comete acolá ato bárbaro de cerceamento econômico que tem por consequência direta graves condições humanitárias nos países que sofrem tais ações de embargo sistemático e duradouro. E nenhum país sofreu maior boicote que Cuba! Nada há de mais perverso e desumano!


Todo cubano – arrisco-me aqui a afirmar –, todo, tem esta consciência, mesmo aqueles que, eventualmente – frise-se: não conheci nenhum que o fizesse –, não se coloque firmemente em defesa da Revolução Cubana e de sua história. E mesmo o desertor.



(acervo pessoal do autor)

O capitalismo, bem o conhecemos: destruindo de modo irracional o planeta e seus recursos e arruinando o meio-ambiente, centra suas forças sobretudo no prazer da boca e do estômago, perdendo-se nas funções digestivas e intestinais dos seres humanos, para castigar com a fome aqueles que servem de exploração para as regalias de poucos abastados ou, do ponto de vista macroeconômico, para subjugar nações inteiras visando o bem-estar de outras. Após ter desenvolvido toda a sua potencialidade, institui, ao perpetuar-se, a burrice social: em momentos de crise, vale-se – como ocorre tipicamente no Brasil de hoje – da mais crassa boçalidade e bestialidade para, por meio de suas truculentas investidas neofascistas, preservar os privilégios de muitos poucos.


E o que presenciei em Cuba? Ausência absoluta de criminalidade, pois – ao contrário do que querem e implementam Bolsonaro e Moro no Brasil – nenhuma arma de fogo está em posse da população; crianças felizes, brincando pelas ruas quando não em salas de aula; índice totalmente zerado de analfabetismo; cesta básica e pão de cada dia garantidos a todos os cidadãos; moradia e saúde garantidas para todas as pessoas; índice zero de desemprego. Todos os ingredientes que subsidiam uma sociedade pacífica, hospitaleira, afetuosa e radicalmente feliz. E tudo isso em meio às necessidades de melhoria econômica e de infraestrutura, tão evidentes quanto à paz social que reina no comunismo cubano.


Até quando a altivez revolucionária e solidária cubana poderá resistir ao bloqueio que a sufoca implacavelmente? Cuba, com todas as suas dificuldades – e são muitas –, trilha seu dificílimo percurso no sentido oposto da hipocrisia e da crueldade imperialistas. Ao invés das crianças pedintes em nossos semáforos, deparei-me com dois grupos escolares uniformizados, de idades diversas, em visita em uma plena sexta-feira ao Museo de Bellas Artes para verem arte contemporânea! Também pudera: não foi aqui que o maior líder da Revolução, Fidel, declarou desrespeito à consulta e ao pagamento de direitos autorais por entender que a cultura deveria ser acessível a todos e que Cuba, na sempre difícil fase de desenvolvimento do Socialismo, deveria, com seus parcos recursos financeiros, imprimir em edição popular (mesmo que com papel ruim) uma biblioteca básica para ser acessível, mediante doação do governo, a cada família? E deste ato não teria cada lar cubano recebido gratuitamente livros que continham dentre seus autores até mesmo um Stephen Hawking, com sua Breve História do Tempo, ou um Ezra Pound, genial poeta norte-americano de vanguarda e que – vejam vocês: fato claramente irrelevante, para Fidel, diante da qualidade de sua poesia! – fora simpatizante do fascismo italiano?


Tudo isso reafirma a inabalável convicção no lema trotskista de uma defesa incondicional de Cuba! Pois o Socialismo, se ainda uma Utopia, já se revela simplesmente como o sistema socialmente mais inteligente, porque mais humano, que possa haver e que há. Certificamo-nos, assim, que se nossos cérebros situam-se bem acima de nossos pés, e se pés e cabeça são nossos limites físicos, nossas ideias e ideais habitam ainda acima e para fora de nossos corpos e se entrelaçam nos ares do espaço social, de um espaço livre e ilimitado. Reafirma-se a convicção, por fim, de que Cuba nos dá o comovente exemplo de que para se entrelaçarem em paz, tais ideias e ideais necessitam de uma igualdade radical de condições sociais entre todas as mulheres e todos os homens.

Havana, 4 de maio de 2019



Flo Menezes (SP, 1962) é compositor. Um dos principais expoentes da vanguarda musical internacional, é autor de 13 livros e de cerca de 100 obras musicais em todos os gêneros da composição, foi líder trotskista secundarista e, em 1980, um dos primeiros 3 mil filiados do PT em São Paulo:

www.flomenezes.mus.br



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