O Ministério da Igreja da Lagoinha
Improviso, contradição e apelo de púlpito na proposta do “Ministério da Prosperidade”
-IBRAIM ROCHA-
No domingo, 18 de outubro de 2026, a Band transmitiu ao vivo o primeiro confronto direto entre os candidatos do segundo turno na disputa à Presidência. Ao confirmar presença, o candidato do PL disse que queria “comparar os programas de governo”. Mas o que ocorreu foi um rosário de jargões contra o “Lula Ladrão”, mas que não foi a frente ante ao desafio de abertura de sigilos telefônico e fiscal feito por Lula.
No bloco de economia, anunciou aparentemente a única proposta concreta de Flávio Bolsonaro: “Eu vou criar o Ministério da Prosperidade. Eu vou cuidar de você de ponta a ponta”. A frase tem apelo, mas não tem conteúdo. Não diz o que a pasta faria, quanto custaria nem que estrutura substituiria. E é justamente a comparação com o próprio programa, que ele disse querer fazer, que a desmonta.
O documento oficial da candidatura, “Para o Brasil Vencer o Atraso – Diretrizes do Plano de Governo 2027-2030”, não tem uma única linha sobre um Ministério da Prosperidade. São 75 páginas e um índice temático que vai de “Voucher-creche” a “Patentes globais de IA”, e em nenhuma delas a pasta aparece. O Congresso em Foco registrou a mesma ausência.

A promessa também não nasceu no debate. Segundo o BPMoney, ela surgiu em 9 de outubro. Em 14 de outubro, em comício em Porto Alegre, voltou como um ministério para ajudar jovens e mulheres a abrir empresas, segundo O Liberal. A ideia passou por palanque, programa de TV e debate, mas nunca entrou no documento que a campanha registrou como compromisso formal com o eleitor.
Não se trata de simples omissão: o programa contradiz a proposta em três pontos.
• Estrutura nova (p. 46). Para crédito, orientação financeira, empreendedorismo e casa própria, o plano escolhe a CAIXA como executora e afirma: “Não vamos criar estrutura nova: vamos dar uma nova missão à que já existe”. No papel, a prosperidade é um banco, a “CAIXA como Banco da Prosperidade”. No debate, virou ministério.
• Corte de ministérios (p. 69). O plano promete o “corte de no mínimo 10 ministérios”, sem dizer quais. Criar uma pasta enquanto se promete cortar dez rebaixa a meta para nove, sem aviso, ou faz do corte um número de propaganda. Nenhuma fonte registra qual ministério seria extinto para dar lugar ao novo.
A família sem ministérios (p. 10). O próprio plano proclama: “A vida de uma família não se divide em ministérios”. A resposta do candidato a essa tese foi, justamente, um ministério a mais, para cuidar do cidadão de ponta a ponta.
Tudo o que se imagina para a nova pasta já está repartido no programa entre órgãos que existem. A qualificação e a intermediação de mão de obra ficam com o banco nacional de vagas e o Sistema S. O crédito ao pequeno negócio fica com a CAIXA, o BNDES e a Apex-Brasil. A casa própria fica com o Casa Verde e Amarela, e o programa “Ganha, Ganha” fica com a CAIXA, o Banco da Amazônia e o Banco do Nordeste.
O novo ministério, portanto, ou esvazia essas estruturas sem dizer como, ou se sobrepõe a elas. A sobreposição é o defeito que o próprio plano condena quando propõe eliminar “superposições” entre Ibama, Funai e ICMBio (p. 59).
Há ainda a hipótese, levantada pela imprensa especializada, de que a pasta absorva as funções do atual Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social. Nesse caso, não se cria nada: troca-se a placa da porta. E o programa já havia entregado essas mesmas funções à CAIXA, não a um ministério.
O nome da pasta diz mais do que a proposta. “Prosperidade” não é categoria de política pública. Nenhum Estado organiza a administração por esse critério, que não tem indicador nem competência definida. É vocabulário de culto: a chamada teologia da prosperidade, pregada em igrejas pentecostais e neopentecostais, promete ao fiel bênção material como fruto da fé. O “eu vou cuidar de você de ponta a ponta” completa a imagem, com a cadência do pastor que acolhe o rebanho. Não é a linguagem de um gestor que apresenta um desenho institucional.
O problema não é a fé de ninguém, que merece respeito. É a escolha de levar ao Estado laico a gramática da promessa, e não a do planejamento. A palavra foi escolhida pelo que evoca, não pelo que organiza. É apelo, e não razão.
A escolha cobra preço em coerência, em dois pontos.
• Contra os princípios liberais que o inspirariam. O plano se apresenta como “uma alternativa liberal, conservadora, reformista e corajosa”, que defende “um Estado eficiente” que “pare de atrapalhar quem trabalha” (p. 12). O liberalismo desconfia justamente do Estado que se propõe a fazer o cidadão prosperar. Para essa tradição, a prosperidade é obra do indivíduo e do mercado, e cabe ao Estado garantir regras, não distribuir bênçãos. Um ministério que promete “cuidar de você de ponta a ponta” é a antítese disso: mais Estado, mais tutela, mais máquina.
• Contra a própria crítica ao assistencialismo. O programa acusa a esquerda de tratar o programa social como “destino”, porque “dependência vira voto” (p. 42). E fixa como critério de toda política a pergunta: “isso ajuda a pessoa a depender menos do Estado amanhã do que ela depende hoje?” (p. 43). Prometer um Estado que cuida do eleitor “de ponta a ponta” não reduz a dependência. Amplia e personaliza essa dependência. O que o plano condena no adversário, o candidato ofereceu no debate, com outro nome.
Ministério não é slogan. Exige lei de criação, estrutura, cargos, orçamento e competências definidas diante das pastas que já existem. Num programa que dedica um capítulo inteiro a “enxugar a máquina”, anunciar ao vivo uma pasta ausente do documento revela uma de duas coisas. Ou a campanha não conhece o próprio plano, ou o plano não vale para a campanha. Nos dois casos, o eleitor perde a referência do que seria de fato executado.
O Ministério da Prosperidade nasce sem orçamento, sem competências e sem lugar no próprio plano de governo. Tem apenas um nome que soa como bênção. Quem pediu o debate para comparar programas deveria, ao menos, comparar o que disse com o que escreveu.
A pergunta que surge é: O titular será o Pastor da Igreja Batista da Lagoinha, cujo escandalo e conexões com Daniel Vorcaro são mais do que suspeitas da trajetória de prosperidade ? No final, o Ministério pode até ser prosperidade, mas certamente não do povo brasileiro.
Fontes
• Programa de governo “Para o Brasil Vencer o Atraso – Diretrizes do Plano de Governo 2027-2030” (PL), pp. 10, 12, 42-43, 46, 59 e 69.
• Trecho do debate Band, 18/10/2026 (YouTube): https://youtube.com/shorts/omfYbixtsiY
• Band – Flávio Bolsonaro propõe Ministério da Prosperidade caso seja eleito: https://www.band.com.br/politica/eleicoes/flavio-bolsonaro-propoe-ministerio-da-prosperidade-caso-seja-eleito
• Band – Debate na Band: veja como foi o 1º embate entre Flávio e Lula em frases: https://www.band.com.br/politica/eleicoes/debate-na-band-veja-como-foi-o-1o-embate-entre-flavio-e-lula-em-frases
• BPMoney – Ministério da Prosperidade: o que Flávio Bolsonaro promete criar se vencer a eleição: https://bpmoney.com.br/politica/ministerio-da-prosperidade-flavio-bolsonaro-promessa/
• Congresso em Foco – Em programa de TV, Flávio promete criar o “Ministério da Prosperidade”: https://www.congressoemfoco.com.br/noticia/123150/em-programa-de-tv-flavio-promete-criar-o-ministerio-da-prosperidade
• O Liberal – “Vou governar até para petistas”, diz Flávio: https://www.oliberal.com/politica/vou-governar-ate-para-petistas-verao-que-com-bolsonaro-democracia-esta-garantida-diz-flavio-1.1182688
• Poder360 – Debate da Band com Lula e Flávio será em 18 de outubro: https://www.poder360.com.br/poder-eleicoes-2026/debate-da-band-com-lula-e-flavio-sera-em-18-de-outubro/
• “Quando quebrar o sigilo, não sobra um”, diz Rogério Correia sobre laços entre Lagoinha e caso Master https://www.brasil247.com/brasil/quando-quebrar-o-sigilo-nao-sobra-um-diz-rogerio-correia-sobre-lacos-entre-lagoinha-e-caso-master/
Ibraim Rocha - Doutor em Direitos Humanos e Meio Ambiente – UFPA, Procurador do Estado do Pará e membro do IBAP. Escreve todo o dia 21




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