Para Lula e Arthur

- Ciro Yoshiyasse -


1.

É um velório de menino. Dezenas de coroas brancas, há brinquedos, bolas, uma bíblia infantil, uma imagem de Santa, vidros com areia, pedrinhas brancas, bonecos e um troféu em frente ao pequeno caixão. Mulheres com lágrimas secas nas faces afagam o menino que, não... não parece dormir.

"Aguardamos o homem mais perigoso do Brasil" - Foto de Cyro Yoshiyasse - São Bernardo do Campo, 2.3.2019 - 10h

Não há outras pessoas sendo velados, eu faço minha oração e saio (- eis aqui o refúgio, a iluminação no acolhimento infinito).


A construção foi erguida na parte elevada atrás da capelinha, é mais bonita do que o salão comum logo abaixo. Espero diminuir a fila destes velhos militantes atrás do café da lanchonete. Passei um bom tempo conversando com o Gegê, falamos sobre a jovem militância, o velho Clóvis, música e ocupações.

Ele vestia um jaleco da Petrobrás, que ganhou durante a greve de fome.


Volto no tempo, ao velório de minha mãe. A lanchonete não era aqui. Não havia luzes e nem pessoas pelos cantos trocando murmúrios.

Nem cinco viaturas na frente do velório com suas luzes insuportáveis.


2.

A chuva cintila e alivia o fundo escuro da noite

As almas hoje voarão facilmente pelo céu

Elas escapam pelas janelas


Se for uma criança a noite será especial.


Piruetas, queda em parafuso, giro, fuga


Mas Arthur olha pra nós aqui

-olha o vô!

e se lembra como era ter peso

todo o peso do mundo


Ciro Yoshiyasse é Tecnólogo pela FATEC-SP, editor e ilustrador da Revista Mouro.

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