AUTODIDATISMO E AUTOENGANO
- 1 de abr.
- 6 min de leitura
-Ricardo Antonio Lucas Camargo*-
Muitas vezes, a elogiável disposição para ler e aprender conduz à acumulação desordenada de informações, que passam a se desconectar em pontos em que existe efetiva conexão e a se conectar onde são desconexas.
Muito do autoengano, pelo que conheço em termos de experiência própria, nasce, paradoxalmente, de uma certa ânsia de saber que leva a um indisciplinado autodidatismo. Com uma formação de conhecimento a meio caminho da superficialidade e da profundidade, tida ilusoriamente como suficiente – aquilo que Theodor Adorno chamava, de um modo praticamente intraduzível, "Halbbildung" (a menos defeituosa aproximação do vernáculo seria, talvez, “meia formação”) -, tem-se o primeiro passo para uma jornada errática, em que se tende, mesmo, é a criar novos erros que não são identificáveis como tais, salvo um conhecimento especializado.
![Por Eugène Delacroix - 1. Web Gallery of Art: Imagem Informações sobre a obra de arte2. [1], Domínio público, https://commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=15452861](https://static.wixstatic.com/media/60fe87_d19ea5a6ee9a4ad4942f1e3060920f80~mv2.jpg/v1/fill/w_960,h_716,al_c,q_85,enc_avif,quality_auto/60fe87_d19ea5a6ee9a4ad4942f1e3060920f80~mv2.jpg)
Este fenômeno está na raiz de muitas compreensões pseudocientíficas e/ou místicas, e de muitas teorias da conspiração. Via de regra, os que dão início a essas compreensões são vítimas da "Halbbildung", não agem movidos pela má fé, como sói acontecer com os charlatães. Diferem destes últimos pelo fato de serem também vítimas do engano que propagandeiam; não são enganadores que trazem as informações que sabem falsas ou distorcidas para obterem vantagens, sejam patrimoniais, sejam políticas.
Conheço, particularmente, muitos casos em que se manifesta a “Halbbildung”, convivendo ao lado da invencionice e do fanatismo, em movimentos esotéricos, e não é raro que suas proposições, fruto que são da indisciplina do autodidatismo, possam conduzir ao preenchimento de lacunas a partir do estabelecimento de conexões fantásticas, que tocam a fímbria da invencionice, precisamente pela necessidade de fazer a conta fechar e não se admitir a possibilidade de uma pergunta sem resposta, o que, na tranquilidade do dogmatismo, é visto como uma confissão de fraqueza, e não de compromisso com a verdade, a admissão da impossibilidade de explicar um fenômeno, embora este tenha existência comprovada.
Não se pense que a titulação acadêmica seja algo que torne o indivíduo infenso a estas verdadeiras armadilhas cognitivas: pelo contrário, o temor gerado pela dúvida é algo profundamente humano, e não é raro encontrar, nesses meios, profissionais com sólida formação técnica, que, ao mesmo tempo que se mantêm atualizados em relação aos conhecimentos especializados das respectivas áreas, ao que lhes seja estranho por vezes aceitam tranquilamente as conexões fantásticas, por lhes faltarem elementos para refutação. Não é raro, tampouco, indivíduos que se pretendem dotados de maior esclarecimento que o comum dos mortais sustentarem teses apenas à base de proteção das corporações com que se identificam -- ao estilo do "não posso aceitar o dado como verdadeiro, porque ele vai contra quem eu defendo", "não posso aceitar como verdadeiro, porque beneficia quem eu odeio", "não posso dar como falso, porque beneficia quem eu defendo", "não posso dar como falso, porque prejudica quem eu odeio" --, mesmo que absurdas e, a longo prazo, suicidas. Por isto é que dou razão a quem considera a autopercepção de ciência mais nefasta que a própria ignorância.
Uma das questões que me parecem mais sérias, no momento de tipificar as mais variadas manifestações dos campos místico, esotérico e religioso, é a presença (ao lado dos exemplos de “Halbbildung”, de invencionices, de fanatismos) da fé sincera que chega perto do fanatismo, mas sem a construção intelectual das vítimas da “Halbbildung” e dos culpados pela invencionice, e do farisaísmo. Aliás, Nietzsche foi bem sagaz (como ele mesmo se considerava) ao recordar que nenhuma das religiões e ritos do mundo sobreviveria se dependesse só dos sacerdotes e de observadores de ritos hipócritas. O exemplo, talvez, de fé sincera mais evidente seria o de Santa Joana d’Arc. O Tartufo molieresco é o arquétipo do fariseu. Esta é, inclusive, uma circunstância que me mostra o quão incompletos foram os diagnósticos realizados, até agora, quanto à origem da necessidade da fé. Seja em Freud, seja em Russell, seja em Nietzsche, questões como medo da morte ou como necessidade da proteção paterna, ou vontade em direção ao poder, embora expliquem muito, não explicam tudo. Mesmo o autoengano chamado "esperança em um futuro melhor" não ajuda. Esta é uma pergunta que me fortaleceu o agnosticismo, afastando-me do fundo misticismo de que estive cercado por mais de meio século, mas não me empurrou para as certezas do ateísmo.
Um ponto cego da certeza ateística está presente na capacidade de comunicação da música. Não falo da música com letra, vez que esta, na realidade, apenas reforça a capacidade comunicacional da literatura, mas da música estritamente instrumental. Independentemente de se gostar ou não do que se ouve, trate-se de música “erudita” ou “popular”, vinda da espontaneidade do povo ou trabalhada industrialmente, sempre o ouvinte recebe uma mensagem que é toda sua. Esta capacidade comunicacional não tem como se explicar em termos físicos e não tem, tampouco, como ser dada por inexistente. Esta é uma razão para que o meu agnosticismo não desemboque com facilidade no ateísmo.
As considerações que estão sendo desenvolvidas aqui poderiam levar à impressão de que eu estaria a legitimar o discurso que qualificou todo o conhecimento tradicional como “superstição” e, com isto, conferiu mais uma justificativa para a aventura colonial, tidos os habitantes originários da América, da África, da Ásia e da Oceania como situados em uma posição hierárquica inferior também sob o ponto de vista intelectual. Esta impressão se esboroa facilmente, sem nenhuma negação dos métodos que cada ciência se propôs, com o denominador comum da verificabilidade independentemente de um compromisso fideístico: os conhecimentos tradicionais, efetivamente, quando se caracterizam como tais, são validados pela experiência, porque foram construídos a partir de experiências reiteradas. As virtudes da coca em relação aos efeitos das altitudes andinas, as propriedades medicinais da erva-mate, tudo isto integra os conhecimentos tradicionais, frequentemente anotados pelos cientistas das grandes indústrias para, em seguida, submetê-los ao regime da propriedade industrial, a sobejamente conhecida “biopirataria”. Coisa bem diversa são os conhecimentos urdidos no seio da civilização urbana, “travestidos” de conhecimentos tradicionais, ou mesmo de conhecimentos científicos.
Separar o joio do trigo: o que realmente provém da tradição popular, integrando um conjunto de conhecimentos que está na base da cultura e o que é apropriação dessa tradição, distorção tanto culposa quanto dolosa. Eis uma necessidade universal, também para que se evite ofertar à ciência um status que o cientista digno deste nome não deseja que ela tenha, qual seja, o de uma "religião laica". Wernher von Braun não foi menos cientista ao desenvolver para Hitler a bomba V2 do que quando desenvolveu, para a NASA, a tecnologia que pôs Armstrong, Collins e Aldrin na Lua.
A paixão pela tecnocracia não significa, necessariamente, apreço pela ciência. O mais interessante é que os obscurantistas, paradoxalmente, gostam de dizer que suas proposições são "cientificamente comprovadas" e convertem os tecnocratas em verdadeiros sacerdotes, quando não magos, de seus cultos. Um exemplo extremo, sobejamente conhecido, é a invocação das "provas da biologia e da genética" para os nazis justificarem a superioridade ariana. Hoje, fala-se na "comprovação matemática" de que salários altos e juros baixos é que geram inflação, como se contas corretas fossem, por si mesmas, suficientes para comprovar algo, quando a própria seleção do que comporá e do que não comporá a equação depende, frequentemente, de juízos de conveniência de quem a monta. Por outro lado, se o ponto de partida de qualquer decisão tem que ser um fato verdadeiro – ou que, pelo menos, se perceba como tal -, a decisão, em si, não é determinada pela verdade, mas sim pelo que assegure a composição de interesses conflitantes. Verdade não é questão de decisão e não é critério de decisão. Critério de decisão é valor.
Ricardo Antônio Lucas Camargo-Professor da Faculdade de Direito da Universidade Federal do Rio Grande do Sul e Professor Visitante da Università degli Studi di Firenze – Integrante do Centro de Pesquisa JusGov, junto à Faculdade de Direito da Universidade do Minho, Braga, Portugal – Doutor em Direito pela Universidade Federal de Minas Gerais – Ex-Presidente do Instituto Brasileiro de Advocacia Pública (2016-2018) – Membro do Instituto dos Advogados do Rio Grande do Sul - Procurador do Estado do Rio Grande do Sul - email: ricardocamargo3@hotmail.com . ORCID: https://orcid.org/0000-0002-7489-3054 Escreve todo dia 01 do mês.




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