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DEVER DE RESILIÊNCIA – PERMISSÃO PARA EXISTIR

  • há 18 horas
  • 5 min de leitura

-Ricardo Antonio Lucas Camargo-


Por Mabscoito - Obra do próprio, CC BY-SA 3.0, https://commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=40120967
Por Mabscoito - Obra do próprio, CC BY-SA 3.0, https://commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=40120967

Quando se ergue a "resiliência" como virtude, um ponto que talvez mereça atenção é o quanto ela se pode associar à ameaça de ser atingido pelo desemprego, pelo ser lançado à própria sorte na busca pela sobrevivência. 


Não é, aliás, casual que um dos conceitos mais perturbadores e claros que se encontram em “Ser e tempo”, de Heidegger, é o conceito de “estar-lançado”, é a situação do “Ser” que não se relaciona com o “Mundo”, e, por isto, é um “não-Ser”, como era o caso dos destinados, pelo III Reich, ao qual o filósofo em questão serviu devotadamente, aos campos de extermínio. 


Vale notar que, atualmente, a incapacidade de prover a própria subsistência tem sido, a rigor, vista como uma espécie de confissão de estar a ocupar, desnecessariamente, um espaço escasso para os que merecem existir e para os que têm utilidade para estes. 


O fantasma do desemprego, mais que um problema econômico ou social, torna-se um problema existencial: este indivíduo sobrecarrega uma sociedade cheia de necessidades, com a sua existência, e não justifica essa mesma existência. 


Quem apontar para dificuldades na execução das tarefas passa a ser recordado, às vezes de modo sutil, outras, de modo explícito, que sempre haverá quem esteja disposto a submeter-se e a reconhecer o grande favor que se lhe faz em permitir obter os meios para existir honestamente. 


A resiliência passa a ser a outra face da proposição "quem não vive para servir, não serve para viver", sua ausência passa a ter como resultado a proposição "pular do barranco é de graça".


Até mesmo o suicídio tem que ser o que menos custos impõe a quem está investido no poder de exigir: a morte do operário personagem de “Construção” se deu “na contramão, atrapalhando o tráfego”.


Claro que a questão pode ser considerada, também, em relação a determinadas variáveis, que, se não versadas com cuidado, poderiam ser tidas como verdadeiro aprofundamento das situações de opressão. 


Embora seja possível -- e correto - dizer que a experiência é algo personalíssimo e intransferível, isto não impede que ela possa ser narrada, para que se saiba que ela, efetivamente, ocorre. 


E as condições para que ela ocorra devem ser, inequivocamente, investigadas, para que, em se a tendo como não desejável, possam ter abortado o seu surgimento, a fim de que se evite a repetição. 


É este um ponto de partida necessário quando se vai abordar, mesmo sem ser integrante dos grupos que são afetados, eventualmente, os marcadores de gênero e raça.


Poder-se-ia dizer que estas são circunstâncias que revelam fundamentos de submissão que particularizam a forma por que se deve entender a "resiliência" dos que estejam "naturalmente" destinados à subalternidade. 


Pode ser um fundamento que dê como irrelevante a chamada “dupla jornada de trabalho” ou que considere um dever de aguentar calado a imputação de uma prática de furto, sem, em qualquer dos casos, ousar responder, indicar o erro ou a injustiça, porque “a posição hierarquicamente superior é a expressão da Verdade e da Justiça Divina”; “Deus aos Seus não impõe subalternidade”. 


A representação dos gêneros e das raças se casa com o que se entenda que seria o grau de sacrifício exigível, e exigível de acordo com a própria afirmação de uma supremacia cujo fundamento é estritamente arbitrário.


Poder-se-ia sustentar que as exigências de resiliência são objetivas, e que somente os fracos sucumbem. 


Sustentar isto vale, na realidade, por considerar o heroísmo como conduta exigível do comum dos mortais, até porque, como se sabe, não se exige de quem quer que seja o comportamento excepcional, mas sim o comportamento alcançável por qualquer pessoa. 


A ideia de que somente os fracos sucumbem não deixa de ser uma transposição da “seleção natural” identificada por Darwin em sua Origem das espécies, embora o mesmo Darwin tenha apontado, em edições posteriores, ser um erro tal transposição, levada a cabo, dentre outros, por Herbert Spencer. 


A ausência de resposta satisfatória à exigência de produzir resultados apesar das dificuldades se, por um lado, desemboca na noção fascista do heroísmo como dever, por outro, conduz aquele que não dá a resposta satisfatória a francos desconfortos existenciais, normalmente adjetivados como “frouxidão”, “fraqueza”, “preguiça”, “incompetência”. 


Se, no III Reich, houve uma impressão de selos de correio com o dístico “tu és nada, teu povo é tudo”, a mensagem implícita é, na realidade mercadolátrica atual, “tu és nada, quem te dá emprego é tudo”.


Isto, considerando o emprego como um favor, para que o indivíduo tenha a oportunidade de justificar sua existência. 


A referência ao Nazismo é desconfortável, mercê de ser, antes e acima de tudo, no senso comum, associado à expressão do Mal derrotada pelo Mundo Livre, mas a transposição para a lógica empresarial não tem sido rara, até mesmo em razão da própria motivação de todo agente privado, identificada tanto por Mandeville, poeticamente, e no plano científico por Adam Smith: a busca do benefício próprio, na máxima intensidade possível.


Decidi não discutir os mecanismos de internalização das exigências de resiliência feitas ao trabalhador, como medo, culpa, vergonha etc., porque me parece que, para tanto, precisaria de conhecimentos mais profundos de psicologia, dos quais sou carecedor. 


Entretanto, o burnout, a depressão, são frequentemente observáveis até mesmo por leigos nessa área em quantos não atendem à exigência inequívoca de resiliência, aos que apontam para as dificuldades no trabalho, incomodando o chefe, ao invés de mostrarem que são capazes de ser eficientes, a despeito de tais dificuldades. 


As manifestações de burnout e depressão fazem parte da experiência quotidiana de qualquer ambiente de trabalho, hoje em dia.

 

Dificilmente alguém não se terá deparado com um(a) colega que manifeste a impressão de que as metas que se lhe exigem vão além da sua capacidade pessoal, ou não terá, ele mesmo, passado por essa experiência.


 A depressão, então, nem se fala: o desânimo para executar as tarefas mais comezinhas, a identificação da falta de sentido no esforço dispendido, da falta de sentido, mesmo, no viver, não se corrige nem mesmo com a intensificação do ritmo de trabalho. 


Não é preciso ser legista para reconhecer, as mais das vezes, a presença da morte, embora seja necessário tal conhecimento para se identificar as causas da morte.



Ricardo Antonio Lucas Camargo - Professor da Faculdade de Direito da Universidade Federal do Rio Grande do Sul e Professor Visitante da Università degli Studi di Firenze – Integrante do Centro de Pesquisa JusGov, junto à Faculdade de Direito da Universidade do Minho, Braga, Portugal – Doutor em Direito pela Universidade Federal de Minas Gerais – Ex-Presidente do Instituto Brasileiro de Advocacia Pública (2016-2018) – Membro do Instituto dos Advogados do Rio Grande do Sul - Procurador do Estado do Rio Grande do Sul - email: ricardocamargo3@hotmail.com . ORCID: https://orcid.org/0000-0002-7489-3054 Escreve todo dia 01.



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