A VIRTUDE DO CONFORMISMO
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-Ricardo Antonio Lucas Camargo-

Não me lembro da primeira vez que ouvi a palavra “resiliência”. Lembrava do verbo “resilir”, empregado nas aulas de Direito do Trabalho, referente à extinção do contrato respectivo, e que nada tinha que ver com a palavra nova, cujo sentido, desde que aplicado a pessoas, diria respeito à capacidade de alguém “superar situações difíceis”. Normalmente, associada com histórias edificantes de superação, ou daquele empregado que acredita que Deus fala pela boca de seu patrão e que qualquer coisa que faça a empresa em que trabalha gastar mais é mais pecaminoso do que a própria existência de Sodoma e Gomorra. O sujeito que, gloriosamente, se dispõe a trabalhar, sem reclamar, de short e camiseta regata em um dia com chuva e vento e não vem incomodar, nem mesmo se vier a adoecer. O indivíduo que perdeu a família no desastre de Mariana e continua a defender, com convicção, a sacralidade dos direitos da sua empresa economizar nas providências para evitar novos rompimentos de barragem. Os resilientes são, na realidade, uma “gente que ri, quando deve chorar, e não vive, apenas aguenta”.
Claro que alguém me poderá objetar que esse tipo de comportamento não é natural, que o ser humano tende, na realidade, a buscar o seu próprio bem-estar. E, de fato, esta é uma tendência humana. Entretanto, há critérios para que esta tendência se manifeste. Por exemplo, no caso da “omissão de socorro”, temos uma situação de dificuldade que exige que quem tenha a condição de auxiliar o que padece deixe de lado o seu próprio bem-estar. Este, diga-se de passagem, é um dos critérios legítimos de afastamento da busca do bem-estar pessoal: é ele não poder ser obtido senão à custa do mal-estar alheio. Agora, existem critérios ilegítimos. Um deles, sintoma inequívoco, identificado por Umberto Eco, da mentalidade fascista, é o tratamento do heroísmo como dever. Outro critério, que é o que interessa para este texto, é a divisão da humanidade entre os que têm a prerrogativa e, mais que isto, o direito de buscarem o próprio bem-estar e os que têm o dever de a tudo suportar em silêncio, ou até mesmo de agradecer a situação sacrificial. Estes são os tais “resilientes”.
Da própria tendência do ser humano buscar o bem-estar pessoal, decorre a respectiva resistência em assumir os efeitos eventualmente catastróficos de suas decisões e atitudes. Entretanto, o “resiliente” vai mais longe: quaisquer eventos que o atinjam negativamente só podem ser decorrentes de sua própria inépcia ou preguiça, jamais poderão ser tidos como decorrentes de alguma causa que estaria fora de seu alcance. Deve buscar, antes, fazer por merecer ocupar espaço na terra, para que os seus superiores lhe concedam o privilégio de ser-lhes, de algum modo útil. Porque os que lhe são superiores não o são, apenas, no plano funcional, mas sim na própria escala da humanidade, e quem negar isto, estará, na realidade, cometendo gravíssima blasfêmia. Será um agente de Satanás, merecedor de ser exorcizado, não importam os meios para tanto.
A região em que vive o nosso amigo resiliente é particularmente castigada pelas intempéries? Pouco importa: ele que a faça produtiva. Os superiores precisam ficar satisfeitos.
Não é preciso muito esforço para perceber que o personagem “resiliente” de hoje é muito semelhante ao “servo fiel” que aparecia nos Contos coletados pelos Grimm, dando a vida pelos seus nobres senhores, ou mesmo o aguadeiro indiano Gunga Din, do poema de Rudyard Kipling, que morria heroicamente tocando a corneta para encorajar as tropas coloniais contra os seus compatriotas rebelados contra a Coroa Britânica. Cada época tem o seu herói da submissão. A covardia é algo digno de desprezo, mas a coragem deve ser empregada, segundo uma tal visão, para a afirmação de uma hierarquia cuja origem é considerada como transcendente a qualquer convencionalidade: é algo que decorreria da própria “natureza das coisas”, pouco importa que sequer se saiba o que se quer dizer com esta última expressão. Se a origem estiver além da própria natureza, for de ordem metafísica, melhor ainda: não tem como ser questionado o que foi posto por forças transcendentes mesmo à natureza. As coisas são como são, a menos que os superiores desejem que sejam diferentes: e, se desejarem, será do modo que eles quiserem que seja, e de nenhum outro.
A região em que vive o nosso amigo resiliente é particularmente castigada pelas intempéries? Pouco importa: ele que a faça produtiva. Os superiores precisam ficar satisfeitos. O resto não interessa. Eles não devem ser perturbados por reclamações, ainda que digam respeito a problemas que eles podem resolver. Se eles não identificarem os problemas por si mesmos, ele que “não fale em crise, trabalhe”, esforce-se por mostrar resultados que agradem a quem está em posição melhor do que a sua. Produziu bem, nunca reclamou: resiliência exemplar. E se ele adoecer? Não incomode os superiores. Eles é que, espontaneamente, irão, caso julguem bom e útil, providenciar um médico e cuidados, a menos que outro que não ele, e dotado de maior respeitabilidade, informe que, se ele não for cuidado, podem advir sérios prejuízos para pessoas mais honradas do que ele.
Alguém lhe veio dizer que “o ser humano não pode nunca ser considerado um simples meio, mas sempre um fim em si”? Frase bonita, mas não é para ele. Aliás, quem quiser aplicá-la a ele, estará, em realidade, tentando desviá-lo da missão divina que lhe foi ofertada: “ser resiliente”. “Resiliente” como o individuo que acorda de madrugada para pegar o ônibus para o trabalho e tem que rezar para que não haja engarrafamento no trânsito, para não chegar atrasado e não provocar a ira santa do seu chefe. “Resiliente” como o indivíduo que, em meio à selva, trabalha numa fazenda entre nada e lugar nenhum e, desesperado por sua produtividade não ser satisfatória ao seu patrão, ainda deve dinheiro a este em razão dos gêneros adquiridos na única venda existente no local, que é o armazém da própria fazenda. “Resiliente” como o indivíduo que vive situações análogas a estas e se recusa, terminantemente, a sindicalizar-se, porque isto significaria desafiar os seus superiores, quebrar a hierarquia, destruir o próprio fundamento do universo. O sujeito que foi dizer esta frase para ele não passa de um sabotador.
Pode-se dizer, sem medo de erro, que “resiliência”, “resiliente”, integram a família das palavras sirênicas deste início de século XXI, das que tornam atraente a armadilha, tornam o indivíduo orgulhoso de sua capacidade de sofrer sem reclamar, de realizar suas tarefas sem fazer nenhuma observação, simplesmente, fazer a hierarquia funcionar, ainda que contra si próprio, caminhando, feliz, em direção à sua própria reificação. Que importa tudo isto, se os seus superiores, alguma vez, irão dar-lhe o devido reconhecimento, mandando o cartão de Natal e os votos de Boas Festas, a ele e à família?
Ricardo Antonio Lucas Camargo - Professor da Faculdade de Direito da Universidade Federal do Rio Grande do Sul e Professor Visitante da Università degli Studi di Firenze – Integrante do Centro de Pesquisa JusGov, junto à Faculdade de Direito da Universidade do Minho, Braga, Portugal – Doutor em Direito pela Universidade Federal de Minas Gerais – Ex-Presidente do Instituto Brasileiro de Advocacia Pública (2016-2018) – Membro do Instituto dos Advogados do Rio Grande do Sul - Procurador do Estado do Rio Grande do Sul - email: ricardocamargo3@hotmail.com . ORCID: https://orcid.org/0000-0002-7489-3054 Escreve todo dia 01.




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