REFLETINDO SOBRE UMA (URGENTE E NECESSÁRIA) ABERTURA DE VISÃO

-MARISE COSTA DE SOUZA DUARTE-


Imagem - Free Stock Photos

Talvez um dos maiores desafios do nosso tempo seja nos permitir ver as coisas de modo diferente e buscar formas de colocar em prática essa visão. Já há algum tempo venho pensando assim, mas nunca essa premissa ficou tão clara para mim como nos últimos tempos, mais precisamente a partir de março de 2020 quando a pandemia foi oficialmente declarada pela Organização Mundial de Saúde.


Me parece claro que não conseguiremos sair dessa “encrenca” em que nos metemos sem que transformemos, de forma substancial, nosso modo de estar no mundo (seja como indivíduos, como sociedade, empresas ou governos). Precisamos reconhecer que o enfrentamento dos desafios do nosso tempo exige a superação do paradigma do conhecimento (mecanicista e reducionista) que nos trouxe até aqui e que ofusca a visão de integralidade e conexão que se exige para seguirmos adiante.

A realidade atual em que vivemos[1] nos exige – necessariamente - uma outra forma de ver, de pensar e de viver, saindo do Mecânico para o Orgânico (conforme nos ensina David Abram no seu texto “The Mechanical and the Organic On the Impact of Metaphor in Science”, M.I.T. Press, 1991), especialmente PERCEBENDO e EXPERIMENTANDO o quanto somos parte de um organismo vivo – GAIA – e seu metabolismo único e constante, nas palavras do Prof. Abram.

Será que já paramos para pensar que o ar que respiramos (atividade vital para todos os seres, tão valorizada no contexto da pandemia em que milhares de pessoas morrem por falta de ar) encontra-se em uma composição química determinada pelos metabolismos (processos físicos, químicos e biológicos) desse organismo vivo? E que, conforme a ação humana, poderá ser alterado, de tal modo, que não permita mais a vida humana na Terra?

A crise climática contemporânea (declarada como Emergência Climática, em 2019, pelo Parlamento Europeu) vem nos alertando para a grave e catastrófica ameaça que está colocada para a Humanidade. Contudo, tal alerta ainda está longe de ser devidamente considerado pela sociedade e muitos governos em todo o mundo, como o atual Governo brasileiro.


Nesse contexto importa destacar que, ainda no ano de 2009, cientistas ambientais liderados por Johan Rockström do Stockholm Resilience Centre, na Suécia, e Will Steffen, da Universidade Nacional Australiana, usaram a expressão planetary boundaries (limites ou fronteiras planetárias) para identificar os principais processos biofísicos do Sistema do Planeta Terra nos quais sua capacidade de autorregulação e resiliência já se encontrava comprometida ou em processo de comprometimento. Entretanto, pouco ou quase nada – fora dos meios científicos e dos espaços institucionais, especialmente em âmbito internacional – se fala sobre tais “pontos de não-retorno”.


E a vida continua para a maioria das pessoas; sendo ignorada a “beira do precipício” em que nos encontramos. Todos nós! E todo o mundo, literalmente!


Assim, para nos permitir ver as coisas de modo diferente e buscar formas de colocar em prática essa visão precisamos de “conhecimentos transformadores”. Não tenho a menor dúvida disso!

E quais seriam esses conhecimentos? De modo bastante resumido e introdutório, penso que seriam todos aqueles que se assentam em uma concepção holística[2], ou seja, uma percepção integrada e interligada dos fenômenos, onde o todo está presente em cada uma das partes e cada uma delas interfere no todo.

E, ainda, que se colocam no campo do pensamento sistêmico, que tendo como base a premissa aristotélica de que “o todo é maior do que a soma das partes”, e considerando as dimensões da complexidade, da instabilidade e da intersubjetividade, nos apresenta uma nova forma de ver e pensar o mundo e aprender a lidar com ele (ESTEVES, 2008).

Nesse cenário, é importante lembrar das ideias do Movimento Romântico[3], surgido na Europa do final do século XVIII, que, questionando aquele paradigma mecanicista e cartesiano, trouxe o conceito de “orgânico” como princípio central para a interpretação da natureza, em contraposição ao conceito de mecanismo. Goethe, a figura central do movimento, compreendia a natureza como uma “grande totalidade harmônica”; o que levou a alguns cientistas da época “a expandir sua busca da totalidade por todo o Planeta e a ver a Terra como um todo integrado, um ser vivo.” (CAPRA, MATTEI; 2018, p.136).

Tais concepções tem o potencial de romper as fragmentações e reducionismos da ciência moderna em vários campos do conhecimento e orientar novas teorias e práticas. Na seara jurídica, por exemplo, os direitos da Natureza vêm reconhecer a proteção aos elementos naturais para além dos interesses humanos, ultrapassando a visão antropocêntrica do paradigma mecanicista.

Me parece que muito há a ser feito, nessa perspectiva, nos diversos ramos do conhecimento. O que, contudo, exige uma (urgente) abertura de visão!


Albert Einsten nos ensinou que “não é possível resolver um problema com a mesma mentalidade que o criou”. Já é tempo de aprendermos a lição, não é mesmo?

[1] Marcada por profundas rupturas e desconexões (a ambiental, a social e a espiritual) e seus fatores determinantes, nos termos postos pela Teoria U (Scharmer, 2009). [2]O termo holismo advêm da palavra grega holos (que significa inteiro). Considera-se que foi usada pela primeira vez, em 1926, por Jan Smuts, em seu livro Holism and Evolution. [3] Tendo como um de seus grandes expoentes o escritor e pensador alemão Joham Wolfgang von Goethe.

Marise Costa de Souza Duarte é Professora da UFRN, associada da APRODAB e do IBAP.


102 visualizações4 comentários

Posts recentes

Ver tudo