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A esquerda morrerá nas redes?

há 59 minutos
11 min de leitura

Guilherme José Purvin de Figueiredo


Desde os tempos em que o Twitter nos impunha o limite de 140 caracteres, assistimos a um progressivo envilecimento das formas de comunicação. Não porque a concisão seja, por si mesma, inimiga do pensamento — os aforismos estão aí para demonstrar o contrário —, mas porque se consolidou um sistema de comunicação fundado na rapidez, na fragmentação e no impacto imediato. Importa cada vez menos desenvolver uma ideia e cada vez mais produzir uma reação.

É nesse ambiente que floresce aquilo que hoje chamamos de “lacração”: frases recortadas, palavras de ordem, pequenas provocações destinadas a obter aplauso instantâneo, compartilhamentos ou indignação. O enunciado não precisa integrar um raciocínio. Basta que funcione durante alguns segundos. Fragmentos podem produzir efeitos políticos poderosos sem chegar propriamente a constituir uma manifestação significativa do pensamento.

A tradição intelectual sempre caminhou em outra direção. Nos meios universitários brasileiros estudamos Platão e Hegel, Marx e Mariátegui, Merleau-Ponty e Žižek, entre inúmeros outros pensadores que divergem profundamente entre si. O que os reúne, para o argumento que aqui interessa, não é uma identidade doutrinária, mas a exigência de pensar.

A vida intelectual pressupõe estudo, dúvida, contradição, aprofundamento, memória e disposição para enfrentar argumentos com argumentos. Um livro remete a outro livro, uma interpretação suscita outra, uma teoria precisa suportar a crítica. Não combina com contestação ad terrorem, sofismas, simplificações maldosas nem com a desqualificação instantânea do interlocutor.

Não se trata de idealizar a universidade, onde sempre existiram dogmatismos, vaidades e disputas menores. Trata-se de reconhecer uma diferença fundamental entre a própria ideia de atividade intelectual e o oportunismo político imediato: naquela, o pensamento precisa ser submetido à prova; neste, frequentemente basta que a frase produza o efeito desejado.

Essa diferença teve consequências históricas. No Brasil e, em diferentes momentos, em toda a América Latina, movimentos que procuraram ultrapassar o velho modelo de partidos personalistas, oligárquicos, corporativos ou meramente eleitorais nasceram também desses espaços de formação e elaboração. O movimento operário não surgiu espontaneamente de campanhas publicitárias. Tampouco o movimento estudantil.

Mesmo as manifestações anarquistas de século e meio atrás estavam alimentadas por livros, jornais, debates e projetos de sociedade. A experiência da Colônia Cecília, no Paraná, é um exemplo remoto dessa circulação de ideias. Muito depois, a organização operária do ABC paulista e o sindicalismo que esteve na origem do Partido dos Trabalhadores constituiriam outro.

Não se pretende estabelecer uma imaginária linha evolutiva entre anarquistas, sindicatos, movimentos estudantis e PT. Suas diferenças são enormes. O que interessa é algo mais elementar: uma política que se proponha transformadora depende de formação, organização, convivência e elaboração coletiva. Exige lugares onde as pessoas se encontrem, discutam, discordem, aprendam e se reconheçam como participantes de uma mesma experiência social. Exige, sobretudo, tempo. E essa construção produziu vitórias extraordinárias, inclusive a contrapelo da corrente internacional.

Quando Margaret Thatcher simbolizava a ofensiva contra o Estado de bem-estar social e o neoliberalismo avançava como uma das forças dominantes no Ocidente, o Brasil caminhava em direção diversa. A Constituição de 1988, acompanhando de perto em diversos aspectos a experiência constitucional portuguesa, consagrou direitos sociais, estabeleceu objetivos de redução das desigualdades e dedicou ao meio ambiente tratamento sem precedentes em nossa história constitucional.

Há algo de extraordinário nessa contradição histórica: no momento em que internacionalmente se anunciava o fim do Estado de bem-estar social, o Brasil constitucionalizava o bem-estar.


O desmonte da formação

A radicalização neoliberal não veio desacompanhada. Ela coincide com um progressivo empobrecimento do debate público e, mais importante, com o enfraquecimento das instituições que tradicionalmente proporcionavam formação política.

A proliferação de formas pobres de comunicação, conduzidas por pessoas cuja principal qualificação pode resumir-se a uma boa performance diante de uma tela ou à habilidade para produzir frases “lacrantes”, não constitui fenômeno inteiramente separado das transformações econômicas das últimas décadas. A sociedade da precarização é também uma sociedade da comunicação precária.

O sindicato nunca foi apenas um balcão para negociação salarial. Era também lugar de convivência, leitura, debate, assembleia, formação e reconhecimento de interesses comuns. Um trabalhador não encontrava ali apenas alguém que negociaria determinado percentual de reajuste. Encontrava outras pessoas vivendo problemas semelhantes e podia construir uma interpretação coletiva desses problemas.

A fragmentação das relações de trabalho, a terceirização, a informalidade, a “uberização” e a progressiva substituição do trabalhador por uma espécie de microempresário de si mesmo atingem, portanto, muito mais do que a representação sindical. Destroem ou enfraquecem uma estrutura física de reconhecimento coletivo.

Nas universidades, o movimento é diferente e talvez mais sofisticado. Como não é simples extinguir instituições centenárias, modificam-se suas estruturas, prioridades e vocabulários.

Empreendedorismo passa a ocupar espaços antes reservados à sociologia do trabalho. A linguagem da inovação e da competitividade adquire centralidade. ESG pode aparecer como sucedâneo modernizado do direito ambiental. Problemas anteriormente apresentados em termos de conflitos sociais, direitos coletivos, relações de poder ou limites ecológicos passam a ser redigidos na linguagem da administração de riscos, das oportunidades empresariais e dos indicadores de desempenho.

Evidentemente, não se trata de dizer que empreendedorismo ou ESG sejam temas proibidos ou destituídos de qualquer interesse. Trata-se de perceber que as palavras com as quais descrevemos o mundo delimitam também as respostas que conseguimos imaginar para ele. Uma questão apresentada como conflito entre direitos assume natureza diferente quando redescrita como oportunidade de negócio. E, quando nem a reorientação nem o esvaziamento bastam, a violência reaparece.

Às vésperas do segundo turno presidencial de 2018, decisões da Justiça Eleitoral determinaram buscas e apreensões, recolhimento de materiais, interrupção de aulas e restrições a reuniões em universidades. O Supremo Tribunal Federal precisou intervir para assegurar, por unanimidade, a liberdade de manifestação e a autonomia universitária, posteriormente anulando definitivamente aquelas decisões. Não se tratou de episódio inteiramente encerrado naquele ano. Em 4 de março de 2026, segundo nota oficial da direção da FFLCH-USP, um confronto ocorrido no campus terminou com emprego de violência física e spray de pimenta contra estudantes; três alunos da Faculdade sofreram lesões. Poucos meses depois, na madrugada de 10 de maio, a desocupação policial do prédio da Reitoria deixou presos e feridos. A Congregação da FFLCH registrou inclusive o caso de uma estudante que teve o braço quebrado durante a intervenção. Não é irrelevante que instituições cuja própria razão de existir inclui produzir pensamento crítico sejam continuamente transformadas em espaços de intimidação e conflito.


A democracia capturada

Desde o Brexit tornou-se difícil ignorar a facilidade com que os mecanismos da democracia formal burguesa podem conviver com sofisticadas formas de fabricação da opinião pública.

Aqui, a teoria das chamadas guerras híbridas merece atenção. As disputas contemporâneas não se travam exclusivamente por partidos, exércitos ou golpes de Estado segundo os modelos conhecidos no século XX. Informação, redes digitais, economia, lawfare, produção de instabilidade, fabricação de inimigos, campanhas de deslegitimação e intervenção na formação da opinião pública podem integrar uma mesma arena. O controle dos meios de comunicação torna-se, nesse cenário, estratégico.

Nos veículos tradicionais, dinheiro, concentração econômica e patrocínio sempre exerceram enorme influência. Nas plataformas digitais surgiram mecanismos ainda mais penetrantes: algoritmos, segmentação, monetização, impulsionamento, bolhas de comunicação, coleta permanente de dados e distribuição de conteúdos segundo critérios inacessíveis ao público.

A eleição presidencial brasileira de 2018 constitui exemplo eloquente. Jair Bolsonaro dispunha, no primeiro turno, de apenas oito segundos em cada bloco de propaganda eleitoral, enquanto Geraldo Alckmin tinha 5 minutos e 32 segundos. A desproporção é tamanha que, do ponto de vista político, pode-se dizer que aquela candidatura chegou à Presidência praticamente prescindindo da velha estrutura televisiva. Não foi uma simples curiosidade eleitoral, mas uma mudança de época.

Nesse novo ambiente, parcelas enormes do precariado, das periferias e das classes populares — inclusive expressivos segmentos evangélicos — passaram a ser disputadas por uma comunicação que prescinde das antigas organizações intermediárias.

Na América Latina, as consequências políticas são impressionantes. Há poucos anos, Bolívia, Chile, Colômbia, Venezuela, Brasil, México e outros países, com todas as suas diferenças e contradições, pareciam constituir um campo regional capaz de sustentar políticas de redução das desigualdades, proteção social e maior autonomia diante das estruturas tradicionais de poder. Esse bloco não existe mais.

As eleições brasileiras de 4 de outubro de 2026 recolocaram o problema de maneira brutal. Flávio Bolsonaro chegou ao segundo turno à frente de Lula, com cerca de 47% contra 45% dos votos; simultaneamente, o campo da extrema direita ampliou significativamente seu poder no Congresso.

E imediatamente reaparece uma receita: a esquerda precisa modernizar sua comunicação. Mais redes sociais. Mais memes. Mais influenciadores. Mais youtubers. Mais instagramers. Vídeos menores. Frases mais simples. Maior velocidade. Mais impacto. Mas talvez essa seja exatamente a resposta errada.


O influenciador e o entretenimento político progressista

Há uma figura particularmente característica desse novo ambiente: o influenciador político. Ele pode surgir de uma cobertura luxuosa, no alto de um duplex transformado em estúdio de televisão pessoal. Pode exibir viagens, restaurantes e objetos sofisticados. Mas pode igualmente ser um cidadão comum do Tatuapé, ou de qualquer outro bairro, procurando projeção, reconhecimento e algum dinheiro por meio da tela. Isso pouco importa. O essencial não é sua origem social, nem o valor do imóvel onde mora. É a lógica em que passa a atuar.

Opinião política, exposição pessoal, busca de projeção e possibilidade de monetização misturam-se. A imagem do próprio comunicador transforma-se simultaneamente em mercadoria e mensagem. É preciso publicar continuamente, manter-se visível, produzir uma personalidade reconhecível, conquistar seguidores, alimentar o algoritmo. E, nesse contexto, vale praticamente tudo. Receitas engraçadas de bolo, pequenas encenações domésticas, discussões bizarras sobre temas absolutamente banais, comentários indignados sobre o acontecimento do dia, histórias pessoais, fofocas, provocações. Uma careta pode valer tanto quanto um argumento. Um sorriso pode ser mais eficiente do que uma página de reflexão. Um bordão repetido diariamente constrói uma comunidade de seguidores com eficácia muito maior do que um ensaio de vinte páginas. O conteúdo precisa, acima de tudo, impedir que o espectador vá embora.

Ao lado do influenciador individual, surgem verdadeiros canais-empresa dedicados a atender um público ávido por conteúdo identificado com a esquerda. Estruturas profissionais de comunicação oferecem apresentadores, comentaristas, jornalistas, convidados, transmissões ao vivo, entrevistas, assinaturas, publicidade, cursos, produtos, campanhas de financiamento e programas organizados ao longo de todo o dia. A esquerda transforma-se também em nicho de mercado.

O fenômeno merece ser compreendido com alguma sutileza. Esses canais podem produzir informação de qualidade. Podem denunciar fatos que a imprensa tradicional não destaca. Podem entrevistar intelectuais relevantes, divulgar pesquisas, promover campanhas importantes ou preencher lacunas reais do sistema de comunicação.

Nada disso altera, porém, a estrutura na qual operam. Quando sua sobrevivência econômica depende da fidelização da audiência, do número de inscritos, das visualizações, da permanência diante da tela, dos patrocinadores e da monetização, a própria crítica ao mercado começa a obedecer ao mercado da atenção. Forma-se aquilo que poderíamos chamar de entretenimento político progressista.

Há apresentadores carismáticos, celebridades internas, bordões, quadros fixos, histórias de bastidores, polêmicas e uma audiência que retorna diariamente não apenas em busca de informação, mas também de companhia, pertencimento e confirmação. Esse mercado encontra um consumidor particularmente disponível: o eleitor de esquerda órfão. Não de ideias, necessariamente, mas de estruturas.

O partido já não ocupa sua vida cotidiana. O sindicato deixou de ser lugar de encontro. O movimento estudantil não acompanha a maior parte da existência adulta. Centros Acadêmicos praticamente não mais existem enquanto espaços de convívio. A associação de bairro praticamente desapareceu. Igrejas, ao contrário, conservaram em muitos lugares uma extraordinária capacidade de presença territorial e de construção comunitária.

Nesse vazio, o influenciador chega todos os dias pelo telefone celular. Ele fala diretamente ao espectador, chama-o pelo mesmo pronome que usaria um amigo, responde a comentários, conta sua vida, apresenta sua casa, oferece interpretações para as notícias e produz uma sensação contínua de proximidade. Mas essa relação é profundamente diferente daquela construída numa organização política. Numa associação, num sindicato ou num partido, pelo menos idealmente, o indivíduo encontra outros indivíduos, discute, vota, perde votações, convence, é convencido, aceita decisões coletivas, assume tarefas e responde por elas.

Na lógica do influenciador há, fundamentalmente, audiência. Alguém fala. Milhares assistem. O militante converte-se em seguidor. A participação transforma-se em “engajamento”. A organização cede lugar à comunidade virtual. A formação dá lugar ao consumo continuado de conteúdo. E o projeto político pode acabar substituído pela fidelidade a uma personalidade.

É por isso que a simples proposta de criar mais influenciadores “de esquerda” pode ser insuficiente e até contraditória. Ela pode conquistar votos. Pode aumentar alcance. Pode produzir vídeos com milhões de visualizações. Mas pode, simultaneamente, aprofundar precisamente a forma social que destruiu as condições históricas de existência de uma política de esquerda.


O meio é a mensagem

Marshall McLuhan formulou há décadas uma proposição cuja força talvez jamais tenha sido tão evidente: o meio é a mensagem. Isso significa que não escolhemos livremente um conteúdo e depois procuramos um recipiente neutro onde depositá-lo. O meio reorganiza a mensagem. Modifica nossa percepção, nossa linguagem, nosso comportamento e, no limite, aquilo que conseguimos pensar. A reflexão pode ser levada ainda mais longe. Facebook, Instagram, YouTube e as demais grandes plataformas não são praças públicas inocentes posteriormente utilizadas de maneira inadequada por determinados grupos políticos. Foram construídas dentro de determinado modelo econômico e tecnológico e cumprem precisamente sua função quando capturam atenção, transformam comportamento em mercadoria, recompensam impacto, simplificam conflitos e convertem relações humanas em dados comercialmente utilizáveis. Zuckerberg e seus congêneres não criaram instrumentos exteriores ao neoliberalismo. Criaram algumas de suas estruturas mais eficazes. Acreditar que basta ocupar essas estruturas com “bom conteúdo” significa talvez não compreender inteiramente a máxima de McLuhan. Ao entrar nelas, não levamos apenas nossa mensagem. Somos também transformados pela forma através da qual nos comunicamos. Uma ideia que precisa caber em quinze segundos já não é exatamente a mesma ideia. Uma organização política que passa a medir sua influência pelo número de seguidores já não é exatamente a mesma organização. Uma militância que precisa disputar permanentemente a atenção do espectador com uma receita de bolo, um vídeo de cachorro, uma celebridade e uma publicidade de automóvel acaba submetida à mesma lógica competitiva de todas essas mercadorias.

Por isso, responder à crise da esquerda dizendo que ela precisa aprender a produzir memes melhores talvez seja não compreender a dimensão do problema. A esquerda historicamente dependeu de organização coletiva, formação, reflexão, consciência histórica, debate, solidariedade e projetos capazes de ultrapassar a experiência individual imediata. A comunicação fundada em personalidades, influenciadores, fragmentos virais e estímulos de poucos segundos dissolve precisamente essas condições. Não se trata, portanto, de perguntar como a esquerda pode competir melhor dentro do neoliberalismo. A questão é saber se ainda existe uma resposta de esquerda dentro dele.


E se não houver uma receita?

Estamos possivelmente no limiar de uma ruptura radical do velho sistema da democracia formal burguesa. Isso não significa necessariamente que amanhã deixarão de existir eleições, parlamentos ou tribunais. A ruptura pode ser mais profunda justamente porque preserva exteriormente essas instituições enquanto altera radicalmente as condições sociais em que elas funcionam.

Uma eleição continua sendo realizada. Os votos continuam sendo contados. Mas a formação da vontade política ocorre num universo cada vez mais privatizado, fragmentado, algoritmizado e mercantilizado. Nesse contexto, aderir integralmente à estrutura comunicacional que participou dessa transformação pode constituir o passo definitivo para a morte da própria esquerda.

Qual seria a alternativa? Não dispomos dela. E talvez seja um bom começo confessar isso. Desconfie-se de quem, diante de uma transformação histórica dessa magnitude, apresente cinco providências de marketing e anuncie ter descoberto a fórmula para salvar a democracia. Podemos, contudo, apontar três direções.

A primeira é uma reconexão com as estruturas físicas e tridimensionais da sociedade. Sindicatos, universidades, associações, bairros, centros culturais, movimentos, locais de trabalho, praças, clubes, centros acadêmicos e todas as formas possíveis de convivência precisam voltar a adquirir centralidade política. Pessoas precisam voltar a encontrar pessoas sem a intermediação permanente dos algoritmos. A política exige corpos presentes. Exige espaço. Exige convivência. Exige o desconforto de ouvir alguém que não pode ser eliminado com um clique.

A segunda é uma deliberada ampliação da profundidade argumentativa. Talvez seja necessário fazer precisamente o contrário daquilo que todos os manuais contemporâneos de comunicação recomendam. Em vez de reduzir cada vez mais, ampliar. Em vez de transformar tudo em slogan, explicar. Em vez de tentar conquistar quem possui dez segundos de atenção, contribuir para reconstruir a própria capacidade social de atenção. Recuperar o texto longo, a discussão difícil, a formação política, a memória histórica, a leitura e o direito de sustentar ideias que não podem ser resumidas numa legenda.

A terceira direção é uma desidentitarização da política. Isso não significa abandonar as lutas contra racismo, sexismo, colonialismo, homofobia ou qualquer forma de discriminação. Muito ao contrário: essas lutas são indispensáveis.Significa recusar sua fragmentação em mercados políticos identitários isolados, cada qual com seu vocabulário, seus porta-vozes, seus influenciadores, seus códigos e sua própria audiência. Uma esquerda incapaz de relacionar essas lutas à exploração do trabalho, à desigualdade econômica, ao acesso à terra, à moradia, à saúde, à educação e à destruição ambiental corre o risco de transformar a emancipação numa soma de segmentos incomunicáveis. As diferenças precisam encontrar-se novamente dentro de um projeto comum. Não para desaparecerem, mas para adquirirem força política. Talvez essas três direções sejam insuficientes. Certamente não constituem uma receita.

Mas há uma pergunta que não pode mais ser adiada: se, para sobreviver, a esquerda precisar falar exatamente como seus adversários, organizar-se como eles, disputar o mesmo mercado de atenção, produzir suas próprias celebridades digitais e transformar seus militantes em consumidores de conteúdo, o que exatamente terá sobrevivido?

Pode-se conservar o nome. Pode-se conservar a cor da bandeira. Pode-se até ganhar eleições. Mas, se para sobreviver a esquerda precisar tornar-se indistinguível daquilo que pretendia transformar, sua sobrevivência terá perdido qualquer sentido.

Guilherme José Purvin de Figueiredo, professor de Direito Ambiental e Procurador do Estado/SP Aposentado, é graduado em Direito e Letras pela USP, Doutor e Mestre, Pós-Doutorando junto à FFLCH-USP, desenvolvendo pesquisa no âmbito da Geografia, Literatura e Arte. Cumpre atualmente o mandato de presidente do Instituto Brasileiro de Advocacia Pública (gestão 2026-2028').


 

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