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“Uma luta permanente”: professores argentinos da USP descrevem o país de Milei e alertam o Brasil

há 13 horas
8 min de leitura

Realizado no Prédio de Letras da FFLCH-USP em 22 de outubro, um debate entre professores do Departamento de Letras Modernas ganhou importância histórica.

Três dias depois de sua realização, Flávio Bolsonaro, derrotado no segundo turno presidencial, fugiu do Brasil e seguiu para os Estados Unidos, passando pela Argentina. Informações divulgadas após a fuga apontaram apoio do governo de Javier Milei; já no exterior, Flávio agradeceu publicamente ao presidente argentino pelo apoio recebido, conforme noticiado pela Agência Brasil e pela Associated Press.

A mesa havia sido convocada antes da eleição de domingo, 25 de outubro. Na noite de quinta-feira, três professores argentinos da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo (FFLCH-USP) — Ana Cecilia Arias Olmos, Pablo Fernando Gasparini e Adrián Pablo Fanjul — reuniram-se no Prédio de Letras para relatar o que dois anos e meio de governo Javier Milei produziram na Argentina. O encontro começou às 18h.

Adrián Pablo Fanjul, Ana Cecília Arias Olmos e Pablo Fernando Gasparini. Foto: (c) Guilherme José Purvin de FIgueiredo. 22/10/2026.
Adrián Pablo Fanjul, Ana Cecília Arias Olmos e Pablo Fernando Gasparini. Foto: (c) Guilherme José Purvin de FIgueiredo. 22/10/2026.

Na abertura, a mediação justificou o tema: a Argentina vivia sob um programa político e ideológico que, segundo os organizadores, se aproximava do projeto então representado por Flávio Bolsonaro. A proposta era discutir as perdas sociais do modelo e as formas de resistência que ele vinha provocando.


A universidade nas ruas, pela quinta vez

Ana Cecilia Arias Olmos estruturou sua fala em torno de duas fotografias. A primeira mostrava a repressão policial, na semana anterior, a uma manifestação nacional em defesa da universidade pública. “Aí está tudo o que esta ultradireita odeia: a juventude, a liberdade, a defesa de ideais muito internalizados na sociedade argentina”, disse.

Segundo a professora, era a quinta grande marcha universitária em dois anos e meio, e a primeira reprimida pelo governo. Ela esteve em Buenos Aires na primeira, em abril de 2024, quando as universidades já não conseguiam pagar a energia elétrica e, na Patagônia, o gás da calefação.

Os números que apresentou dão a dimensão do corte. O orçamento universitário, de 0,72% do PIB até 2023, caiu para 0,47% sob Milei. Os salários de docentes e funcionários perderam cerca de 30% do poder aquisitivo, e 10.200 trabalhadores pediram demissão, segundo colegas argentinos com quem conversou.

A mobilização arrancou do Congresso uma lei de financiamento universitário, que ainda assim não repunha todas as perdas. O governo judicializou a lei, foi multado e, de acordo com Arias Olmos, segue sem cumpri-la. “Agem com total impunidade”, resumiu.

O que a deixa perplexa, disse, é que nada disso se traduziu nas urnas: Milei venceu com folga as eleições legislativas de meio de mandato, em 2025.


Soberania na arquibancada

A segunda foto, que também circulou pelo mundo, mostrava a seleção argentina com uma bandeira sobre a soberania nacional, após uma partida contra a Inglaterra. O contexto era uma iniciativa do governo para eliminar o limite legal de 15% do território que pode ser vendido a capital estrangeiro.

A bandeira, surgida da torcida, reacendeu a discussão sobre soberania e levou gente às ruas. O governo recuou e editou nova norma restabelecendo o teto de 15% nos níveis nacional, provincial e municipal — gesto que a professora chamou de “cara de pau”. Agora, contou, o ministro da Economia, Luis Caputo, estuda conceder nacionalidade argentina a estrangeiros que façam grandes investimentos, o que os habilitaria a comprar terras.

Arias Olmos concluiu que a resistência argentina se faz por reivindicações pontuais, sem uma via orgânica, diante de um governo que nenhuma instância institucional consegue limitar — e com parte da Justiça cúmplice. Disse temer quatro anos assim no Brasil, país que considera ainda mais atraente para a “voracidade estrangeira”: sem dívida com o FMI, com reservas e riquezas naturais não comprometidas.


A saúde dos aposentados e a lógica da motosserra

Pablo Fernando Gasparini começou pela própria mãe, aposentada e viúva. Lembrou que, no início do governo Milei, falou dela num ato diante do consulado argentino em São Paulo. Falar dela era falar do desmonte do PAMI, o programa de assistência médica integral que atende aposentados e pensionistas.

Ele explicou que o sistema de saúde argentino combina um sistema público geral, equivalente ao SUS, com as obras sociais dos sindicatos, nascidas de mútuos de trabalhadores. Ao se aposentar, o trabalhador deixa a obra social e passa ao PAMI. Na infância, mesmo em grande fragilidade material, Gasparini tratou um problema cardíaco nos melhores sanatórios privados de sua cidade graças a esse programa.

Segundo ele, a redução do financiamento veio por várias vias: o fim do imposto PAÍS, criado no governo anterior; o surto inflacionário do primeiro mês de governo, que corroeu os salários de médicos nunca devidamente reajustados; a saída desses profissionais; e o corte de pessoal administrativo. Hoje, relatou, os idosos nunca sabem se conseguirão consulta, o médico muda sempre e há limite para exames. “Nunca vão dizer: fechamos o sistema. O que fazem é desfinanciá-lo.”

O desemprego agrava o quadro, porque reduz as contribuições. Em Rosário, sua cidade, terceira do país e ligada a serviços, comércio e indústria, a taxa teria passado de 7% para mais de 11%. Ele citou ainda o corte de auxílios a pessoas com deficiência e identificou, ao fundo, uma ideia de início do século XX: “quem não produz não vale a pena que viva”.

Para Gasparini, a motosserra de Milei tem uma função precisa: pagar a dívida externa. Ele lembrou o empréstimo do FMI ao governo Macri, que estimou em US$ 50 bilhões, o maior já concedido pelo Fundo, e observou que Luis Caputo, integrante da equipe econômica de Macri, é hoje o ministro da Economia de Milei. O ajuste, disse, retira pesos das políticas públicas para comprar dólares e rolar a dívida, enquanto pequenas e médias empresas quebram e os setores privilegiados — agro, mineração e petróleo — geram poucos empregos.


Quem resiste, e quem representa

Gasparini traçou a sequência dos protestos: primeiro os aposentados, reprimidos sob um protocolo que proíbe ocupar as ruas; depois as pessoas com deficiência, os universitários, os endividados e, mais recentemente, os desempregados. Falta, a seu ver, uma representação política capaz de amalgamar essas demandas. O peronismo está dividido e a principal líder da oposição, Cristina Kirchner, está presa — “injustamente”, na opinião dele, apesar das divergências que declarou ter com ela.

O professor insistiu nas diferenças entre os dois países. O Brasil não tem dívida externa com o FMI; seu problema, disse, é a dívida interna e os juros altos, que alimentam a pressão por cortes de gastos. E o Brasil tem Lula, “um significante” capaz de reunir as demandas. “Importaria Lula por quatro anos para a Argentina.”

Se as economias são tão diferentes, perguntou, por que a receita é a mesma? Sua resposta foi geopolítica: a entrega de território aos Estados Unidos, que voltaram a se interessar pela região, como mostraria a ação militar norte-americana na Venezuela, que classificou de atroz. Sobre o bolsonarismo, arriscou uma leitura: seria a expressão de um conservadorismo histórico brasileiro, de valores coloniais — Deus acima de tudo, hierarquias étnico-raciais e de gênero.


Direitas com raízes diferentes

Adrián Pablo Fanjul, que pesquisa negacionismo e revisionismo sobre os passados ditatoriais dos dois países, partiu da coletânea As direitas na Argentina e no Brasil, organizada por Federico Rossi e José Szwako. Segundo os autores, a direita brasileira chegou ao poder antes da pandemia, após uma onda de protestos e o impeachment de Dilma Rousseff, ao fim de uma longa construção social.

No Brasil, essa construção teria duas raízes: os think tanks ultraliberais, editoras e blogs que, desde os anos 1980 e 1990, produziram narrativas de declínio nacional; e as igrejas evangélicas, com sua capilaridade. Fanjul acrescentou uma terceira: o peso de pessoas armadas, com estimativa de ao menos cinco milhões de eleitores ligados a serviços públicos ou privados que envolvem o uso de armas.

Na Argentina, ao contrário, a intelectualidade de direita sempre foi marginal, e o peronismo e o radicalismo bloquearam uma direita autônoma de base popular. Milei chegou pelo voto, “impulsionado pelo desespero” da hiperinflação, e seu partido, La Libertad Avanza, era uma aliança eleitoral sem base territorial. A direita argentina, resumiu, está sendo forjada a partir do Estado; a brasileira se fortaleceu na sociedade antes de chegar a ele.


A memória da ditadura

Outra diferença está no trato do passado. Na Argentina, o Nunca Más organizou a democracia desde 1983: segundo os dados citados por Fanjul, 71% dos argentinos têm visão negativa da ditadura e 70% apoiam a continuidade dos julgamentos. O máximo que o governo Milei arrisca, disse, é falar em “memória completa” — tema que ele analisou nos vídeos oficiais divulgados em todo dia 24 de março. Já o bolsonarismo celebrou explicitamente a ditadura brasileira.

As transições também foram distintas. No Brasil, a abertura nasceu das greves do ABC de 1978 a 1980, de onde vieram o PT e Lula. Na Argentina, a ditadura caiu rapidamente após a Guerra das Malvinas, e a primeira grande mobilização, em outubro de 1982, foi convocada pelas Mães da Praça de Maio.


Um otimismo argentino, uma preocupação brasileira

Apoiado numa passagem de Engels em Ludwig Feuerbach e o fim da filosofia clássica alemã, Fanjul defendeu olhar para a sociedade civil antes do Estado e dos partidos. E aí, disse, a Argentina mostra uma resistência muito mais ativa: fábricas ocupadas a cada fechamento, assembleias de bairro que reaparecem em ciclos, assembleias de pequenas cidades contra a mineração a céu aberto e quatro greves gerais contra Milei.

No Brasil, onde vive há 30 anos, ele viu uma única greve geral, a de 2017, contra a reforma trabalhista. Descreveu a sociedade brasileira como mais compartimentada. Por isso, declarou-se “um pouco mais otimista” em relação à Argentina e mais preocupado com o Brasil — apesar de ter um filho com dificuldade de emprego e o pai aposentado e doente no país vizinho.

Fanjul situou o quadro num contexto mundial “sem limites” e apontou a pandemia como acelerador. Lembrou que a Argentina terminou a pandemia com cerca de 130 mil mortos, proporção próxima à do Brasil, e que figuras do atual governo, entre elas o próprio Milei e a deputada Lilia Lemoine, ganharam notoriedade liderando atos antivacina e antidistanciamento. Citou um sociólogo argentino para quem a pandemia foi “o 17 de outubro da extrema direita”, em referência à data fundadora do peronismo, em 1945.


Discurso, cultura midiática e mobilização social

Nas intervenções finais, Adrián Pablo Fanjul destacou a contribuição da análise do discurso para compreender as estratégias de comunicação da extrema direita. Em vez de aceitar toda provocação como convite ao debate, defendeu examinar as condições de enunciação e evitar conferir legitimidade a falsas polêmicas. Retomou o episódio da bandeira sobre a soberania argentina exibida no estádio para mostrar como um gesto pode reorientar a discussão pública para o problema colonial das Malvinas, em lugar de reproduzir discursos de vitimização.

Pablo Fernando Gasparini chamou a atenção para uma proposta apresentada naquele mesmo dia na Congregação da faculdade: incorporar a cultura midiática à formação de professores. Considerou a iniciativa “formidável” e observou que a universidade precisa refletir sobre como ensinar a compreender as redes sociais, seus algoritmos e sua influência na disputa política.

Coube a Ana Cecilia Arias Olmos a última reflexão. Para ela, as redes sociais, além de espaço de circulação de mensagens, podem produzir vínculos capazes de ultrapassar as telas e se converter em ação coletiva. A campanha eleitoral, afirmou, “gerou comunidade”, reunindo pessoas que passaram a compartilhar conteúdos e a se mobilizar presencialmente. Ao recordar a manifestação prevista para a Avenida Paulista, insistiu na necessidade de participação política contínua: “Ganhe Lula, ganhe Bolsonaro, tem que estar nas ruas”.

A defesa da mobilização social, presente nas três exposições, encerrou assim o encontro, marcado pela preocupação com o avanço da extrema direita, mas também pelo reconhecimento de que a resistência democrática depende da capacidade de organização e participação da sociedade civil.


Reportagem de Guilherme José Purvin de Figueiredo.



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