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O elogio da adaptação

  • há 7 horas
  • 4 min de leitura

Uma leitura foucaultiana da resiliência


-FLÁVIA D'URSO-


Por Tarsila do Amaral - https://www.culturagenial.com/quadro-operarios-de-tarsila-do-amaral/, Conteúdo restrito, https://pt.wikipedia.org/w/index.php?curid=6441445
Por Tarsila do Amaral - https://www.culturagenial.com/quadro-operarios-de-tarsila-do-amaral/, Conteúdo restrito, https://pt.wikipedia.org/w/index.php?curid=6441445

Entre os inúmeros privilégios proporcionados pela escrita está o de participar de conversas que transcendem o tempo, as disciplinas e as experiências individuais. Recentemente, autores de ensaios e crônicas reunidos no IBAP - Instituto Brasileiro de Advocacia Pública - foram provocados a refletir sobre uma palavra que se tornou onipresente no vocabulário contemporâneo: resiliência.


Recebi o convite com particular entusiasmo, não apenas pela oportunidade de dividir com outros escritores e leitores minhas impressões sobre um dos termos mais repetidos de nossa época, mas também porque essa provocação remeteu imediatamente a reflexões filosóficas que me acompanham desde os estudos desenvolvidos durante o doutorado. Entre os autores que mais influenciaram minha forma de compreender as relações entre linguagem, poder e subjetividade está Michel Foucault. Talvez por isso, diante do desafio de pensar a resiliência, tenha me parecido natural recorrer ao seu instrumental teórico para examinar não apenas o significado da palavra, mas os efeitos que sua difusão produz na forma como compreendemos a nós mesmos e a sociedade.


Foi impossível, de início, não recordar a sátira de Ruy Castro sobre o tema. Com a ironia que lhe é característica, o cronista observou que, até poucos anos atrás, quase ninguém utilizava a palavra "resiliência" no cotidiano e que isso aparentemente não constituía qualquer problema. De repente, porém, o termo passou a ocupar todos os espaços:  de discursos empresariais, consultorias, palestras motivacionais, textos de autoajuda e até debates educacionais. Em tom jocoso, Castro chegou a sugerir a conjugação de um novo verbo — “eu resilo, tu resilas, ele resila” — expondo o que percebe como um modismo linguístico transformado em obrigação cultural. (FSP, 21/05/2026)


Sob a perspectiva de Michel Foucault, entretanto, a questão revela talvez um alcance ainda maior. Para o filósofo francês, as palavras não são meros instrumentos neutros de comunicação. Elas participam de regimes de verdade, ajudam a constituir subjetividades e integram mecanismos pelos quais o poder circula na sociedade. Quando determinado vocabulário se torna dominante, a pergunta relevante deixa de ser apenas o que ele significa. Importa compreender quem o produz, por quais instituições ele circula e que tipo de sujeito ele busca formar.


Nesse sentido, a ascensão da resiliência pode ser interpretada como um fenômeno característico das formas contemporâneas de governamentalidade. Foucault demonstrou que o poder moderno não se exerce apenas por meio da proibição ou da coerção direta. Ele atua orientando condutas, induzindo comportamentos e modelando formas de autocompreensão. Os indivíduos passam a governar a si próprios segundo normas socialmente difundidas e interiorizadas.


A resiliência parece ocupar precisamente esse lugar. Mais do que uma qualidade desejável, ela se converteu em uma exigência moral. Espera-se que o indivíduo seja resiliente diante da instabilidade econômica e política, resiliente diante da violência e da barbárie, resiliente diante das pressões profissionais, resiliente diante das perdas afetivas e resiliente diante do sofrimento psíquico.


O sujeito ideal já não é aquele que transforma as circunstâncias adversas, mas aquele que se adapta a elas com eficiência e serenidade.


Essa transformação não é trivial. Quando a resiliência se converte em valor supremo, ocorre um deslocamento significativo da atenção pública. Problemas coletivos tendem a ser reinterpretados como desafios individuais. Questões estruturais passam a ser tratadas como oportunidades de crescimento pessoal. Ao invés de se perguntar por que determinadas condições sociais produzem sofrimento, desigualdade ou insegurança, a grande questão é porque certos indivíduos não conseguem enfrentá-las adequadamente. A dificuldade deixa de estar nas circunstâncias e passa a residir no sujeito.


Essa lógica encontra notável afinidade e, aliás, é sobretudo constitutivo, com as análises que Foucault desenvolveu sobre o neoliberalismo em seus cursos no Collège de France. Ao examinar o surgimento do indivíduo concebido como empresário de si mesmo, o filósofo observou a expansão de uma racionalidade segundo a qual cada pessoa se torna responsável pela gestão de seus riscos, fracassos e vulnerabilidades. A resiliência encaixa-se perfeitamente nesse horizonte. Ela funciona como um atributo indispensável para quem deve administrar sozinho as incertezas produzidas por uma sociedade cada vez mais competitiva e individualizada.


É precisamente nesse ponto que a ironia de Ruy Castro ganha relevância crítica. Sua sátira não se limita ao excesso de uma palavra. Ela evidencia a transformação de um conceito específico em norma social difusa. Quando todos são convocados a ser resilientes, a própria ideia de resistência coletiva tende a perder espaço.


A adaptação converte-se em virtude, enquanto a contestação pode passar a ser percebida como incapacidade de lidar com a realidade.


A crítica foucaultiana não implica negar que seres humanos desenvolvam capacidade de enfrentar adversidades. Tampouco significa desprezar a importância psicológica da superação. O problema surge quando uma virtude legítima se transforma em imperativo universal e quando a linguagem da adaptação substitui a linguagem da transformação. Nesse momento, a palavra deixa de apenas descrever comportamentos e passa a prescrever modos de existência.


Nenhuma sociedade deveria depender exclusivamente da capacidade individual de suportar aquilo que poderia e deveria ser corrigido coletivamente.


Por que, afinal, a exigência do uso e a incorporação desta insidiosa resiliência?


É nesse ponto que a sátira de Ruy Castro e as reflexões de Foucault se encontram: ambas nos convidam a olhar para além das palavras e a investigar as formas de poder, os valores e as expectativas que elas silenciosamente transportam.



Flávia D'Urso é mestre em Direito Processual Penal e Doutora em Filosofia, na linha de pesquisa política, pela PUC/SP.  Foi procuradora do Estado e Defensora Pública. Dirigiu a Escola da Defensoria Pública de SP. Integra o Conselho Consultivo do IBAP. 



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