Revista PUB - Diálogos Interdisciplinares

  • Facebook B&W
  • Twitter B&W
  • Instagram B&W

O RETORNO A DIONÍSIO


-PAULO VELTEN-


Dionísio é um semideus de origem tebana, foi perseguido desde sua concepção por ser fruto de uma “aventura” de Zeus com uma humana. Ele é conhecido por lhe ser atribuída a origem do vinho, mas também por sua história incorporar os dramas nem sempre controláveis. É, sem dúvida uma das melhores personagens que arte grega pôde conceber. É uma figura desconcertante, não se comportava como os heróis que ficavam à meio caminho entre deuses e humanos, antes era vagabundo e sedentário.


Em As Bacantes de Eurípedes, Penteu, tirano de Tebas, é descrito como uma figura autoritária, um grande estraga prazeres que pretende acabar com os festas dionisíacas nas quais mulheres inebriadas abandonavam seus lares para segui-lo para dançarem. Dos primórdios gregos até atualmente os tiranos se caracterizam por não gostarem de mulheres livres e dançarinas.


Penteu determina então o encarceramento em massa das mulheres. Antes, porém, tomado por enorme curiosidade, decidiu travestir-se de mulher para assistir nas matas os cultos dionisíacos das bacantes. O tirano espião sobe em uma árvore para melhor observar quem age sem pudor.

Reconhecido, as mulheres se tornam tão enfurecidas que arrancam a árvore em que ele está e o atacando o reduzem a um corpo desmembrado.


Friederich Niezstche

Pois bem, Dionísio é o principal personagem na narrativa de Nietzsche, filósofo ao qual quero dedicar esse artigo, isso porque ele subverte a forma racional de ser com a qual estamos acostumados a lidar.


Inicialmente é importante dizer que Nietzsche foi um destruidor de mitos e sua obra não dever lida de maneira objetiva, útil ou linear. Ocorre que, suas especulações a respeito das “categorias do pensamento” podem ser muito uteis para a compreensão dos nebulosos fenômenos vividos atualmente.



Para definir as tais “categorias do pensamento” ele faz uso de alguns símbolos de linguagem, dentre os quais hoje destacaremos as três grandes metamorfoses. Assim, o espírito do homem pode se transformar no animal camelo (por vezes burro), o camelo em leão e o leão em criança.


O significado atribuído à primeira metamorfose, conforme Gilles Deleuze (1965, p. 9), é que “[...] o camelo simboliza o animal de carga que transporta para o deserto o peso dos valores estabelecidos, os fardos da educação da moral e da cultura”. Pode citar como exemplo dessa metamorfose a longevidade de tradições, costumes ou normas que atribuem preferência ao branco, macho, cristão e trabalhador. Nela, se avalia a vida de acordo com a capacidade de carregar pesos e fardos, aos quais Nietzsche chamava de “valores superiores”.


Os tais valores superiores são aqueles aos quais os homens voluntariamente se impõem a si mesmos, assim que se livram dos dogmas impostos pela religião após a “morte de Deus”.


A crença e a submissão a tais valores é uma forma negativa (reativa) de exercer o pensamento, sempre a partir do “ressentimento” (sentir novamente) que se dá por contágio, por contaminação. Importante dessa observação que é que não há algo racional, argumentativo ou lógico que a faça expandir, antes, é como um rizoma que se espalha, inconscientemente.


"Os homens superiores querem substituir a Deus, levam consigo os valores humanos julgam mesmo encontrar a Realidade, recuperar o sentido da afirmação."

Para o referido filósofo, a religiosidade e a filosofia grega possibilitaram a estrutura do pensamento negativo e, com a Reforma Protestante, o homem descobre-se como assassino de Deus. Quer assumir-se como tal e carregar esse novo peso, imposto pelo “que (quis) morrer”. O Cristo crucificado, vitimado é a negação da vida, o ápice niilismo. A consequência dessa morte seria tornar-se o próprio Deus. Um fetiche que talvez possa ser atualizado pela figura do super-homem, tão comuns atualmente. No dizer de Nietzsche (DELEUZE, 1965, p. 27) é assim:


"Os homens superiores querem substituir a Deus, levam consigo os valores humanos julgam mesmo encontrar a Realidade, recuperar o sentido da afirmação. Mas a única afirmação de que são capazes é apenas o sim do burro. A morte de Deus é um acontecimento, mas que ainda espera o seu sentido e o seu valor. Enquanto não mudarmos de princípio de avaliação, enquanto substituirmos os velhos valores por novos, apenas assinalando novas contribuições entre as forças reativas e a vontade do nada, nada mudou, continuaremos sob o reino dos valores estabelecidos."

Esse homem superior é uma crítica na qual ele se propõe denunciar a mistificação mais profunda ou perigosa do humanismo. O homem superior é humano eticamente perfeito, uma caricatura que pretende assumir o lugar de Deus e se firmar como tal. O exercício de um heroísmo às avessas por personagens políticos contemporâneos chamam atenção nesse sentido.


A segunda metamorfose ocorre quando o camelo se transforma em leão, na medida em que, pela crítica, dilacera os valores estabelecidos e antes transportados pelo camelo. E nesse momento que os mitos caem, afinal o leão dilacera pela crítica os valores e mitos antigos.

É o que faz em "Humano demasiadamente humano”, escrito 1878, “[...] ele é o Leão que eleva o tom da crítica aos valores superiores, às forças preexistentes, à filosofia, submissa, à razão, à verdade”. Aquilo que chama de “[...] degenerescência da filosofia socrática que, ao inventar a metafísica, faz da vida qualquer coisa que deve ser medida, limitada, julgada” (DELEUZE, 1965, p. 23) pelos tais valores superiores.


Na última transformação do espírito humano, é necessário o retorno às tragédias gregas e a Dionísio. Esse retorno se caracteriza como símbolo oposto ao do camelo. Ele é leve, é dançarino, é a afirmação do Ser, é a possibilidade de vida, de transmutação de negatividade em afirmação. É ir além do homem herói, contrário ao homem superior.

É uma criança que nasce num “eterno retorno” ao começo livre de valores pretensamente superiores faz superar a vida niilista (onde se nega a vida, onde Deus está morto, a vontade adormecida e o sujeito incapaz de agir).


Eu quis trazer as categorias de pensamento nietzschianas como uma reflexão para aqueles que, como eu, se encontram-se perplexos com o peso das cargas impostas e de saco cheio com os super-homens atuais, para quem sabe, incentivar um retorno às tragédias gregas e ao espírito dionisíaco.

Paulo Velten escreve todo dia 09 de cada mês. É professor de Direito - UFES


76 visualizações2 comentários