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Onze de Agosto sem Arouca

  • há 2 dias
  • 2 min de leitura

Sándor José Ney Rezende — advogado, doutor em Direito do Trabalho pela USP, professor, pesquisador da liberdade sindical e tradutor.


Hoje, pra mim, é um XI de Agosto diferente. Primeiro que alguém teve a ideia de adiantar o ponto facultativo pra segunda-feira, então estou tendo que trabalhar. Eu poderia sair um pouquinho, ir abraçar os amigos e voltar, mas este dia onze tem um sabor diferente este ano, um sabor de saudade. Durante muitos anos, ia chegando o mês de agosto e eu recebia uma ligação do Arouca: "E aí, companheiro, você vai almoçar com aqueles velhos chatos?" Eu sempre respondia que sim, não sou bobo nem nada, conviver e conversar com esse cara era algo que eu não rejeitava nunca. Diante de todas as manifestações que ouvi e li nesses últimos dias, desde que ele nos deixou, eu fiquei meio sem ação. É tanta admiração, vinda de tantos lados, por tantos motivos, que eu, simplesmente, não tenho muito a acrescentar.


O Arouca era uma dessas pessoas que marcam a vida das pessoas que o conheceram. Mudou profundamente a minha, para melhor e para sempre. Pessoa de trato fácil, bem-humorado, simples, sem pose alguma, fosse falando de acontecimentos gerais, fosse falando de Direito, ou de música, sua outra paixão. Um raciocínio ágil, uma forma direta de explorar as questões, um conhecimento enciclopédico e muito, muito atualizado.


Uma vez, era 2004, época de Olimpíadas, estamos indo almoçar no restaurante ao lado do Tribunal, e eu falei para ele, provocando:


"Você viu? Os garçons vão entrar em greve".


Ele disse:


"Não vão não, já resolveu".


E eu disse:


"Estou falando dos garçons de Atenas", e ele, sem titubear:


"Também não, já teve acordo lá também".


Era incrível. E a lhaneza, o cavalheirismo... Uma vez fui buscá-lo no API para levá-lo à casa dele. Essas caronas, que eu dava sempre, serviam para colocar em dia os assuntos. Dessa vez fui com uma amiga, que deu a ele a preferência de ir no banco da frente do carro. Pois ele não se conformou, se revoltou, e eu só pude começar a viagem quando ele trocou de lugar com a moça e foi para o banco de trás. E assim foi sempre. Ele fazia a gente se sentir como se fôssemos iguais a ele, soubéssemos tudo o que ele sabia, estávamos sempre de igual para igual (o que não era nem um pouco verdade, ele sabia muito mais). E a produção? Como escrevia, como palestrava, era uma força da natureza.


Agora serão as lembranças: os óculos, a pastinha cheia de papeis, as notícias recortadas a estilete, a voz poderosa. E não era só no Direito: escrevia contos, novelas, letras de música. E se saía bem em tudo. Homem dos sete instrumentos. Mas tudo tem de findar. Arouca combateu o bom combate sempre, até o final, enfrentando os incômodos da doença:


“Eu fico perdendo tempo ali naquela clínica, resolvi ler Grande Sertão: Veredas . Agora é A Guerra do Fim do Mundo, do Vargas Llosa".


Era assim, não parava. E agora chega, porque ele também não gostava muito dessa coisa rasgar seda. Vá em paz, companheiro!

 
 
 

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