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TRÊS RETRATOS DA VIDA

há 1 dia
5 min de leitura

-Bernardo Lins-


By Mic from Reading - Berkshire, United Kingdom - Manhattan, New York - USA, CC BY 2.0, https://commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=49196702
By Mic from Reading - Berkshire, United Kingdom - Manhattan, New York - USA, CC BY 2.0, https://commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=49196702

 


Hassan


Na década de noventa recebi uma bolsa para fazer um curso na George Washington University. Me instalaram em um apartamento no bairro de Crystal City, próximo de um shopping de luxo na capital norte-americana, o Pentagon Mall.


A um quarteirão do prédio havia uma estação de metrô, que eu usava diariamente para ir à universidade. Mas, quando me atrasava, era obrigado a pegar um táxi. Havia um ponto em uma esquina próxima e os motoristas eram todos paquistaneses. Costumava preencher o tempo de translado puxando uma conversa, o que nem sempre dava certo. Mas Hassan era culto e conversador.


Perguntou-me de onde eu vinha. Brasil, respondi. Um minuto de silencio.


Brasil é um país horrível, não é?


Fiquei espantado. Não é não, repliquei. Que ideia.


Hassan explicou-se. Viera para os Estados Unidos alguns anos antes, ainda solteiro. Logo que chegou, procurou uma comunidade paquistanesa em Washington que lhe haviam indicado. Foi recebido por seus conterrâneos, conseguiu o emprego de taxista e organizou sua vida. Casou-se com uma jovem da sua terra, teve filhos. O colégio local é bilíngue e a mesquita é uma boa referência religiosa. Vive dignamente, embora com modéstia, incute nos filhos o amor e estima pelos EUA, o país que o acolheu. As pessoas comuns que usam seu taxi não lhe têm apreço, mas o respeitam. Usa seu turbante, cuida bem do seu cabelo, ninguém o incomoda.


Já o meu primo Omar, coitado, resolveu migrar para o Brasil, murmurou Hassan com tristeza.


Chegou no Rio de Janeiro com a família, alugou um apartamentozinho de subúrbio e logo conseguiu um emprego em uma loja. Muito sorriso, tapinha nas costas, paquerada das meninas, mas uma dor de cabeça atrás da outra. No primeiro dia, já implicaram com o turbante, fizeram piada fingindo que era carnaval, os novos amigos davam um passinho de samba e uma risadinha cada vez que passavam por ele.


Um trauma. Nós não usamos turbante como enfeite, observou Hassan. É uma referência religiosa. E, na minha vertente, o uso do cabelo comprido é uma prática cultural, exigindo o turbante para o penteado ficar arrumado. Meu primo acabou se rendendo, cortou o cabelo e abandonou o turbante. Sacrificou seu modo de vida, virou um carioca meio torto.


Mas suas agruras não pararam por ali. No Rio de Janeiro ele não achou um colégio bilíngue ou uma comunidade praticante das suas tradições. O casal de filhos foi estudar em uma escola pública da zona norte. Meus sobrinhos, reclamou, agora falam apenas o português, estão esquecendo a língua natal. O rapazinho logo arrumou uma namorada bonitinha e anda aos amassos pelos cantos, em total desacerto com a dignidade do corpo e do espírito. E a mocinha é agora uma ordinária (me perdoe a grosseria), vai à praia de biquíni e canga!


Omar, naquela semana, telefonara desesperado. Queria voltar ao Paquistão. Volta sozinho, informou a esposa. Eu daqui não saio mais e as crianças ficam comigo.

 

Khaled


Conheci Khaled tomando seu taxi alguns dias depois, acompanhado de duas colegas de curso. Eliane, uma morena alta, começou a puxar uma conversa do banco de trás. O taxista engatou um papo animado e descobrimos que era mais um primo de Hassan. Viera uns três anos depois.


Estou bem adaptado, comentou. Disse que não morava na comunidade, havia alugado uma pequena casa em uma localidade próxima e engatara um namoro firme com uma jovem da vizinhança. Americana, muito bonita e animada, destacou.


Apaixonado? Sim, perdidamente. Quando vai casar? Nunca. No dia em que decidir me casar, afirmou, voltarei à minha cidade natal e me unirei à mulher que minha mãe indicar. E a namorada, bem, a história com ela irá terminar ali. Ela sabe disso? Claro que não, sou franco, mas não sou bobo. Quero ser feliz hoje, e hoje estou com ela.


Khaled fizera um curso superior em engenharia. Era um bom calculista e tinha razoável potencial se houvesse um mercado para ele. Nos EUA, porém, seu diploma e nada eram a mesma coisa. Se pretendesse voltar à profissão, teria que repetir o caminho, praticamente do zero. E, resignado, reconheceu que o dinheiro que ganhava no taxi era umas quatro ou cinco vezes o que ganharia com qualquer emprego de classe média na terra natal. Talvez com a exceção dos advogados, riu, esses ganham bem em todo lado.


Eliane, perplexa, observou que a namorada poderia estar jogando o tempo dela no lixo, se soubesse que seria trocada. Khaled contemporizou. Era carinhoso e respeitoso. Tinha boa pinta e investia na malhação para fazer bela figura ao lado dela. E quanto ao futuro, não sabemos o que o destino nos reserva.

 

Aleksandr


Russo, economista, consultor de um organismo multilateral, Aleksandr foi convidado a nos dar um minicurso de mercado financeiro. Foi um dos ciclos que menos aproveitei, porque conheço pouquíssimo de papéis e de finanças. Mas as aulas eram bem estruturadas e me ajudaram a tomar decisões razoavelmente inteligentes nos anos seguintes.


Cercamos o professor em um intervalo de aula para pedir explicações sobre as regras do futebol americano. Ele imigrara aos Estados Unidos com a esperança de ser jogador. Integrou o time da faculdade, mas mostrou-se bom estudante, aplicado, e obteve seu doutorado com relativa tranquilidade, algo incomum em um país tão competitivo.


Os americanos são engraçados, observou. Acham que raciocinamos o tempo todo usando dialética marxista. Não faz sentido nenhum. A Rússia pôs o primeiro homem e a primeira mulher em órbita e, até hoje, nossos foguetes são considerados os mais confiáveis. Não se faz isso com raciocínio e conversa. Somos ótimos matemáticos e ótimos engenheiros. Ninguém dava nada por mim, mas passei a turma toda para trás.


Perguntei se havia uma comunidade russa. Não a frequento, respondeu, sou gay e saí da Rússia para me afastar do preconceito e viver minha vida. Meu companheiro é americano, é bem sucedido e levamos uma vida discreta e caseira. Nem a comunidade gay eu frequento. Isso de desfilar em parada todo enfeitado não é para nós. Temos uma carreira e nos damos ao respeito.

 

Capitais de países são cidades razoavelmente cosmopolitas. Há gente do mundo todo, restaurantes de todo tipo, arte em profusão, valores e estilos de vida que se mesclam e hibridizam. E os imigrantes enfrentam desafios maiores do que os moradores locais para estudar, engatar uma profissão e organizar seu dia-a-dia. Os paladinos da resiliência como qualidade gostam dessas histórias de pessoas que “superaram todos os obstáculos” e foram capazes de “alcançar o sucesso apesar do mar agitado”.


Quando ouvimos suas histórias em primeira mão, o retrato é inteiramente diferente. São pessoas comuns vivendo vidas comuns, com dificuldades maiores ou menores do que as de outros. Tomam decisões prosaicas, algumas com grande dose de coragem, para sobreviver, para superar um impasse, para avançar no rumo vislumbrado ou no caminho possível.


Trinta anos se passaram. Tenho, confesso, uma vaga curiosidade de saber o que foi dessas pessoas, mas trata-se de uma tarefa próxima do irrealizável. E não me ensinaria nada. Hoje estão todos idosos. O fim da vida é sempre melancólico, o que se fez está feito, a felicidade depende de situações muito simples, que alcançamos por sorte, bons hábitos ou boa índole.


Encontrá-los, naquele momento, ensinou-me algo. Com Hassan, aprendi que nossa autoimagem de brasileiros cordiais traz um preço, o de forçar os demais a aceitar nossos valores e adequar-se a nosso modo de vida. Acabamos por impor, com uma crueldade graciosa e suave, nosso jeito de ser, em um exemplo de firme controle social. Com Khaled, descobri que os costumes podem ser contornados e que podemos preservar, em nosso íntimo, convicções bem sedimentadas, administrando o tempo para assumi-las, ao preço de uma dose de egoísmo. Com Aleksandr, compreendi o mérito da boa formação e os prêmios de risco reservados àqueles que se aventuram em uma grande mudança para ficar em paz consigo mesmos.


São três registros da vida que todos vivemos.


 

Bernardo Lins é doutor em economia pela UnB e consultor legislativo aposentado da Câmara dos Deputados e associado do IBAP. Escreve todo o dia 16.



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