De tão ruim, é bom!
-BERNARDO LINS-
Os toca-discos de antigamente (claro que são de antigamente, hoje disco é “cult” e os toca-discos são aparelhos algo incongruentes) tinham uma durabilidade variável. Em casa, o titular dessas eletrolas, esse era o nome de então, era eu, E cuidava desses encantadores dispositivos com o amor que mereciam.
No entanto, com o tempo as engrenagens gastavam e começava aquele ir e vir do técnico para consertar aqui e ali o aparelho. Na terceira ida à loja de reparos, ficava evidente que era mais em conta comprar outro. E foi assim que minha mãe me levou à Casa Garson, em Copacabana, para escolher uma vitrola, olha aí outro nome saído do baú, daquelas portáteis, com o alto-falante montado na tampa.

Escolhemos um modelo da Philips, com um revestimento em napa marrom clara, e para testar a qualidade do áudio o vendedor trouxe um disco de uma banda brasileira chamada Bango. Minha mãe levou um susto com a capa pavorosa, que combinava um pássaro grandão desenhado a bico-de-pena com os rostos descarnados e ensanguentados dos membros do conjunto. O som do toca-discos era ótimo, dentro do que se poderia esperar de um aparelho portátil de baixo preço. Já a banda era algo incrível, com músicas que variavam de um rock pesado meio estranho a canções melosas e forró. Confesso que adorei, do alto dos meus treze anos, e fiz questão de comprar o LP, que estava em promoção e foi dado de graça pelo vendedor. Para extremo desagrado de minha mãe, passei o resto da semana escutando aquele traste por horas a fio, embevecido.
Décadas depois, meu amigo Fernando Magalhães, que sabe tudo de rock, morria de inveja desse disco, um dos raros que nunca estiveram em sua vasta coleção. Depois de umas investigações, conseguiu o CD bootleg, produzido por um selo alemão obscuro, também uma raridade.
A história do Bango ilustra como o mercado musical funcionava na época. As gravadoras controlavam a produção e os direitos autorais dos artistas sob contrato com mão de ferro. Faziam acordos rigorosos com emissoras de rádio e tevê para divulgar suas músicas, inclusive com a distribuição de propina a radialistas e disc-jockeys, prática então conhecida como jabá. Produção independente significava optar por uma presença pouco expressiva no mercado fonográfico e viver apenas à custa do circuito de shows e apresentações, com o risco comercial que isso envolvia (e envolve até hoje).
Na década de 1970 o mercado fonográfico brasileiro viveu sua maior expansão. Era dominado por grandes gravadoras estrangeiras (Polygram, RCA, CBS e EMI-Odeon), que combinavam a distribuição de produções estrangeiras com as de artistas brasileiros com potencial de uma carreira internacional. O exemplo mais destacado era o de Roberto Carlos, um ídolo latino-americano já naquela época, mas os músicos ligados à bossa nova e ao samba-canção tinham também respeitabilidade no mercado americano e eram bem vistos.
Curiosamente, o enorme potencial da música sertaneja e caipira foi ignorado por esses selos internacionais e, embora seus artistas de maior destaque enchessem estádios pelo interior do país durante as festas rurais, eram representados por gravadoras nacionais, como Continental e Copacabana. Estas formavam, com a Som Livre, pertencente à Rede Globo, a segunda linha de produtoras profissionais com boa infraestrutura de estúdios e com agentes preparados para administrar a carreira de seus artistas exclusivos. Gravadoras menores, como a Musidisc e a Elenco no Rio de Janeiro e a RGE em São Paulo, ocupavam nichos de mercado.
Os estúdios mantinham sob contrato, também, um plantel de músicos de apoio para a realização de gravações de seus grandes nomes. É aí que entra a banda Bango. Seus cinco componentes, entre os quais se destacariam mais adiante o vocalista e guitarrista Aramis de Barros e o baterista Max Pierre, seguindo carreiras de engenheiros de estúdio, produtores e executivos da Musidisc, da Continental e da Som Livre, haviam formado em 1965, ainda adolescentes, a banda Os Canibais, que tocava covers de sucessos internacionais em festas e eventos. Eram também músicos de estúdio bastante requisitados e aproveitaram esses contatos para gravar e lançar alguns compactos e um par de discos LP.
Bango representou a tentativa deles de promover uma mudança de perfil, com músicas próprias e um som pesado. Gravaram então esse único disco, que foi um completo fracasso comercial e decretou a extinção da banda logo após o parto. Esse era o disco que eu amava e ouvia à exaustão. Exaustão da minha mãe, coitada.
Ela estava certa. O disco é péssimo. As letras são simplórias e abusam da rima pobre. Particularmente deliciosas são as estrofes da balada Geninha, uma música de melodia pegajosa:
Quando você diz pra mim
Que é minha,
Seu doce nome repito: Geninha
Eu gosto tanto de ser
Sempre ser seu
Não há ninguém mais feliz do que eu.
Minha Geninha,
Eu quero sempre amar.
Minha Geninha,
O nome e o amor
Vou cantar.
O que dizer dessa obra prima? Arrasadora.
No entanto, há méritos. Voltei a ouvir o disco por esses dias. Maltratada pelos anos e pelo número de agulhadas que os sulcos enfrentaram, a qualidade do áudio esmoreceu. O delicioso chiado do vinil trouxe um ar de nostalgia. Mas as pérolas algo escondidas passaram a sobressair junto aos meus ouvidos idosos. Os músicos eram competentes, os arranjos incluíam riffs de guitarra bem postos e o uso de distorções na medida certa. A gravação é equilibrada e o posicionamento dos instrumentos no estéreo é bem resolvido. Em suma, os caras eram profissionais.
Além do estilo meio dispersivo, característica aceitável em um disco de estreia, merece ser apontada uma marca do rock da época, a falta de reflexão sobre a repressão que estávamos vivendo nos tempos de ditadura e os dramas sociais de boa parte da população. A turma da MPB e do samba assumiu o ônus de liderar a resistência e a crítica, tão necessárias e tão arriscadas, ao que acontecia nas ruas. Ressalvadas as honrosas exceções, o rock brasileiro destilado pelas gravadoras só alcançaria essa qualidade de música engajada uma década mais adiante, com a influência punk. Bango exemplificava esse distanciamento lisérgico em relação aos traumas que marcavam nossa cultura naquele momento. Sob o esforço aparentemente sério dos músicos, transparece essa omissão.
Mas, aos treze anos de idade, essa música falava ao meu coração, aos desacertos do início da adolescência. A arte por vezes dá as costas ao mundo e fala de nós mesmos. Quando é medíocre, ainda assim nos envolve. Às vezes, como certas novelas de televisão, de tão ruim chega a ser boa.
Bernardo Lins é doutor em economia pela UnB e consultor legislativo aposentado da Câmara dos Deputados e associado do IBAP. Escreve todo o dia 16.




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