top of page

IA e emprego: muitas perguntas, nenhuma certeza

  • há 10 horas
  • 6 min de leitura

-BERNARDO LINS-




Tecnologia é uma bênção para muitos, um pesadelo para outros. Quantos de nós já fomos beneficiados com os avanços das últimas décadas? Um amigo meu, Fernando Magalhães, um grande conhecedor de rock, me dizia que teria vocação para viver na era vitoriana, fantasiado com aqueles ternos pesadões e echarpes de seda gorduchas em volta do pescoço. Mas parava para pensar e ressalvava: desde que houvesse antibiótico e anestesia de dentista. 


Tenho saudades de máquina de escrever, de câmera fotográfica, de LP, de gravador, de caneta tinteiro e, confesso, ainda uso tudo isso. Mas a praticidade de andar com esses recursos em um celular, no bolso da calça, é impagável. E a inteligência artificial facilita uma porção de aplicações dessas geringonças. Há uns dias precisei mandar uma imagem dessas 3x4 a um conhecido. Tirei a selfie, entrei no ChatGPT e, com cinco comandos, corrigi a luz, o penteado, a posição dos ombros e o fundo. Pronto, a foto ficou mais bonita do que eu mesmo. O próprio aplicativo enviou a seguinte mensagem: “A imagem final ficou melhor e as correções, comando a comando, foram bem orientadas. Nós estamos de parabéns”. Como assim, nós?


As pessoas não são bobas, percebem que a IA facilita inúmeras tarefas e, por isso mesmo, substitui muitos serviços que hoje são prestados por outras pessoas. Adeus, loja de fotografia. O temor de que fiquemos desocupados, substituídos por softwares, é mais tangível do que nunca. A computação, as redes sociais e o smartphone já estão matando jornais, revistas, televisão aberta, caixas de banco, cinemas, salas de aula, lojinhas de presentes, técnicos de contabilidade, secretários e secretárias, agentes de viagens. A lista cresce diariamente. Quando chegará nossa vez de enfrentar o pelotão de fuzilamento da tecnologia?


Há alguns dias, com essas dúvidas na pauta, a CNN Brasil entrevistou um economista laureado, Christopher Pissarides, que recebeu o Nobel de economia de 2010 por seus estudos sobre o mercado de trabalho. Um scholar meio tímido, que se expressa com simplicidade, Pissarides dedica-se hoje a estudar o futuro do emprego. Estudos de futuro são sempre complexos e algo incertos, mas as recomendações dele durante a entrevista foram simples e objetivas.


Há meio século, o mercado de trabalho era visto pelos economistas como um mercado de compra e venda de tempo. A empresa quer o máximo de tempo do trabalhador, mas sabe que a partir de uma certa sobrecarga a produtividade e a segurança do trabalho caem. E o trabalhador quer o máximo de remuneração, mas o tempo que ele dedica ao trabalho não poderá ser alocado aos seus interesses pessoais, sejam estes umas férias, uns estudos ou simplesmente a convivência familiar. Ambos os lados calibram a negociação para chegar a um salário tolerável e a uma dedicação possível. Sabemos que na vida real as coisas são diferentes, a conversa do patrão com o operário é o diálogo da guilhotina com o pescoço, ensinava o saudoso jornalista Carlos Chagas em seus comentários da extinta TV Manchete. Mas esse era o raciocínio de quem estudava trabalho e emprego. 


Tratava-se de uma construção que resultava em paradoxos afastados do real. O trabalhador, por exemplo, gostaria de trabalhar cada vez mais e ganhar cada vez mais, mas até um certo ponto, após o qual o dinheiro disponível seria tanto e o tempo para si seria tão pequeno que seu interesse se inverteria, ele começaria a querer aproveitar o tempo livre com mais afinco. Seria um executivo gazeteiro, bem ao contrário do comportamento obsessivo que vemos constantemente. 


Pissarides e alguns de seus colegas perceberam que o dilema do mercado de trabalho estava em outro lugar. Dentro da lógica ortodoxa, empresas maximizam lucro e trabalhadores desejam renda para consumir. No entanto, não existe livre negociação de emprego, o mercado de trabalho é cheio de amarras. No jargão econômico, de fricções. Com um pouco de esforço poderíamos listar um bom número delas. E todos já enfrentamos essas fricções na nossa vida profissional. Quando escolhemos o que será nosso caminho profissional, aos 16 ou 17 anos de idade, fechamos inúmeras portas. Você queria ser profissional liberal? Engenheira, advogada, médica, artista? Ou quem sabe comerciante? Ou militar? Talvez um religioso? Seguir carreira técnica? Ao optarmos por um caminho de estudo e adestramento, abandonamos inúmeras possibilidades alternativas. Uma aposta e tanto.


As empresas precisam procurar-nos, para oferecer um posto de trabalho às pessoas com perfil mais adequado. Isso representa um custo de divulgar, selecionar, entrevistar, treinar. E os profissionais precisam rastrear essas oportunidades. Não é apenas casar a especificação da oferta de emprego, o “job description”, com sua formação. Muitas vezes é mudar de cidade, trabalhar em horários alternativos, investir longas horas em estudos adicionais, aceitar um salário mais baixo pela aposta de avançar na carreira, competir em uma seleção. A vida não é fácil. Fricções.


Há períodos em que ser contratado é um processo rápido. Com a economia aquecida e pleno emprego, quem levanta o dedo é logo localizado e recebe uma oferta. Para as empresas, é desfavorável. Os salários aumentam, os candidatos são exigentes e a escolha é menos flexível. Na recessão, ao contrário, quem sofre é o candidato. Tem que aceitar o que vier e esforçar-se para ser produtivo, mesmo com demanda baixa e salário achatado. Desemprego não é uma boa opção: além de não ter renda, o candidato entra na seleção em desvantagem. O empregador irá regatear. Vale o ditado, o melhor jeito de chegar ao emprego bom é ralar no emprego ruim. 


Esse jogo de busca de oportunidades e de encaixe entre a oferta do emprego e a aceitação do candidato é o que interessava ao nosso Pissarides. E casa muito bem com os dias atuais. A organização sindical está desmontada (a do trabalhador, a patronal é só festa) e as plataformas criaram formas muito eficazes de contato e alocação de colaboradores, sem contrato, sem garantias, sem proteção. A negociação é direta, quase um escambo de suar a camisa com receber uma paga. É o dia-a-dia dos uberizados, dos MEI, dos empreendedores.


Não chega a ser uma novidade. O que a tecnologia faz rápido, fazíamos antigamente, só que mais devagar. Lembro-me da busca de emprego no poste, de uma década atrás, antes da pandemia COVID-19. No centro de São Paulo, em uma rua que à época era movimentada por passantes, camelôs, desocupados e uns eventuais batedores de carteiras, havia um poste que todos os dias amanhecia cheio de bilhetes com ofertas de emprego. Os transeuntes davam uma parada e perguntavam ao dono do poste se havia uma oferta assim, assim. Ele fuçava no poste, puxava a papeleta certa e lá ia o interessado pegar uma condução e se oferecer ao empregador. O encaixe de vaga com candidato estava feito.


Eram, em geral, empregos que hoje já não existem. O que fazer? Qual a política pública para este momento? Pissarides é um pouco pessimista. Não adianta lutar para preservar o emprego, afirma, a tecnologia é inexorável. Vai atropelar, Dar incentivos para fixar o posto de trabalho, algo que já fizemos com pouco sucesso, é jogar dinheiro no ralo. A empresa vai pegar, vai segurar o trabalhador um tempinho e vai trair o governo logo depois, simplesmente porque está perdendo dinheiro. O caminho, diz o economista, é proteger a pessoa, não o posto de trabalho. Sua recomendação é esticar o prazo de programas de renda mínima e de seguro desemprego, combinados com ciclos de treinamento e recolocação. As pessoas precisam estar preparadas para um ambiente em transformação. Investimento pessoal alavancado com estímulo público parece ser a aposta mais acertada.


Se olharmos a economia como um todo, no seu agregado, essa troca de trabalho por capital, que está implícita na adoção da IA e de seus acompanhantes, robótica, big data, manipulação gráfica, redes e por aí vai, é um caminho para uma concentração de renda ainda mais radical. Está aí Elon Musk, o primeiro dono de um trilhão, que não me deixa mentir. No entanto, esse pessoal do andar de cima terá que usar sua renda de algum jeito, criando novas demandas e abrindo novos mercados. Empregos surgirão e o dinheiro irá circular em cascata, azeitando a economia. Um segundo desafio para o governo será o de garantir as condições para que isto ocorra no mercado interno. Caso contrário, vamos gerar empregos na casa dos outros. 


É um desafio e tanto. Falhar nos abrirá um panorama espinhoso. Lembremos das palavras de Victor Frankenstein: “Os incidentes da vida mudam mais devagar do que os sentimentos do homem. Trabalhei duramente por quase dois anos com o único propósito de infundir a vida em um corpo inanimado. Privei-me de saúde e repouso. Desejei tão ardentemente essa utopia que deixei a moderação pelo caminho e, agora que alcancei meu objetivo, a beleza do sonho se esvaiu e o desgosto enche meu coração... Acordei de um pesadelo e contemplo a criatura desprezível — o monstro miserável que eu criei”. Sentiremos o mesmo com a IA?


Depende. Tecnologia não é neutra, sempre há os que ganham e os que perdem com a sua adoção. Quem encontra o lado certo e domina os efeitos colaterais que inevitavelmente irão surgir percorre o caminho do futuro.  



Bernardo Lins é doutor em economia pela UnB e consultor legislativo aposentado da Câmara dos Deputados e associado do IBAP. Escreve todo o dia 16.



Comentários


Revista PUB - Diálogos Interdisciplinares

  • Facebook B&W
  • Twitter B&W
  • Instagram B&W
bottom of page