Midnight in Paris: anglo-americanos reverenciados e hispânicos caricaturados
- Guilherme José Purvin de Figueiredo
- 24 de jul. de 2025
- 4 min de leitura
-Guilherme Purvin-

Tive a alegria de ouvir na primeira fila a apresentação do violonista Stéphane Wrembel no porão do Sunset-Sunside, na Rue des Lombards 60, há alguns dias. Wrembel é conhecido, dentre outras, pela composição Bistro Fada, que fez para o filme Midnight in Paris, de Woody Allen. Aliás, Wrembel também compôs Big Brother, para o filme Vicky Cristina Barcelona, do mesmo cineasta. Foram três horas de interpretação virtuosística de jazz manouche ao melhor estilo Django Reinhardt, além de outras experiências mais contemporâneas — uma delas, aliás, que com alguma adaptação eletrônica, poderia até parecer uma composição de Syd Barret: Voyager, que ele dedicou a Carl Sagan. Wrembel, aliás, afirmou que o filme 2001 – Uma Odisseia no Espaço, de Stanley Kubrick, é, em sua opinião, o melhor filme da história do cinema. Estou propenso a concordar com ele — se não for o melhor, certamente é um dos cinco melhores. A apresentação foi dividida em três partes, necessárias nem que fosse por motivos médicos, para esticar as pernas nos assentos daquele famoso clube de jazz parisiense. Entre uma música e outra, Wrembel compartilhava com o público de cerca de 100 pessoas que abarrotavam o espaço as ideias que o nortearam quando das criações. Por exemplo, de Prometheus, que rendeu uma instigante aula sobre o mito grego e o livro Frankenstein, de Mary Shelley — que leva o subtítulo O Prometeu Moderno.
De volta para casa, com a música de Wrembel soando ainda no Spotify, intercalada com Sidney Bechet, autor e intérprete de Si tu vois ma mère, colocamos no aparelho de DVD o filme Midnight in Paris, belíssima fantasia de Woody Allen sobre Paris dos anos 1920. Apenas uma coisa causou certo incômodo: a assimetria no modo como Allen trata as figuras históricas de origem anglo americana (Gertrude Stein, Ernest Hemingway e F. Scott Fitzgerald) e os artistas de origem hispânica ligados ao surrealismo (Salvador Dalí e Luis Buñuel). Enquanto os primeiros são reverenciados, os demais parecem ser intencionalmente reduzidos a personagens paródicos.
Gertrude Stein é apresentada como mentora intelectual, equilibrada e generosa, uma figura de autoridade estética — no que, aliás, Allen parece acompanhar o pensamento de Hemingway, ao menos nas primeiras linhas de suas memórias A moveable feast (Paris é uma festa) que tratam dos tempos em que viveu na capital francesa, de 1921 a 1926. O próprio Hemingway é retratado de modo heroico, viril, tendo Allen procurado reproduzir a sua forma de escrever na fala do personagem. Scott Fitzgerald, por fim, é sensível e romântico, e seu drama com Zelda é tratado com empatia. Ou seja, todos os personagens anglo-americanos são inseridos na narrativa como fontes de valor intelectual e afetivo.
Num caricato contraste, Dalí é mostrado como uma figura ridícula, obcecado com a imagem de um rinoceronte e reduzido a um bordão que empobrece drasticamente o importante diálogo entre surrealismo e psicanálise — justamente Allen, que é um notório diretor psicanalisado da história do cinema. A graça que Allen fez com Buñuel, por exemplo, é de um humor duvidoso: o protagonista Gil “sopra” a sinopse de O Anjo Exterminador para o genial diretor espanhol, mas este se mostra um indivíduo incapaz de compreender a ideia de seu futuro filme, repetindo a pergunta: “Mas por que eles não saem da casa?”. Isso para não falar de Man Ray, que se limita a repetir que tudo é surreal, como se não tivesse pensamento crítico.
A hierarquização simbólica entre representantes da cultura anglo-americana e demais artistas e intelectuais enfraquece um pouco a homenagem de Allen a Paris. Ele valoriza os modernistas como representantes da inteligência e da criação consciente, enquanto trata os surrealistas como folclóricos e inofensivos excêntricos. Essa assimetria revela preferência à tradição literária anglo-saxônica e racionalista e certo desprezo à contribuição espanhola para as artes no Século XX. Não se salva nem mesmo Pablo Picasso, retratado como um garanhão ridículo.
Midnight in Paris celebra a nostalgia e a arte, mas o faz de modo seletivo, apagando a complexidade dos surrealistas e reduzindo-os a elementos decorativos no palco da modernidade mitificada. Isto poderia soar como um exagero, mas ao rever Vicky Cristina Barcelona, mais uma vez com o pretexto de ouvir Stéphane Wrembel (Big Brother), não posso deixar de notar que a hilária exuberância de Maria Elena, interpretada magistralmente por Penélope Cruz (e que lhe rendeu o Oscar de melhor atriz coadjuvante), em contraste com o comportamento “civilizado” de Vicky (Rebecca Hall) e de Cristina (Scarlett Johansson), revela muito sobre os preconceitos de Allen acerca dos hispânicos.
Nesse contexto, resta etnicamente íntegro o violão acústico de Wrembel, que também é o instrumento utilizado nos flamencos espanhóis, no samba brasileiro e na folk music estadunidense.
Guilherme José Purvin de Figueiredo, professor de Direito Ambiental e Procurador do Estado/SP Aposentado, é graduado em Direito e Letras pela USP, Doutor e Mestre, Pós-Doutorando junto à FFLCH-USP, desenvolvendo pesquisa no âmbito da Geografia, Literatura e Arte. Membro do IBAP.
Midnight in Paris: Anglo-americanos reverenciados e hispânicos caricaturados © 2025 by Guilherme Purvin is licensed under CC BY-NC-ND 4.0










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