RESILIÊNCIA SERVIA PARA O MEU RÁDIO AMADOR. PARA MIM DISPENSO, OBRIGADO
- há 1 dia
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-SEBASTIÃO STAUT-
A convite do amigo, Guilherme Purvin, que lançou num grupo de zap o desafio de escrevermos acerca do termo RESILIÊNCIA , aceitei o repto, que não se afigura nada fácil, uma vez que renomados colegas e colunistas desta Revista Pub também o fizeram antes de mim.
Dito isto, passo a dizer o que penso desse termo, há algumas décadas quase esquecido, em desuso, porém hoje onipresente, com um viés de palavra elogiosa, indispensável em qualquer palestra de coaching, a ornamentar vários textos de autoajuda e motivação, no mais das vezes de duvidosa qualidade.
Na juventude fui rádio amador e, como sou jovem já há bastante tempo, foi na época em que as comunicações, inclusive as interpessoais, eram muito difíceis e caras. Nem pensar em internet, celulares, aplicativos de mensagens ou redes sociais. O que se tinha então de mais evoluído e acessível era o bom e velho telefone. Sim, o telefone de mesa, o de parede, o orelhão, qualquer desses tipos que permitiam à gente se comunicar à distância, embora com inúmeras limitações, notadamente no caso de ligações interurbanas e tanto mais ainda na hipótese de chamadas internacionais. Nem a tecnologia então existente, nem os custos tarifários envolvidos, incentivavam muito o uso desse modelo de comunicação no longo trecho. Se não fosse coisa urgente e rápida, voltava-se mais ainda no tempo para utilizar a carta, o correio, muito mais barato e popular.
Nessa conjuntura, ter um rádio e ser um rádio amador era uma aventura deliciosa. Com o equipamento, se podia conversar por horas e horas com pessoas de toda a parte do mundo, sem pagamento de tarifas e sem limitações de tempo. O ambiente do rádio amador favorecia encontrar muitos amigos e amigas (embora o ambiente fosse predominantemente masculino), aprender bastante e, também era possível, ensinar algo da cultura local e ensaiar idiomas estrangeiros. Era de fato muito gratificante por ser ainda uma forma de sair-se um pouco das amarras impostas pela ditadura militar que então tristemente vigorava.
E por falar em ditadura, ela também impunha severas limitações à importação de aparelhos eletrônicos, peças, e até mesmo sua utilização para efeito de comunicação social. Era um quadro em que quase todo rádio amador tinha de ser também um técnico em eletrônica, pois era quase impossível comprar um rádio novo. Foram tempos em que se exigia alguma disposição para a clandestinidade e um tanto de habilidade para encontrar insumos de reposição para reparo de comunicadores.

Foi assim que, na região da Santa Efigênia, Á procura de resistores, transistores, diodos, placas e quejandas que conheci o tão hypado termo: RESILIÊNCIA.
Resiliência, muito antes das redes sociais (ou antissociais, como queiram) e influencers descobrirem a palavra, significava para mim apenas a capacidade de um determinado elemento eletro-eletrônico, de uma determinada peça, de resistir a pressões extraordinárias às quais poderia ser submetida. O fator de resiliência significava a capacidade desses componentes físicos de suportar e se recuperar em face de distúrbios mecânicos, térmicos e elétricos, sem perder suas características originais. Agregava muita qualidade ao produto, atestando sua durabilidade e confiabilidade.
Passado um bocado de tempo, creio que alguém, se achando muito brilhante e, condicionado a uma ideia “liberal e de mercado”, resolveu aplicar esse conceito às pessoas. Sob a ótica corporativa, pessoa resiliente será aquela que aceite aguda submissão ao estresse, resistindo a tudo heroicamente para depois retomar seu estado original. Trocando em miúdos, aquela figura que apanha da vida sem reclamar, sem protestar, que suporta toda a carga que lhe é imposta e que, no outro dia, já está lá, igualzinha, disposta a passar por tudo de novo.
A grosso modo, e guardadas as largas e devidas proporções, ser resiliente seria algo parecido com ser estoico. Porém, como nossos coachs e influencers certamente desconhecem por completo a doutrina de Zenão de Cítio, devem achar que descobriram a roda ao cunhar um novo significado para a velha resiliência dos materiais.
Resiliência, na visão mercadológica hoje tão difundida, é qualidade que não contempla plasticidade, metamorfose, resistência, reorganização ou contestação, características esperadas de um ser pensante quando submetido a pressões externas excepcionais. O que o pensamento corporativo aprecia como resiliência é, mais propriamente, uma resignação operante, alguém que suporte pressões e cargas exaustivas sem oposição, sem mudança, sempre pronto para mais uma jornada estressante.
Valorizam nas pessoas o que nem os muares de carga aceitam. Os burros de carga teimam, empacam, mordem e recusam-se ao sofrimento, dentro de seus limites. Se não forem cercados, vão embora, abandonam o jugo. Os burros são resistentes, mas não são resilientes.
Admirável qualidade essa deles. Diferentemente dos carneiros, não encaram com docilidade aos que querem lhes impor dor e angústia. Resistem, protestam, zurram e mordem.
Não sei se sou burro, espero que não. Mas estou com eles ao menos numa coisa: resiliente, eu? Não, obrigado.
Sebastião Vilela Staut Júnior é advogado, Procurador do Estado de São Paulo aposentado, associado do IBAP e contista/cronista acidental. Publica sua coluna mensalmente dia 26.




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