Revista PUB - Diálogos Interdisciplinares

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Parar de chover desde os primeiros erros

-GUILHERME PURVIŅŠ-

Até há algumas décadas era humanamente impossível alguém enxergar-se em toda a sua espacialidade. É falha, ou melhor, é falsa a perspectiva tridimensional, pois se a monovisão reduz a impressão volumétrica, isso não significa que dois globos oculares em perfeitas condições e lado a lado reconstituam o espaço à nossa frente. Não se trata apenas de desvio de paralaxe, mas também de adaptação de uma visão de ponta-cabeça processada em razão da nossa sensação de gravidade. Em outras palavras, aprendemos ou convencionamos chamar de "de pé" a toda posição na qual o lado mais próximo do solo (ou seja, do centro de atração gravitacional) seja o lado inferior.

Recentemente, o uso de drones (pequenos helicópteros sob controle remoto) com câmeras portáteis popularizou-se. Através dessa inovação tecnológica, passou a ser possível ver as imagens de Aleppo (EuroNews). São imagens bidimensionais que vemos através da tela de nosso computador ou de nosso smartphone. Não podemos tocar nos escombros, não podemos sentir o cheiro do pó ou dos possíveis corpos em decomposição. Ainda assim, podemos apreender em nossas mentes um pouco do que vem a ser a espacialidade de um lugar destruído pelas guerras e pela intolerância política, econômica e ou religiosa.


Seria uma excentricidade apanharmos um drone com câmera acoplada para vermos nosso próprio corpo de uma altura de trinta metros - de frente, de lado, de costas. E, ainda que assim o fizéssemos, teríamos forçosamente de nos submeter a uma situação laboratorial, observadores (sujeitos) e observados (objeto), paradoxo que possivelmente nos reduziria à paralisia e à inação.


Roland Barthes, em seu livro A Câmara Clara - Notas sobre a Fotografia (Editora Nova Fronteira), procurando compreender o significado de uma fotografia, afirma ser ela inclassificável, porque não há qualquer razão para marcar tal ou qual das ocorrências na imensa desordem dos objetos do mundo. Mas a cinematografia (e aqui chamo a atenção ao prefixo grego kinema/athos, movimento) nada mais é do que uma sucessão de imagens estáticas a qual transmite a sensação visual de movimento em razão de um (d)efeito da luz na retina. Sucessão de Imagens, cumpre ressaltar, também marcadas de forma não racional - os drones não estão numa quinta dimensão mais abrangente e, portanto, nos entretêm a voo de pássaro - perversa e literalmente!


O horror diante das imagens capturadas pelo drone da EuroNews em Aleppo é uma gotícula de veneno num tanque de água: seu efeito não é a morte do observador pelo choque das bombas ou pela contaminação biológica, é uma imunização homeopática. Segue-se o mesmo princípio desta modalidade de medicina: veneno em pequenas doses para a cura espiritual. Somos vigiados hoje por todas as espécies de drones - alguns reais, outros metafóricos: microfones, câmeras, GPS que carregamos em nossos celulares, opções que fazemos sem cessar nas compras em supermercados e farmácias, cartões de crédito deixando o rastro de nosso dia a dia pela cidade, pelo país e pelo mundo, livros digitais que lemos, tempo de leitura de páginas na internet. No entanto, não somos nossos próprios vigias. Não sabemos o que somos, o que estamos sendo neste exato momento. Mesmo que tenhamos diante de nós todos esses dados colhidos pelo grande irmão, elas não passarão de imagens fotografadas. E, como diz Susan Sontag, "imagens fotografadas não parecem manifestações a respeito do mundo, mas sim pedaços dele, miniaturas da realidade que qualquer um pode fazer ou adquirir" (Sobre a fotografia - Ensaios - Companhia das Letras).


Alepo antes e depois da guerra

A pessoa que atirou a primeira bomba em Aleppo não dispunha de uma câmera capturando as imagens de cada gesto seu e as transmitindo para o mundo - muito embora fosse possível, em tese, postar selfies e v-logs na rede. De qualquer forma, diferentemente do piloto do Enola Gay, as responsabilidades pela destruição de uma cidade síria que já fora considerada a mais bela do mundo no início do Século XX foram pulverizadas, alcançando-se assim o que Ulrich Beck denomina de irresponsabilidade organizada. A aferição de uma democracia não se dá por fotos nem por câmeras de vídeo. Impossível retratar visualmente conceitos políticos que só se constroem a partir da soma de cada gesto de respeito e tolerância para com o próximo. Podemos, no máximo, vislumbrar metaforicamente o que é estado de direito, o que são direitos humanos, o que é uma ordem jurídica justa e respeito ao devido processo legal - e, mesmo assim, apenas pelo negativo do filme: uma criança passando fome, um inocente preso ou executado sumariamente por policiais na rua, uma mulher espancada dentro de casa. Como poderíamos, então aferir a nossa parcela de responsabilidade ante dos resultados a que chegamos no esfacelamento da democracia e do estado de direito no Brasil? Não deixamos a marca de nossos passos no chão. Retomando a metáfora da homeopatia, se eventualmente nossas pegadas fossem levadas a público - como vêm sendo algumas delas levadas pelo site The Intercept Brasil - o risco é de que a selvageria viesse simplesmente a ser banalizada, transformada num anestésico para suportarmos os tempos sombrios desta provável última etapa de concentração do capital e de extinção do estado de bem estar social e de democracia. Como na velha canção de Kiko Zambianchi, é inútil nos angustiarmos com a impossibilidade de fazermos cessar o tempo e corrigir todos os erros cometidos ao longo dos quase trinta anos de história de nossa democracia burguesa pois só chove, chove, chove, chove.


PS: A contraface deste artigo é "O paciente zero"

GUILHERME PURVIŅŠ é formado em Letras e Direito pela USP. É escritor e professor de Direito Ambiental.




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