Crônicas da Trivialidade

- CELSO AUGUSTO COCCARO FILHO -


MELANCOLIA


A subida era íngreme, mas um lugar alto favoreceria a visão.


A cidade maquiava a topografia. Aquilo era uma montanha, que começava no alagadiço onde corria o córrego das pacas.


Nessas caminhadas imaginava a cidade sendo esfolada, a partir de uma fissura qualquer, de um sorvedouro, estirando a capa de piche e de concreto, revelando a terra vermelha ou ocre, estéril, devastada.


Para chegar ao ponto mais alto, passou pelo lugar onde um dia existiu uma casa, a sua casa, na qual viveu a sua infância. Nada mais restava, nem da casa geminada vizinha, e nem da outra mais acima. As três deram lugar a um prédio, grande, branco, neoclássico. Sobrara apenas o ângulo no passeio, um sulco no lado esquerdo da divisória mais baixa do prédio, que era o mesmo que percorria para entrar e sair de sua casa, com os pais, com os cachorros, os carros, a bicicleta, e nada mais existia, nenhum deles, a não ser aquele ângulo, familiar e docemente afetivo.


Iludia-se em busca da vista favorecida. Costumava se debruçar horas na janela triangular do sótão daquela casa, enlevado com o horizonte aberto, que se estendia pelo norte e oeste da cidade. O Pico do Jaraguá era desafiado apenas pela torre vazada dos Dominicanos, num plano mais próximo.


A torre dominicana já mal se consegue ver, esconde-se entre os prédios, como um humilde besouro mimetizado, e o Pico, este já nem se percebe, nem se sabe se existe.

O que agora lhe interessava não estava no horizonte. Vinha de cima, e se dirigia para baixo, para simplificar as complexas explicações daquela rota de colisão planetária.


O cinza escuro das nuvens, que se moviam vagarosamente, prenunciava uma chuva, só uma chuva, e não dava para ver nada no céu. Resolveu voltar.


Esperava mais daquele momento. Já era adulto quando se aproximava o segundo milênio, e se lembrava do vaticínio da avó “do ano mil passou, do dois mil não passará”. Uma senhora pequena, doce, culta, não era carola e nem perdia tempo com padres, mas gostava de repetir a frase, com a voz propositadamente enrouquecida e com o queixo levemente empinado.


A juventude escondia um certo medo, mas o ano dois mil passou, apesar de Nostradamus, apesar da avó, num anticlímax reconfortante.


Poucas pessoas circulavam, era manhã de domingo.


Passou pela padaria. Um cachorro atado na entrada fez uma pequena festa. Outro ao lado mantinha a coleira na tensão máxima, as pernas esticadas, o focinho ultrapassava a linha imaginária entre o passeio e o acesso ao interior da padaria. Acompanhava os movimentos da dona, o rabo num balançar frenético.


Chegou ao seu prédio. O porteiro estava firme no seu posto. Um astro chamado Melancolia não se fazia levar a sério. Com Marte seria diferente.


- O Senhor viu a Estrela de Belém?


Enfim, alguém tocava no assunto.


- Não vi. Muito nublado. Estrela de Belém?


- Estava bonita no céu ontem à noite, grande, redonda. Veio para o renascimento.


Seguiu pela escada. Ficar preso no elevador no meio do cataclisma só era pior que encontrar algum vizinho para trocar amenidades. Como vai? Parece que vai chover ... E você viu que Melancolia vai destruir a Terra?


Momento especial para ouvir Wagner. O Götterdämmerung. Descer o braço da agulha sobre o círculo negro em rotação. Trágico. Simbólico.


Mas que nada. O aplicativo não baixou a música porque estava sem sinal. Campo gravitacional do Melancolia? Parece que não, a vizinha está na janela ouvindo uns vídeos barulhentos.


Uma carta desliza sob a porta e patina pela pedra lisa da cozinha.


Abre o envelope: o plano de saúde teve aumento de vinte por cento, apesar dos esforços ingentes da operadora para impedi-lo de superar o valor da sua aposentadoria.


Melancolia não foi desviado do seu curso.


“A banalidade da hecatombe”, foi a frase existencialista que lhe veio, mas que, é claro, não é um pensamento original.



METAMORFOSE


Em algum lugarejo no Estado do Paraná, lá pelos lados de Curitiba, uma família de imigrantes tchecos se reúne.


- E então? – perguntou o Senhor Zdenek.


- Bem... respondeu a criada, que não era tcheca, rindo-se a ponto de não poder falar. Bem, não precisam mais se preocupar em livrar-se daquilo. – Eu já resolvi tudo, não sobrou nada, nem um pinguinho de gordura no chão.


A criada pendurou seu avental, alisou os cabelos, puxou a extremidade do seu curto vestido para baixo, rebolou ligeiramente e se foi, deixando na sala de estar o Senhor Zdenek, sua esposa Lenka e Jana, filha de ambos.


- Ai, será que agimos direito? Estou com tanto medo... disse a Senhora Lenka, fitando o chão com a testa franzida.


- Mas é claro, minha querida Lenka, respondeu Zdnek, com voz firme, quase se erguendo do assento. – Como iríamos explicar para a polícia que Gregor se transformou numa cafta? Seríamos presos! A justiça daqui não é muito aberta a explicações. Melhor dar queixa do sumiço.


- É... seria um inquérito kafkiano... ponderou Jana, moça esperta que sabia até a fórmula da água.


Ficaram os três em silêncio, Lenka e Zdnek com os olhos marejados, recordando da infância de Gregor, que nenhum sinal, nem sintoma, levaria a supor que aquela transformação um dia ocorreria. Gregor chegou a parecer uma almondega quando bebê, o que era comum, porém.


- E genética não deve ser, asseverou Zdnek, olhando de soslaio para Lenka.


- Ai, ai, criamos os dois do mesmo jeito, e aí está a Jana em carne e osso, e Gregor, só em carne... choramingava Lenka.


Para Jana, aquilo teria mesmo que ser escondido da polícia, mas um dia ela escreveria sobre a desventura do irmão: “Quando Gregor despertou, certa manhã, de um sonho agitado viu que se transformara numa espécie alongada de quibe...”



MORTE DE MARAT


Pai e filha, num momento precioso para ambos.


Na semana passada fora “O Fuzilamento de Três de Maio”, de Goya. Agora debatiam “A Morte de Marat”, de David.


História e arte, imagens fortes estimulando a curiosidade juvenil.


- Na banheira... e com um golpe só?


- Segundo o laudo dos peritos, se ela tivesse feito um movimento longitudinal, em vez de transversal, como foi, não o teria matado.


- Ela?!


- Sim, uma moça chamada Charlote Corday, sozinha, veio de outra cidade, na Normandia, comprou a faca em Paris, insistiu na visita ao Marat e enfim conseguiu entrar na sua casa e matá-lo.


- Uma mulher mudou a história da Revolução!


- Nem tanto, e o mérito aqui é relativo, foi um ato contrarrevolucionário. Ela foi executada como traidora e redimida na restauração da monarquia.


- Não, pai, não é isso. Uma mulher, sozinha, fez uma escolha moral e praticou um ato político e não um crime passional. O significado é enorme, não vê?


- Sim, filha, você tem razão... disse o pai com uma satisfação incontida.


Contaria um dia, que um tal Cesare Lombroso afirmou que o crânio examinado da Corday seria rico em anomalias, que era platicéfalo, com jugular proeminente, peso superior à média e saliência temporal acentuada, ou seja, como o crânio de um homem.

Atingir a plenitude existencial nunca foi fácil para as mulheres, mas esta filha, certamente, não se contentaria em vestir cor-de-rosa...

Celso Augusto Coccaro Filho escreve todo dia 30 de cada mês na Revista Pub - Diálogos Interdisciplinares. É escritos e procurador do município de São Paulo, além de sócio fundador do IBAP.


0 visualização

Revista PUB - Diálogos Interdisciplinares

  • Facebook B&W
  • Twitter B&W
  • Instagram B&W