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AUTODIDATISMO, COESÃO GRUPAL E A ILUSÃO DO EMPODERAMENTO

há 20 horas
5 min de leitura

-Ricardo Antonio Lucas Camargo-


Por Sindicato Professionales Bellas Artes, U.G.T. - https://www.reddit.com/r/PropagandaPosters/comments/11qsid/el_general%C3%ADsimo_spanish_civil_war_poster_from_the/, Domínio público, https://commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=56907928
Por Sindicato Professionales Bellas Artes, U.G.T. - https://www.reddit.com/r/PropagandaPosters/comments/11qsid/el_general%C3%ADsimo_spanish_civil_war_poster_from_the/, Domínio público, https://commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=56907928

Vamos aprofundar, agora, alguns desdobramentos do parágrafo introdutório de meu texto “Autodidatismo e autoengano”: "Muitas vezes, a elogiável disposição para ler e aprender conduz à acumulação desordenada de informações, que passam a se desconectar em pontos em que existe efetiva conexão e a se conectar onde são desconexas".


Por vezes o avanço em direção aos pontos que poderiam conectar adequadamente os elementos aparentemente isolados pode deparar-se com o obstáculo de atingir ou um dogma ou um ponto sensível para determinados grupos, ligado, normalmente, a um trauma passado. É um momento de nec plus ultra. Este, paradoxalmente, também pode manifestar-se – o nec plus ultra – quando a identificação da ausência de conexão entre elementos que aparentemente poderiam ter algo entre si destrói uma ligação que traduziria um viés de confirmação.


Tanto movimentos messiânicos, de vocação mística, quanto de adeptos de pseudociências, mas também movimentos que nascem a partir de experiências reais de opressão e que traduziriam, em tese, manifestação de consciência de classe, são muito marcados por essas distorções, e ao mesmo tempo podem conduzir à trágica conclusão de que o saber somente é disciplinado na medida que assegure as hierarquias sociais.  E isto, independentemente de a ideia de hierarquia ser muito forte em muitos desses movimentos.


O próprio juízo de relevância e pertinência de um ponto em relação a outro, em circunstâncias como estas que estamos dissecando agora, torna-se menos informado por elementos objetivos e mais informados por elementos subjetivos, referentes às conclusões a que se quer chegar, e em muitos casos determinadas pelos elementos de coesão entre os integrantes dos grupos sociais que se tenha sob consideração.


Até mesmo a discussão em termos de epistemologia crítica, em especial quando se tenham em consideração os grupos que nascem a partir de circunstâncias opressivas concretas, acaba enfrentando como barreira a questão da boca que enceta esta discussão, e com justificadas desconfianças, a bem de ver, diante dos sujeitos que historicamente não somente foram opressores como também se beneficiaram das opressões. Mencionemos alguns exemplos significativos.

 

Um grupo ligado ao movimento negro, por exemplo, questionaria esta discussão se feita por um branco, utilizando as ferramentas epistemológicas "brancas", por desconfiar que elas foram construídas para legitimar os privilégios da branquitude, ao movimento feminista, questionaria se feita por um homem, porque as categorias cognitivas empregadas estariam sob a suspeita de conduzirem à supremacia masculina, e assim por diante. 


A separação entre o que seria, efetivamente, construído com o viés de reforçar estereótipos e legitimar hierarquias artificiais e o que seria apto a iluminar os pontos menos visíveis mostra-se mais dificultada, precisamente por isto. Os enunciados, os gestos, os sinais, as imagens, todos os modos por que as ideias se dão a conhecer, enfim, precisam ser interpretados segundo categorias familiares aos receptores, e nem sempre o respectivo significado é por si mesmo evidente. Frequentemente, podem ter mais de um significado, e todos os cuidados do emissor são poucos no sentido de o mais ofensivo deles não ser precisamente aquele que vai ser lido.


Mesmo a noção de polissemia passa a ser vista por esses grupos, em especial, como um simples expediente maroto voltado a destruir a identificação do inimigo, enquanto elemento de aglutinação dos interesses que o formam, sem distinguir quando está, realmente, presente a tentativa covarde de fuga diante da pronta e legítima reação à afronta. A complexificação, normalmente, é vista como um expediente de fragilização dos sitiados pelos grupos dominantes, ou pelos grupos adversos, o que não é exatamente a mesma coisa. No limite, a resposta que Fouquier-Tinville, como porta-voz do povo que sofrera sob os Bourbons, deu a Lavoisier quando este, já condenado à guilhotina como servidor do Antigo Regime, pediu que lhe fosse permitido, pelo menos, terminar uma pesquisa que vinha conduzindo desde antes da Revolução – “a República não tem necessidade de sábios” – não deixa de exprimir esse tipo de leitura.


Por isto que mesmo nestes grupos que nascem a partir da consciência de opressões concretas, o solo se fertiliza com tanta facilidade seja para derivações messiânicas, seja para derivações místicas, seja para o prestígio de pseudociências, até mesmo podendo surgir, dentre estas, algumas com feição original: a imunidade à crítica, a conversão de qualquer discurso que não homologue seus integrantes como uma perpetuação da opressão originária, a impossibilidade de interpretar qualquer comunicação fora do sentido que assegure a coesão do grupo, tudo isso vulnerabiliza-o precisamente a esses frutos da acumulação desordenada de conhecimentos.


Somente quando um integrante desses grupos que seja disposto a trocar ideias e tenha já dado provas cabais e repetidas de fidelidade e engajamento (e veja-se que eles sempre estão sob vigilância interna nesses meios, a exigência de prova é constante e nunca é suficiente) é que se coloca em debate se é o todo da epistemologia que é um mero instrumento de justificar dominação ou se há partes dela que inclusive auxiliam a compreender melhor os termos do problema, ou até mesmo se há um problema real. Porque aí, será uma boca legitimada que, contudo, ainda correrá o risco de deslegitimar-se, quando há disputas internas de poder e prestígio, a despeito da comunhão de situação de sofrimento. Por outras palavras: esta vulnerabilidade somente pode ser vencida se for mediada por aquela boca a que tenha o grupo reconhecido legitimidade, e não tenha sido estigmatizada, por um número significativo de seus representantes, como um trânsfuga.


O mais interessante em tudo isto é que os grupos que defendem a existência de hierarquias na humanidade, os que realmente perpetram as opressões e lhes dão base ideológica, não são sequer afetados pela movimentação combativa de quantos pretendem que todas as ferramentas epistemológicas adotadas no âmbito universitário não passam de “estritos instrumentos ideológicos de afirmação da branquitude eurocêntrica, machista e heteronomativa”. Muito nos recordam as trocas de tiros entre os que, na Espanha, foram defender a República enquanto as tropas de Hitler e Mussolini, ofertando inclusive reforço aéreo, ajudavam Franco a ganhar a Guerra Civil. Aliás, os franquistas, ao que se saiba, não estavam preocupados com quem dentre os que estavam engajados na causa republicana era o mais progressista, mas sim com acabar com a República na Espanha, instalando uma ditadura de caráter teocrático – Franco proclamava-se campeão da Igreja contra o avanço vermelho –, que não foi vista como um inimigo pelo chamado “Mundo Livre” nem durante a II Guerra Mundial.


Não deixa, em realidade, a ideia do autobastar-se em termos de conhecimento, seja na posição individual, seja na condição de integrante de um grupo cujo cimento se dá pelas percepções geradas de modo autorreferente, de gerar àquele que a adota a sensação de “empoderamento”, de independência em face de forças exteriores: é, entretanto, o mais perigoso dos engodos fragilizadores.



Ricardo Antonio Lucas Camargo - Professor da Faculdade de Direito da Universidade Federal do Rio Grande do Sul e Professor Visitante da Università degli Studi di Firenze – Integrante do Centro de Pesquisa JusGov, junto à Faculdade de Direito da Universidade do Minho, Braga, Portugal – Doutor em Direito pela Universidade Federal de Minas Gerais – Ex-Presidente do Instituto Brasileiro de Advocacia Pública (2016-2018) – Membro do Instituto dos Advogados do Rio Grande do Sul - Procurador do Estado do Rio Grande do Sul - email: ricardocamargo3@hotmail.com . ORCID: https://orcid.org/0000-0002-7489-3054 Escreve todo dia 01.



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