E o sol brilhou novamente

-FREDERICO ARZOLLA-
Havia muito temor. O temor embasado pela experiência de um Bolsonaro a frente da presidência da república. Temor pela desesperança, de ver conquistas e direitos virem abaixo em terríveis e inacabáveis quatro anos.
Por que há tanto anseio e vontade de destruição? Há sentimentos de ódio que movem tudo isso. Há recalques. Há comportamentos supremacistas, eugenistas. Há a arrogância de se considerar melhor que os outros. E há o egoísmo de não pensar no outro. É uma ebulição que entorpece a visão e o discernimento e assim criam-se modos de ação beligerantes e destrutivos.
Em plena consciência, dificilmente alguém reverenciaria um sujeito que ao se referir a quilombolas utiliza o termo arroba, que é usado para animais de criação; que diz a uma deputada que ela não merece nem ser estuprada e que reverencia e homenageia reconhecidos torturadores do regime militar como o Major Ustra.
E ainda, diante de todas as suas falas na pandemia, ignorando e ridicularizando o sofrimento alheio, negando auxílio, presteza e agilidade para o seu combate quando tinha o poder máximo do país em suas mãos. Segundo o médico infectologista Pedro Hallal, em depoimento à CPI da Pandemia no Senado Federal, cerca de 400 mil mortes poderiam ter sido evitadas (ver documentário “Anatomia do Caos” de Dandara Ferreira).
Candidatos assim, não surgem de um dia para o outro. São fabricados. Para os que se sentem donos do país, não precisa ser ninguém especial, basta ser alguém dominável e que atenda os interesses. E assim, fizeram mais uma vez, já tinham feito com Fernando Collor. Sempre surgem como antissistema, como combatentes da corrupção, mas escondem o setor do capital por trás de suas candidaturas, aqueles ávidos para se apossar dos setores públicos, aniquilando-os, engolindo-os, transformando-os em privado, cujo único projeto para o país é destruir, privatizar, retirar direitos, retroceder.
Os mais vulneráveis serão sempre o alvo ou os mais atingidos, mesmo que todos paguem a conta, eleitores ou não. Gerou muita apreensão a todos o que seria dos indígenas, mulheres, pretos, pobres, trabalhadores do campo e das cidades, aposentados, idosos, pequenos negociantes, jovens das universidades, crianças e adolescentes do ensino público, professores, enfim, o que seria da população como um todo. Também gerou muita apreensão, as ameaças à biodiversidade, à flora, à fauna, aos ecossistemas, às unidades de conservação, aos órgãos ambientais, todos na mira e alvos de desmonte e perseguição aos seus funcionários. Só via em minha frente cenários apocalípticos de terra arrasada e de disruptura. O ódio desse grupo a esses setores da sociedade é nítido e caracterizado.
Por que voltaríamos à barbárie? Por que tantos votaram neles? É toda uma construção que não vem de hoje. Passa pelas igrejas evangélicas e o direcionamento do voto para esse grupo pelas suas lideranças. Hoje, há luzes emergindo deste setor. Mas o estrago foi imenso. Mentiras veiculadas repetidamente em um ambiente dogmático, passaram a ser verdades sem contestação. Quem duvidaria do pastor que pretensamente prega a palavra de Deus? Estes ambientes são de aceitação da palavra, não de despertar consciências.
Diante destes fatos, vemos a história se repetir. As igrejas evangélicas percorrem o mesmo caminho de outras igrejas que no passado se vincularam a governos e ao estado e se constituíram seus braços de poder. Igrejas tem seus bancos, suas emissoras de televisão e seus próprios partidos políticos. Tornaram-se empresas da fé? (ver documentário “Apocalipse nos Trópicos” de Petra Costa). São muitos os desvios. São necessários os pontos de retorno.
O retorno à Cristo, ao evangelho, à sua mensagem e à opção pelos pobres. E muitas já fizeram, desde a década de 70, como a igreja católica em sua Teologia da Libertação e as Comunidades Eclesiais de Bases. Vale aqui destacar os posicionamentos da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, do emérito Arcebispo de Aparecida Dom Orlando Brandes, de Dom Vicente de Paula Ferreira e de tantos outros, fazendo um corpo atento e vigilante a possíveis descaminhos da democracia, sob o manto dos papas Francisco e Leão XIV.
E há o movimento de vários pastores, como Ed René Kivitz e Hermes Fernandes que também se posicionam e trazem as pessoas à consciência. É o movimento de retorno necessário para os evangélicos e protestantes para desnudar a manipulação e o uso das igrejas para fins políticos e de poder ao aderirem ao “projeto” bolsonarista.
As fake news são outro vetor que alimentam diariamente contingentes e mais contingentes de pessoas sem filtros. São fábricas de mentiras que vão direto para a mente das pessoas. E assim são absorvidas como verdades. Sites, páginas, perfis de influenciadores no Instagram e Facebook alimentam a desinformação, intoxicam e envenenam as pessoas com ódio e mentiras.
E por trás disso, há as grandes corporações que auspiciam um estado mais fraco, mais livre, com controles e regulamentações incipientes para exercerem o domínio dos mercados, das áreas de produção, dos ecossistemas, dos territórios e das pessoas. Se os grupos radicais são a face visível e exposta do processo, estes estão por trás na disputa pelo controle do país. Trabalham mediante seus prepostos, seus laranjas, para se apossarem das empresas estatais e ao mesmo tempo conseguirem isenções fiscais bilionárias, colocando a conta para a população pagar, ao querer impor o aumento da idade para aposentadoria, desvincular o reajuste do salário mínimo minimamente pela inflação, e por consequência, as aposentadorias, e cortar os benefícios sociais e programas de governo, fragilizando o trabalhador, privatizando tudo que for possível. É necessário juntar forças e enfrentar o que está posto, por este projeto de dominação da nação.
Respiremos. Esta eleição para a presidência foi vencida. Mas, mesmo perdedores, tentarão se apropriar do governo. É um projeto persistente. A cada eleição tentarão ampliar seu domínio. As forças da frente ampla democrática precisam se unir e se fortalecer e trabalhar juntas com os movimentos populares que as levaram à vitória.
É uma luta contínua. É a luta do século, é a luta pela vida. É a luta pela liberdade das pessoas e da nação.
Frederico Arzolla é Engenheiro Agrônomo, Doutor em Biologia Vegetal, Pesquisador em Conservação da Natureza e Florística e Fitossociologia de Árvores da Mata Atlântica e associado do IBAP.




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