Uma morte duas perdas

Atualizado: 14 de Jan de 2019

- Ibraim Rocha -


Revoltados, moradores do Paracuri não arredaram o pé de onde foi achado oleiro baleado. Foto: Caio Oliveira. Fonte: https://www.oliberal.com/policia/corpo-de-oleiro-ferido-na-ação-da-pm-no-paracuri-é-encontrado-por-moradores-1.5551

A insensatez que torna banal a versão de morte em troca de tiros nos morros do rio de janeiro, parece já coisa de ficção, e, cada vez mais se fortalece o discurso das autoridades policiais que mais matam no mundo, como é a Polícia brasileira. E que discursos extremistas, agora querem criar a versão de morte por Drone, mas essas cenas se espalham no país e em Belém, infelizmente não é diferente.

A diferença é o cenário que torna mais flagrante o despreparo do aparato de polícia do Estado, quando em 22 de novembro, por volta de 15 horas, foi achado o corpo de Osmair Pereira Monteiro, 27 anos, conhecido como Gitão, engatado nas raízes de uma árvore do manguezal, ele era um artesão ceramista, que vivia de uma arte já em extinção, confecção de peças marajoaras.

O artesão tinha desaparecido desde a manhã do dia 22 de novembro após uma operação de combate a drogas, no distrito de icoaraci, na periferia de Belém, que mobilizou 70 homens das Polícias Militar e Civil nos bairros do Tapanã e Paracuri, cujos nomes são homônimos de rios que cortam a região, conforme narram os populares, Osmair foi baleado dentro de uma canoa, durante a operação policial.

Além dele, outros dois tripulantes foram feridos a tiros na ação policial, que segundo a versão da Policia Militar eram todos suspeitos de participação no tráfico de drogas e foram feridos após resistir à abordagem. A versão dos moradores da comunidade defendem que os baleados no Paracuri eram artesãos que trabalhavam com extração de barro no momento que foram feridos, e criticam a ação policial.

O assassinato deste artesão é simbólico da violência do aparato policial na capital, que sempre tem uma justificativa de reação dos mortos, mas a morte está sendo contestada, porque o morto era conhecido por sua arte no local pela comunidade, cujo corpo simbolicamente não foi arrastado para mais longe porque engatado nas raízes do mangue de onde tirava a argila que servia de matéria-prima para a sua arte.

Morre um homem inocente e com ele um pouco de uma arte indígena que ainda teima em viver na periferia de Belém, um mal presságio de extinção de duas riquezas que se entrelaçam na mesma tragédia a banalização da perda uma vida inocente e dos restos da arte marajoara.

Ibraim Rocha, Dr. em Direito, Procurador do Estado do Pará

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