ENTRE “BUZINAÇOS” E AGRESSÕES, CIVILIZAÇÃO AGONIZANTE

- Ricardo Antonio Lucas Camargo -


Os problemas de inspiração para a redação de textos periodicamente são de duas ordens: ou por um marasmo intenso ou por uma avalancha de acontecimentos.


O marasmo faz com que se esgotem os assuntos e exige o talento de um Marcel Proust [1871-1922] para extrair o máximo de cada um dos detalhes que cercam uma determinada situação, principalmente os de caráter sensorial.


A avalancha de acontecimentos torna difícil identificar, dentre eles, qual merece a atenção maior, qual se apresenta como manobra diversificatória e qual é, realmente, o dado que atinge aspectos essenciais. Esta avalancha tem sido objeto de muitas reflexões nesta revista: seja na exacerbação do nacionalismo acompanhada pela pulsão pela morte, no texto de Arnaldo Domínguez de Oliveira (acessado em 23 mar 2020), seja a ruptura entre o Ministro da Justiça e o Presidente da República comentada por Guilherme Purvin de Figueiredo (acessado em 25 abr 2020), seja o repensar do consumismo por decorrência da pandemia COVID-19 assinalado por Carlos Marés de Souza Filho (acessado em 2 abr 2020), seja o enfrentamento da pandemia, levado a sério pelos governos locais e tratado com desdém pela Chefia do Executivo Federal, salientado por Marie Madeleine Hutyra de Paula Lima (acessado em 27 abr 2020), seja o desencontro de informações sobre a pandemia versado por Patrícia Bianchi (acessado em 19 abr 2020), seja o caráter francamente kafkiano do procedimento burocrático para acesso ao auxílio emergencial durante a pandemia tratado por Sandra Cureau (acessado em 29 abr 2020), entre outros tantos.


Os últimos acontecimentos, marcados não somente pelo fanatismo e desprezo às recomendações médicas como também pela violência, inclusive com o desrespeito à vizinhança de hospitais (vide Felipe Pereira, acessado em 4 maio 2020), conduzem à reflexão acerca de ainda se poder falar em civilização no Brasil.


Muitas das frases que os moralistas políticos de hoje pronunciam vieram do escritor reacionário - adversário da Revolução Francesa e defensor ardoroso da Inquisição espanhola - Joseph de Maistre [1753-1821]. Uma delas: “cada povo tem o Governo que merece” [“Toute nation a le gouvernement qu'elle mérite” - Cinque lettres sur l'éducation publique en Russie a M. le Comte Rasoumowski, Ministre de l'Instruction Publique. In: MAISTRE, Joseph Marie. Lettres et opuscules inédits. Paris: A. Vatton, 1853, t. 2, p. 281-2 – tradução livre do signatário]. A partir deste mote, com que um dos últimos baluartes do Estado confessional iniciava em 1810, algumas observações e conselhos para a adoção de uma politica de instrução pública na Rússia do Czar Alexandre I [1777-1825], que dois anos depois derrotaria o representante cesarista da Revolução Francesa, Napoleão Bonaparte [1769-1821], vamos formular uma pergunta nada inocente para as “voltas”: que povo merece um Governo que negue os valores civilizatórios mínimos?


Pintura a óleo, "A Balsa da Medusa" (1818-19), de Théodore Géricault.


Muito se falou, nos últimos tempos, no “politicamente correto” como uma tirania posta por pessoas desprovidas de senso de humor para impedir o divertimento popular, e muitos dos inconformados com o “politicamente correto” sentiram-se representados pelo candidato vencedor do pleito presidencial em 2018. Claro que a comédia sempre traz uma pequena marca de crueldade, por mais inocente que ela se queira: o que, normalmente, provoca a risada no ser humano é uma fraqueza que se identifica em outrem. Uma dificuldade em levar a cabo uma tarefa, uma atrapalhação em uma fala, não deixam de traduzir situações de fraqueza. Entretanto, existem níveis de tolerância que são estabelecidos para que as pessoas se divirtam à custa da fraqueza alheia, até porque mesmo a comédia, em suas origens, acaba por ter um objetivo de, pelo riso, contribuir para o aperfeiçoamento ético da sociedade, corrigindo os costumes, como se vê no famoso mote latino ridendo castigat mores. Agora, por menos que se possa atribuir o caráter de universalidade aos valores em geral – a base da culinária riograndense é tida como sacrílega no Sri Lanka, por exemplo -, aqueles que são considerados fundantes da civilização em que se vive não podem ser postos em discussão, a menos que a civilização, mesma esteja em processo, ou de substituição por outra, ou de ingresso no campo da barbárie. Nossa civilização não aceita como se possa impor a quem quer que seja que atente contra sua própria vida, por exemplo, ou que ame ou deixe de amar ao que ou quem quer que seja.


Com a desculpa do combate ao politicamente correto, entra-se na fase do "sou onipotente", e se considera próprio de pessoas de bem, cristãs, fazer buzinaços nas proximidades de hospitais e atacar como "impatrióticos e agentes vermelhistas" os profissionais de saúde, que ainda correm o risco de ser atingidos pelo vírus, e fazem questão de “esquecer” que alguns não têm a opção de permanecer em casa; estão sujeitos ao risco permanente de contraírem o vírus e precisam das poucas vagas existentes no hospital. Os que têm a possibilidade de ficar em casa, não contribuam para agravar a escassez dos meios à disposição dessas pessoas.


Não abrirão mão, tais cristãos de bem, de, em sucumbindo, eventualmente, buscar os serviços hospitalares, que já eram escassos para atender as doenças anteriores ao COVID-19. Deveriam, exatamente em função da escassez. Afinal, nada deve ser mais glorioso, para eles, que morrer pela glória de seu Messias, que é bem outro que o referido no Novo Testamento. É o que, diante das mortes, diz “e daí?”, recebido com tolerância e, mesmo, com entusiasmo (vide Julia Chaib e Daniel Carvalho, acessado em 28 abr 2020) pelos mesmos que, com razão, ficavam revoltados quando, diante de mortos em acidente aéreo, ouviram uma Ministra de um Governo de que não gostavam responder, de um modo entre jocoso e grosseiro, “relaxa e goza”.


Eis o cristão que nos governa, a quem há católicos que consideram mais fiel ao cristianismo que o atual Papa! Nem preciso adjetivar: basta apenas recordar a ligação que existe entre o desprezo a medidas de profilaxia e a evolução rápida do ritmo dos contágios. Vale, em comparação, ver o que disse o Papa em relação às peregrinações, diante da pandemia, na exata contramão dos que pretendem desdenhar desta:


"Francisco recordou que, devido à pandemia, as peregrinações aos santuários marianos, tão caras aos fiéis, podem ser feitas espiritualmente:

‘Acabamos de começar maio, o mês mariano por excelência, durante o qual os fiéis amam visitar os Santuários dedicados à Nossa Senhora. Este ano, devido à situação sanitária, nos dirijamos espiritualmente a esses locais de fé e devoção, para colocar no coração da Virgem Santa nossas preocupações, expectativas e projetos para o futuro" (vide Vatican News, acessado em 3 maio 2020).


Diante de qualquer crítica ao Presidente e seus seguidores, a resposta é, invariavelmente, que, além de ele não ser “politicamente correto” e chocar os que estão acostumados com “esse tipo de hipocrisia”, e que criticá-lo é dar força à velha politica, com seus conchavos e seus desvios, que também teriam sido causa da inconformidade declarada por muitos que ajudaram a conduzir à vitória eleitoral o ex-militar que se apresentava como o “anti-sistema”. Trata-se do desejo de pureza, da atuação do político norteado exclusivamente pelo que Max Weber [1864-1920] denominou “ética da convicção”, arredado o pragmatismo do que ele denominou “ética da responsabilidade”, como se ambas, em si mesmas, não passassem de “tipos ideais”, que não têm como permitir realizar-se na concretude. A ética da convicção em estado puro caracteriza as ações do fanático, a da responsabilidade em estado puro, a do cínico, segundo observou o mesmo Weber. Em todas as instituições, a possibilidade concreta de agir supõe um tempero de ambas as éticas. Precisamente porque não se está numa sociedade de anjos, as instituições precisam existir, e é a partir dessa premissa que passa a ser necessário preservá-las, diante da alternativa de irrefreado voluntarismo que se desenha, por parte de inconsequentes que parecem não ter aprendido, ainda, que as Fúrias, uma vez liberadas, não distinguem entre os respectivos atingidos.


Daí, faço uma pergunta a esses cavaleiros da moral, que se julgam liberados do “politicamente correto” ao ponto de se colocarem acima até mesmo do mínimo exigido para uma convivência social mínima viável. Quero saber qual a justificativa para atacar enfermeiros e fazer buzinaços nas vizinhanças de hospitais. Atenção: não vale mencionar as palavras "Cuba", "PT", "ex-presidiário", "Venezuela", "Coreia do Norte", “comunismo”, "Lula", "Dilma". Nestas horas, ocorre-me a emblemática foto do ativista da Ku-Klux-Klan ferido sendo tratado por uma equipe médica composta por negros em uma sala de cirurgia, que, independentemente de ter sido elaborada com objetivos publicitários, dá uma mensagem das mais necessárias (vide Gilmar Lopes, acessado em 4 maio 2020)...

Ricardo Antonio Lucas Camargo é professor nos cursos de Graduação e Pós Graduação em Direito da Universidade Federal do Rio Grande do Sul – Professor Visitante da Università degli Studi di Firenze – ex-Presidente do Instituto Brasileiro de Advocacia Pública – IBAP.


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